Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".

 

Sangue de Barata, O Filme
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
1. PRÓLOGO
Há algumas semanas a esposa o deixara carregando o par de filhos, de cachorros e de pernas. Não sabia e agora nem tinha muito interesse em saber porquê. O que sabia, e muito bem, era que o maldito caminho que tinha que percorrer todos os dias até a imunda padaria, onde as baratas passeiam sobre o balcão ao lado de bêbados tomando cachaça as 6 da manhã, para comprar o pão grudento não precisava mais ser feito.

Foram mais de uma dúzia de anos em que ele pouco dirigia a palavra à esposa, a não ser durante as brigas. Na realidade agora não compreende como ficou tanto tempo casado com "aquela barata tonta". Ela jamais o compreendera nem nunca estivera aos pés de sua inteligência para a compreensão dos fatos; era uma mulher submissa, completamente, uma pessoa "com sangue da barata", conforme ele apregoou aos amigos no momento da separação.

De fato, a esposa tinha sido educada de um modo um tanto antiquado para os padrões atuais, suportando todas as manias do marido, conhecendo mas fingindo não conhecer suas escapadas sexuais, perdoando sua ausência em todos os problemas domésticos, seu comportamento brutal no ato sexual etc.. E parecia feliz com o papel de barata tonta que o teatro doméstico cujo palco era a cozinha e a área de serviço da casa lhe impunham.

2. SOLIDÃO DESEJADA
Agora, e isso é o que importa nesta história, ele estava só. Os chinelos e meias espalhados pela casa, um um cada cômodo. Cuecas sujas em cima da geladeira, sapatos sobre o computador, camisas penduradas no cabo da vassoura. Uma bagunça propositalmente orquestrada, como se aquela meia fedorenta fosse uma espécie de bandeira de libertação. A cueca sobre a geladeira tinha um sabor especial, pois representava a invasão do território feminino. Ele tomara aquele território antes dominado por aquele sargento de lenço na cabeça, varizes nas pernas e mãos machucadas de tanto limpar chão. Sim, tomara aquele território! Era apenas dele todo o continente-apartamento. Dominara o mundo sem oposição do inimigo!

Sua primeira semana de liberdade fora igual a de um pássaro cuja porta da gaiola é aberta depois de uma vida, completamente atarantado sem saber o que fazer a liberdade recém conquistada. Sonhara durante anos com aquele momento, imaginara-se transando com várias mulheres, mas só o que conseguiu foi - todos os dias - retornar para casa e se masturbar com as mesmas fantasias usadas quando estava com a esposa.

Então desistiu, já não saía mais de casa, a não ser para ir ao trabalho, muito a contragosto. Sua ineficiência agora era clara, mas ele nem ligava ao fato de poder perder o emprego: queria apenas estar em casa, na sua casa, apenas, só, sozinho, somente. Desligou o telefone da tomada, a TV e o rádio nunca mais foram ligados, cancelou a assinatura do jornal e, principalmente não foi mais à maldita padaria buscar o grudento pão. Aliás isso foi a primeira coisa que fizera, pois de todas as atribuições que a vida de casado impõe era a que ele mais odiava.

Estava agora ali, na solidão do pão mofado, das cuecas fedorentas, do banheiro cheirando mijo velho, das panelas gordurosas criando uma borra acinzentada, da barba por fazer, da sua sonhada liberdade, afinal, embora a liberdade geralmente cause solidão. Uma solidão dolorosa mas desejada quanto a solidão dos monges e dos padres, a solidão dolorosa e desejada quanto a solidão dos loucos e dos poetas; a solidão desejada mas dolorosa dos santos e dos demônios.

3. SURGEM AS BARATAS
Mas aquela solidão desejada e dolorosa, passou a ser mais dolorosa e menos desejada quando ele começou a perceber a presença de um par de baratas que pareciam chegam sempre a mesma hora - embora ele não tivesse certeza, pois há muito tempo o relógio estava parado. No início não se importou, mas quando elas passaram a comer parte de seu pão mofado e a passear sobre suas cuecas e meias fedorentas, começou a se enervar. Estava certo de que a ex-esposa mandara aqueles demônios para perturbar a sua sonhada solidão.

