Luiz Carlos "Barata" Cichetto barata.cichetto@gmail.com
Imagine uma banda de Rock sem guitarra! É, nem é tão difícil imaginar. Agora imagine que o guitarrista é substituído por um saxofonista que em determinados momentos toca dois saxofones ao mesmo tempo... Ah, tá ficando mais difícil! Agora imagine uma banda em que o baixista toca um contrabaixo apenas com duas cordas na maior parte do tempo... Duas cordas? Isso mesmo, duas cordas. E as mais graves. E o mesmo baixista é, até fisicamente uma lembrança de Lou Reed dos melhores - não que Mr Reed tenha tido piores - tempos, construindo poesias com fortes e ao mesmo tempo belos conteúdos. Se imaginou o Morphine, acertou. Se não imaginou é porque não conhece o trabalho dessa extraordinariamente criativa banda.
Ok, não precisa se sentir culpado. Não sou exatamente o sujeito mais mal informado em informação sobre Rock e também não conhecia. Certo, aparecem e desaparecem centenas de bandas todos os dias e a massa de informação é tanta que acaba escapando algo. Tinha escutado falar do Morphine, mas o nome me soou como nome de banda japonesa ou de Black Metal, duas coisas que abomino.
E assim passou o tempo, a ponto de a banda ter feito uma passagem meteórica pelo planeta Terra durante 10 anos entre 1989 e 1999 e eu nem ter percebido seu brilho. Um brilho interrompido por um relâmpago chamado ataque cardíaco em pleno palco de Mark Sandman,o tal baixista das duas cordas. Um daqueles caras que parece que tem o caminho certo e traçado das estrelas, que é brilhar intensamente e extinguir, deixando a humanidade a imagem de seu brilho por milhões de anos-luz.
"Morphine" é morfina, lícita droga que ameniza uma dor. Um entorpecente musical...? Não, "Morphine" não é entorpecente, é energético, potencializador de emoção, dor á flor da pele, percepção em estado puro, onde o baixo de duas cordas cria um clima de Inferno supranatural onde as almas criativas habitam até a fim dos tempos. Um Inferno onírico e esotérico que esbarra em loucura e doença. Sem maniqueísmo nem descrença. Acordes perfeitos, percepção magnificada e modificada. Emoção Perceptiva e Percepção Emotiva.
Enquanto isso, em algum lugar do espaço o clima criado pelo saxofonista Dana Colley, são trombetas que chamam nossa emoção a abordar a nave mãe dos sentidos, modificando a percepção do espaço-tempo, transformando em sentimento puro o movimento do ar que circula dentro de seu instrumento e penetra em nossos poros e todos os buracos existentes na nossa alma. Já a bateria de Billy Conway é o sangue que dá o ritmo ao pulsar de um coração transcendental carregado de selvagem e catatônica emoção, batendo ao ritmo de seus pratos, bumbos e ton-tons.
Agora, imagine uma banda que mistura Jazz com Blues e Rock... Ah, não, essa é a definição com jeito de modernosa e de anti-definição, que críticos talvez bem informados sobre música dão, querendo parecer que estão desrotulando, o som do Morphine. E se alguma definição cabe ao Morphine é apenas: "Percepção Emocionada", já que a ter percepção, modificada com fatores químicos ou não, é fácil. Agora transformar percepção em emoção é outra coisa. Abrir a porta da percepção é fácil, difícil é traçar o caminho que existe além dela.
Obrigado ao Raul, que me falou sobre o Morphine e me mostrou o vídeo de "Radar" começo de uma viagem a bordo da Percepção Emocionada.