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MIMEÓGRAFO A ÁLCOOL, A "HOME PAGE" DA ERA PRÉ-INTERNET
Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com

Sou sim da era do mimeógrafo a álcool, a “Home Page” da Era Pré-Internética. A maioria com menos de 40 anos sequer escutou falar. Um sistema de impressão arcaico, mas visceral. Simples e necessário, como tudo tem que ser na vida, o "equipamento" consiste em um "stencil", parecido a um papel carbono (Opa, também não sabe o que é isso? Ah, ta, digamos que o papel carbono era o precursor da impressora: uma espécie de filme colocado no meio de duas folhas para fazer cópia) onde era desenhado ou datilografado o que a gente queria, depois preso à "máquina" que era alimentada com álcool comum . Algumas folhas de papel sulfite e o milagre acontecendo depois de horas e horas de um braço cansado de girar uma manivela. Folha a folha, quando não amassava, nossos livros e "jornaizinhos" - era assim chamado o atual "fanzine" - que tinham saído de nossas cabeças e mãos tomavam forma. Estava pronta nossa "Home Page". Agora faltava o "browser" para chegar até os "users".

Depois de devidamente grampeados, nossos livrinhos ou jornaizinhos, impressos todos em azul, a única cor disponível nos mimeógrafos caseiros, saiam às ruas, portas de teatro, shows de Rock (shows de Rock era sempre em teatros na Era Pré-Internet, nada de botecos escuros, fedendo a cigarro, bebida e mjo). Poemas eram lidos e gritados pelas ruas e praças, ou enviados dentro de um envelope pardo pelo Correio. Era toda interatividade que tínhamos disponível: a resposta aos nossos bardos e brados sob a forma de uma carta escrita à mão ou datilografada que demorava dias, semanas até chegar ao seu destinatário.

Foi assim que brotaram centenas, milhares, quiçá milhões de combativos, criativos e ativos veículos da "Imprensa Nanica". “Semente”, “Cogumelo Atômico”,” A Mosca”, o meu livrinho “Arquíloco” e tantos outros eram estandartes de uma crise social, política e principalmente moral que a ditadura militar fingia não perceber, porque a criara.

O "Cogumelo Atômico", do Luís “Tout-Curt” de Brusque, foi ao certo o mais importante de todos. Luís foi um dos, senão "o", pioneiro na área da imprensa feita de desejo e resistência, como também o foi em construir, junto com Claudia Bia, bonecos de bolas de gude, que depois se transformaram em febre em São Paulo.

Também desta leva criativa existia o "Sarrumor" que deu nome, fama e muito dinheiro ao Laerte (claro que é brincadeira, né Laerte? Ao menos a parte da fama...) que também depois fundou a banda Língua de Trapo, até hoje na ativa.

Heróicos tempos, loucos tempos! Heróicos garotos éramos todos. Crescemos e nossos cabelos pararam de crescer ou foram cortados, muitos ficaram carecas, gordos e ricos. Outros piraram, outros morreram de overdose e tristeza. A rebeldia adolescente deu lugar à busca de necessidades mais claras e egoístas. Muitos temos filhos e nossos filhos já têm filhos e portanto muitos somos "vôzinhos". Muitos perderam ou se perderam em sonhos. Muitos os deixaram no fundo de uma gaveta do tempo, amarelado e empoeirado. Mas os sonhos "não aceitam nem pedem perdão" (eu não precisava colocar essa frase entre aspas porque é minha mesmo.) e eles, os sonhos, acabam nos acordando com "pancadas na cabeça", como no conto de um livrinho de Valdir Zwetsch, de "O Fabricante de Sonhos".

Nossa primeira viagem na máquina do tempo á Era Pré-Internética termina, mas agora todos sabem que existiu uma época em que as pessoas eram criativas, cultas e amigas apenas usando um mimeógrafo a álcool, a "Home Page" da Era Pré-Internética; E que nosso "Browser" (Navegador) eram o ônibus e as pernas, mesmo. E nós não deixamos de ser felizes, apenas esperamos que ela, a Felicidade, nos chegue por “E-Mail”.
18/10/2008
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.861 - Livro 974 - Folha 209


Palavras-Chave

Luís Tout-Court, Claudia Bia, Laerte Sarrumor, Luiz Antônio Domingues (Tiguês), Leila Mícolis, Henrique Novak, Semente, Cogumelo Atômico, Pipoca, A Mosca, Valdir Zwetsch, Jacques Kaleidoscópio, Nano-Gê & Yara, Walter Franco, Itamar Assumpção, Tarkus, Patrulha do Espaço, Jardim Popular, Led Slay, Fofinho 2 de Janeiro, Luís Carlos Martins de Oliveira, Angela Helena Pereira, Cynthia Bandeira, René Férri, Grilo Falante, Luli e Lucinha, Antônio Carlos Monteiro, Arquíloco, Inventário de Cicatrizes, Tibet, Juju Nogueira, Caio Flávio,  Cornélius Lúcifer, Teatro Martins Penna, Made In Brazil, Tenda do Calvário, Walter Baillot, Teatro da Praça, Jorge Mautner, Fragmentos de Sabonete, Ditadura Militar, Gonorréia, Zona do Meretrício de São Paulo, Rua dos Andradas, Barão de Limeira, Henfil, Fradim, Rolling Stone Brasileira, Luiz Carlos Maciel, Resistência, O Movimento, Opinião, O Repórter, SportStore, Rubens Bueno Assumpção, James Dionizio, Rock A História e a Glória, Ana Maria Bahiana, Ezequiel Neves, Joelho de Porco, Terreno Baldio, Língua de Trapo, Zona Leste de São Paulo, O Fabricante de Sonhos, Rolando Castello Júnior, Dudu Chermont, Sergio Santana, Percy Weiss, Manito, Paraíso dos Loucos, Rua Aurora, Teatro Paulo Eiró, Lira Paulistana, Cine Bijou, Joelho de Porco, Gigante Brasil, Sindicato, Ricardo Petraglia, Dick Petra, Próspero Albanese, Conrado Ruiz, Tico Terpins, Apocalipse, Arrigo Barnabé, Sabor de Veneno, O Terço, Mutantes, Neblina, Concerto Latino Americano de Rock,  Rango, Edgar Vasquez, Pasquim, Anos 70, LP, Vinil, Bruno Blois, Breno Rossi, Feira Hippie, Teatro Bandeirantes, Revista POP, Música do Planeta Terra, Júlio Barroso, Manito, SESC Vila Nova, Woodstock, Discos, LP, Compacto Simples, Gravador Mono Recorder, Fita TDK, Zeca Jagger, Jornal de Música, Olivetti Valentine, Máquina de Escrever, Zé Brasil, Maytrea & Silvelena

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