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Inversões
(Por Paloma Fonseca)
pam2003@terra.com.br
À primeira vista, a coletânea "Impessoal e transferível" traz poemas amorosos e eróticos, se confiarmos na capa estampando a figura de uma mulher seminua e em posição sexy. Mas, antes, trata-se de poemas que são a inversão do amoroso e do erótico, e explico isso mais adiante. O próprio título da coletânea é uma inversão da expressão 'pessoal e intransferível', usada para designar algo que é particular e não passível de ser alienado por outro. A intenção do autor, então, já está manifesta: ele escreve sobre algo que não é meramente pessoal, e que, sim, pode infectar qualquer um de nós.

O quê, então, motivou o autor a se expressar pela poesia? Voltemos à capa: a mulher traz uma tarja preta nos olhos, aquela mesma usada para esconder a identidade de menores infratores, cujas imagens são expostas nos meios de comunicação. Não conhecemos quais a reais intenções do editor ao usar esse recurso, mas ele é sugestivo, porque a mulher dos poemas cometeu infrações. De que tipo? Eu diria do tipo sentimental e emocional. Ela cortou o barato do 'eu' poético, seja pela traição, pela indiferença, pela falta de carinho, pelo fato de não ter lido os poemas dele, todos esses delitos anunciados em "Leve um homem ao matadouro...", a primeira parte do primeiro da série de 18 poemas.

O poeta está inconformado, pois não pode expressar seu desejo, sua vontade, seu ardor, sua paixão pela mulher amada. Ela tolhe, pelo desdém, pela indiferença, pelo desprezo, todo tesão que quer sair, se libertar em forma de beijos e carinhos, saliva e esperma. O poeta, então, sente-se preso, e só enxerga na morte - isso mesmo, na morte - a saída dessa prisão. A morbidez atravessa a série de poemas de cabo a rabo, perseguindo freneticamente o autor. Por isso, considerei "Gosto da morte" o poema-síntese. O duplo sentido de 'gosto' - como paladar (gôsto) ou como estado de apreciar (gósto) - reforça o que ficou demonstrado nos outros poemas: a presença incessante da morte. Junto com a traição, constituem os temas recorrentes tratados pelo auto-denominado 'Arquíloco da era moderna'.

Em determinado ponto, mais exatamente o primeiro verso de "O poder do amor e da criação", o autor demonstra o seu próprio cansaço pela recorrência a tais temas:

'Agora chega! Não falo mais em morte ou em traição!'

Ledo engano... Pois verificamos que a intenção do verso não corresponde necessariamente ao título, já que o amor em pauta é aquele pelas 'putas de lua'. Eis que o poeta foi desviado para o caminho sujo, em contato com as prostitutas, porque ele mesmo está puto da vida, não consegue conter a sua amargura, a ponto também de comparar a amada a uma puta ("Eu te amo, sua puta!", "Fuck Yourself", "Porca"), preferi-la morta ("Morta") e de nomear a dor que sente no peito pelo nome dela, a fim de aprisioná-la em seu coração ("O nome da dor"). Por isso, não podemos afirmar que são poemas amorosos e eróticos, já que toda amorosidade vai se esvaindo e o erótico resvala na tensão. Assim, o leitor não pode esperar singeleza ou doçura nos versos. Afinal de contas, o 'eu' poético foi traído, ludibriado, maltratado...

"Gosto da morte" expressa a inversão das inversões, já que, no poema, não é mais a mulher amada o objeto de desejo, e sim, a Morte. O arremate final do poema contém uma súplica àquela que tem um belíssimo rosto, àquela que não trairá nunca, jamais, àquela que tem o gosto da liberdade e do tesão:

'Eu lhe digo, me liberta, Senhora, me liberta da prisão!'

A leitura dos poemas pode não ser confortável, mas atire a primeira pedra quem nunca se encontrou em posição desconfortável, angustiante, desoladora, provocada por uma dor amorosa que agrilhoa. Não gosta de compartilhar sensações mórbidas e de dor? Diga-me então porque Arthur Rimbaud, Edgar Allan Poe e Augusto dos Anjos continuam sendo lidos. Ou pelo menos leia a "Segunda Epístola aos Hipócritas", ou simplesmente escreva um poema, a exemplo de Danny C. Ferrice, o nosso ilustre autor fictício, e tire-o da gaveta, como afirma Sérgio Sampaio na epígrafe da coletânea. Quer queira quer não, quero que saibas que a morte acomete a todos - ela é impessoal - e a sensação relatada nos poemas é transferível, impregna a mente e os sentidos.
 

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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
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10/09/2008

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Barata, nascido Luiz Carlos, Cichetto tem 51 anos, é poeta, escritor, letrista, artesão e desenvolvedor de sites. Escreve desde os 12 anos de idade. Durante a década de 1970 publicou na chamada Imprensa Nanica. No ano de 1981, editou o livro de poesias "Arquíloco". Em 1998, criou o projeto cultural “A Barata” com o lema “Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade”. De 2001 a 2005 organizou inúmeros eventos de Rock. Como letrista foi autor de “Sangue de Barata” que venceu o Festival Rock na Net. Como poeta e escritor, teve texto publicado no Jornal do Brasil e recebeu menção honrosa em concurso literário publicado na coletânea "Elos e Anelos". Tem mais de 500 poesias e 1.000 crônicas e ensaios publicados em diversos sites e blogs. Atualmente também produz e apresenta o programa Rádio Barata, com Rock, poesias e idéias, pela Rádio Web Underground Lágrima Psicodélica.
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