É, estava certo disso, eram mandadas para perturbar sua solidão e não podia permitir que nada o fizesse. Elas, aquelas baratas mundanas tinham que ser exterminadas rapidamente. Procurou pelos armários e encontrou inseticidas que a ex-mulher comprava para não permitir que nada abalasse o sossego e a higiene de seu lar, preparou armadilhas, colocou veneno em todos os cantos do apartamento, mas nada parecia acabar com aqueles diabinhos que tinham em lugar de chifres um par de antenas constantemente em movimento. Elas pareciam cada dia mais fortes e maiores.

Passou a caça-las pela casa com um chinelo em cada mão, querendo ter o prazer de ver aquela gosma branca espirrando pelas paredes: o sangue de barata. É, ele não tinha sangue de barata, ao contrário daquela barata tonta de sua ex-mulher. Portanto precisava exterminar aqueles monstrinhos que ousavam perturbar sua solidão e comer seu pão mofado.

Lembrou-se de um dia em que, sentado à soleira da porta, passou horas observando um exército de minúsculas formigas tentando carregar o corpo morto e seco de uma barata, num movimento que parecia um desfile de carnaval. Demorou horas até que aquele corpo inerte pudesse ser levado até uma fresta do rodapé e desaparecesse para se transformar provavelmente num sortimento de comida para o batalhão de formigas. Pensado nisso, tentou se colocar no lugar daquelas formigas, mas a verdade é que ele estava só e as baratas eram duas...

4. A BATALHA FINAL
Agora não dormia mais, a espreita do par de baratas. Mas elas eram lépidas, apareciam rápido, o suficiente para aumentar sua ira, e se escondiam pelas inúmeras frestas da casa, provavelmente para contar à sua ex-mulher que a retomada da casa estava a caminho e era missão quase que cumprida.

O pão mofado acabara, não lembrava mais se fora ele ou as baratas quem comera o último pedaço. E agora que ele não iria mesmo a padaria: se saísse de casa as baratas poderiam tomar definitivamente conta da casa. Também não achava necessário comer, nem lembrava da fome, seu único objetivo era o de exterminar as baratas. Nada mais agora fazia sentido, nem mesmo a solidão.

O sangue borbulhava no seu cérebro, o coração disparado. Milhares de fórmulas de exterminar as baratas que agora pareciam ainda maiores, do tamanho de um cão grande, talvez. Tão grandes que já não passeavam mais sobre suas camisas penduradas no cabo da vassoura, vestiam-nas.

Mas porque agora tinha medo? Tinha medo das baratas! Lembrou-se dos escândalos que a ex-esposa fazia quando via uma barata e riu com as poucas forças que ainda lhe restavam. É, mas ele não era a barata tonta, não tinha sangue de barata e não podia se permitir ter medo daquele par de insetos nojentos.

É, só poderia ser vingança daquela mulher pelo fato de que ele sempre ria com deboche quando ela subia sobre a mesa com medo dos insetos e chamava-a constantemente de barata tonta.

E teve ódio da mulher! E teve medo das baratas! E teve mais medo ao imaginar sua ex-mulher comandando um exército inteiro de baratas que carregariam seu corpo por alguma fresta escura igual aquele exército de formigas. E teve tanto medo das baratas e daquelas patas roçando seu rosto, que nem teve tempo de engolir o pedaço de pão mofado que encontrara junto a fresta da porta do quarto.

5. O EPÍLOGO
Quando encontraram seu corpo tiveram que espantar um par de baratas que pareciam disputar um naco de pão mofado preso entre seus dentes...enquanto outras centenas de baratas pareciam ter conseguido carregar seu corpo morto até próximo a uma fresta no canto da parede...Em seu rosto a imagem do terror, estampada...
5/12/2000
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.629 - Livro 973 - Folha 475
A Troca – Um Conto Pornográfico
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A Verdadeira Puta Barata
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Aquele Dia o Palhaço Gargalhou
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Criaturas
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Crônica de Uma Morte Adiada
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Futurologia II (ou: Anjos, Papagaios e Cadeiras de Balanço)
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Memórias de Uma Puta Barata - Capítulo 1
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Memórias de Uma Puta Barata - Capítulo 2
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Memórias de Uma Puta Barata - Capítulo 3
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Missa Negra
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O Dia Em Que Transei Com Janis Joplin
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Sangue de Barata, O Filme
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Um Sujeito de Merda (Micro Peça de Teatro)
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Uma Mendiga Urinando na Praça
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Uma Senhora Com Uma Bolsa de Plástico Branca
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Uma Simples Questão de Perdão
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