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O ESPADA
Belvedere Bruno
belbruno@oi.com.br
Publicação Original em: 1/10/2005
- Ô Espada!, como é que vai essa força? - Usualmente assim chamavam Antônio da Costinha, moço moreno, e forte que nem touro, que, assediado pelas mulheres, sentia imenso prazer com o título que ele próprio se atribuiu: Espada!

Os dias andavam pesados. Dorinha, sua mulher oficial, resolvera ter uma séria conversa com ele. O local escolhido era um motel no centro da cidade. As crianças não podiam participar do que já previam ser um tremendo bate-boca.

A noite estava quente, e, ao entrarem no quarto, uma barata cruzou o caminho deles. Não podiam reclamar, pois a escolha do local prometia esses encontros. Havia um cheiro de mofo no quarto, e as roupas de cama encardidas mostravam a decadência do estabelecimento.

Dorinha deitou-se na cama e suspirou. Olhava para as cortinas em tom grená desbotado e fazia cara de nojo. Não se contendo com a escolha de Antônio, disse: - Que lugarzinho mais chinfrim! Vixe! - Ele a olhou com ar de descaso e pegou um cigarro.

- Antônio, você está envelhecendo e não toma juízo. Não passa um mês sem que alguma rapariga apareça em nosso portão pra dizer que tem caso com você. Isso sem falar nas que dizem estar grávidas. Uma pouca vergonha que não suporto mais. Que humilhação!. A vizinhança já me olha atravessado. Acho que até a vizinha ao lado, a mulher do açougueiro, não escapa de suas sem-vergonhices. Aquele short jeans apertado, com aquelas coxonas, só pra te provocar... E você cai feito um bobo! Chega a babar!

Pára com isso, Dorinha! Tô cansado dessas maluquices suas! Onde tem mulher você vê coisas. Não se garante mesmo, pô! - Irritadíssimo, Antônio faz fez menção de se levantar e sair. Ela se opôs, pegando-o pelos braços, ao que ele revidou com um empurrão que a fez cair ao chão. - Tô de saco cheio! –disse ele. Pegando o telefone, ligou para à portaria do motel e pediu duas cervejas e um copo.

- Mais bebida.... A gente anda numa pindaíba desgraçada. O colégio das crianças atrasado, a conta de luz também, e você ainda tem coragem de gastar com bebidas... Isso já dura dois anos. Antes, você era um excelente marido e pai. Nada nos faltava. - disse Dorinha chorando, trêmula.

- Pô, me deixa! Você enche o meu saco, mulher! É chata demais, por isso preciso de outras, para me alegrar, me dar pique pra viver

- Pique pra viver, seu ingrato? Você vive de forma irresponsável, eu me mato em casa, ainda faço faxina e cuido de doentes acamados pra tirar um dinheirinho, e você gasta o que ganha com safadezas. Nossas crianças vão saber o tipo de pai que você tem sido. É muito fácil, uma vez por mês, sair, levá-las ao parque e comprar sorvete. E o resto como fica?

A essa altura ele já havia tomado quatro copos de cerveja. Já andava um tanto fraco com bebidas, e um pouco de cerveja já era suficiente para tirá-lo do sério.

- Que merda de mulher! Dorinha, não te suporto mais. Vamos nos separar. É o que desejo. Minha vida com você é uma bosta! Você é uma mulher que nunca me deu tesão de viver. Saia de casa e me deixe com as crianças.

- O quê? deixar as crianças com você, se não compra sequer os alimentos e paga as mensalidades escolares?

- Eu assumirei tudo isso no exato momento em que você sair e levar todas as suas coisas. Leve móveis, geladeira, fogão. Tudo!

Após inúmeras discussões ela aceitou. Seria a título de experiência, disse ele. Se, num prazo de seis meses, ela visse que tudo estava a mesma coisa, ele sairia e ela ficaria de vez com tudo e ele ainda daria a pensão alimentícia e pagaria a escola das crianças.

- De qualquer forma, a separação já é fato consumado, disse ele, enfaticamente.
Havia uma meia água na casa da mãe, e para lá foi Dorinha, .uma semana após essa ocorrência.

O tempo foi passando. Dorinha via as crianças apenas de quinze em quinze dias. Elas estavam bem tratadas, felizes. Ela se perguntava onde tinha errado. Não conseguia entender como os próprios filhos se adaptaram tão bem à separação. Antônio estava outro. Gentil, oferecia licores a ela durante as visitas, conversava, cheio de mesuras.

Ao final dos seis meses, durante uma visita na ausência das crianças, que estavam numa excursão à Terra Encantada, com alunos da escola, Dorinha teve coragem para perguntar a ele a razão de tudo ter corrido tão bem. Seria ela tão daninha a ponto de tudo ter melhorado após sua partida?

- Bem, Dorinha, as crianças se recuperaram de seu abandono após três meses. Tive que levá-las ao posto de saúde para acompanhamento psicológico e fiz com que prometessem nunca tocar no assunto com você. Se fizessem, ameacei que as internaria num colégio bem longe. Afinal, com a idade de sete e nove anos, é fácil tratar esses casos.

Uma ira incomum tomou conta de Dorinha.

Ele ria: - Lembra do golpe da primeira gravidez, Dorinha? Pensa que não sei disso? Soube através de sua irmã, a Cleidinha. Isso há dois anos, quando conversávamos num local reservado. Ah, mulherão!!! Ela me contou que você planejou a gravidez pra me pegar. Estava preocupada por já estar com trinta anos, e solteira. Como iria te deixar na mão com uma barriga daquela? Tudo que você queria era um otário pra te sustentar, depois de andar com toda a galera do bairro. Fui chamado de babaca por todos. Mas o tempo é justo. O feitiço virou contra o feiticeiro, né? Você que acabou me sustentando nesses últimos tempos, e amargou variados chifres! E ria...

Da janela ao lado, a vizinha coxuda chamou por ele e disse que a festa seria às nove e meia e que já arrumara quem ficasse com as crianças. Ele, então, disse a Dorinha que por coincidência ela havia se separado na mesma época que eles.

- O marido era um idiota!- disse ele, e riu. - Adorava rir nesses momentos cruciais. Nessas horas tinha ares de hiena.

- Sinto muita sede. Me dá um copo d'água . –disse Dorinha.

- Vá à cozinha e pegue água no filtro, ora!

Dorinha foi a à cozinha e, vasculhando os armários para ver o que tinha de comida, viu que a quantidade era farta e ainda tinha supérfluos. A geladeira estava com dez latinhas de cerveja. Pegou duas latas. Antes, pegara um envelope, que estava no armário abaixo da pia, junto aos detergentes, sabões e água sanitária, despejando o conteúdo dentro de uma das latinhas. Chegou à sala. Ele assistia futebol. Deu uma latinha a ele.

- Eta! Tá virando gente, né?- disse Antônio, o Espada. E tomou de um fôlego o conteúdo, para momentos depois, diante dela, começar a espumar.



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