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TESTEMUNHO DE PIERRE DOURY: DÉCIMA TERCEIRA MISSÃO CIVIL EM DEFESA DO POVO PALESTINO, 18 E 19 DE ABRIL DE 2002 (PARTE 1)
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
lucio@bdonline.com.br
Publicação Original em: 19/12/2007
Traduzido por Lúcio Emílio do E. S. Júnior

(Nota: este texto é um depoimento escrito por Pierre Doury, professor de História na cidade francesa de Toulose e militante comunista. Pierre fez parte dessa missão organizada com a finalidade de enviar civis a cidades palestinas conflagradas, para que pudessem fazer relatórios e tentassem ajudar a contar ao mundo a história de cidades como Jenine, devastada pelos tanques israelenses. Esse depoimento faz parte do livro Abril em Jenine, inédito no Brasil e me foi enviado pelo próprio autor, que reside hoje na ilha de Réunion).

Dizem que a memória mais tenaz, a última a apagar-se, é a memória dos odores. Eu creio que, do ano de 2002 em Jenine, guardarei a lembrança do odor. O cheiro doce e enjoativo da morte e da guerra, um odor de coisas podres ao sol mesclado com o da carne humana em decomposição. Este odor sentimos quando ainda não sabíamos, todavia, se poderíamos chegar à cidade e ao campo de refugiados. Nós já tínhamos atravessado aquilo que existia de mais difícil: o cordão militar ao redor da zona, depois de duas frustradas tentativas e uma pequena loucura que poderia ter sido trágica, quando cruzamos escondidos o bosque. Se uma patrulha tivesse cruzado conosco, teria seguramente disparado, nos tomando por “terroristas”. No táxi que nos trouxe de Taibeh, onde os palestinos nos haviam recebido e organizado a partida até Jenine, recebemos na cara o mau cheiro desse ar que iríamos respirar dois dias seguidos, até chegarmos ao ponto de não prestarmos mais atenção a ele. Até o último momento, não estávamos seguros de chegar ao nosso destino, e havíamos repartido, um por táxi, nossos fotógrafos, principalmente os de fala árabe: eles é que poderiam ajudar se acaso um de nossos táxi fosse parado pelo exército israelita. Em cada povoado cruzado, nosso chofer se informava sobre a presença e os deslocamentos dos tanques de Tsahal, parava, mudava de rota. Nosso líder, Bruno, esgotado pelas precedentes jornadas, dormia ao meu lado apesar do estresse, despertado regularmente pelos toques de seu celular. Finalmente chegamos, carregados de frutas e legumes comprados no caminho para ajudar as crianças do campo.
Nas imediações do lugar, as primeiras casas destruídas com as paredes carbonizadas me recordaram a terrível razão de nossa presença nesse lugar, quando já tinha me deixado embriagar pela beleza das paisagens no caminho. Corremos até a entrada do campo: a cidade segue sob o toque de recolher, quase ninguém conseguiu entrar em Jenine, e ignoramos totalmente a atitude que o exército de Israel terá se nos encontrar. Cruzamos com uma equipe de repórteres mexicanos, me perguntam e digo em espanhol que é horrível, que o exército queria quebrar o povo palestino, mas que não conseguiram. No entanto, nesta altura ainda não tinha visto nada!
Quando enfim consegui entrar, as primeiras que nos receberam foram as mulheres. Aplaudiram-nos, desejaram-nos boas vindas em árabe, responderam a todos os nossos “salam alsikum”. Querem levar-nos a suas casas, mostrar em que estado ficaram, mas sorrimos comiserados e fomos rapidamente para o centro do campo, o nosso ponto de encontro com os amigos do outro grupo. Quanto mais nos aproximamos desse ponto, mais impressionantes são os sinais da destruição. E finalmente chegamos a um lugar totalmente desolado, onde as paredes estão de pé, mas não tampam a luz, onde o chão está coberto de escombros. Penso em imagens de terremotos vistas na TV. Estou aturdido, um estado em que tudo me parece irreal, parece que seguramente uma defesa de minha mente. Uma frase volta e meia me aparece na cabeça e é uma frase do judeu sobrevivente do nazismo Primo Levi: “o que alguns homens fizeram a outros homens...”



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