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Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".
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Crônica de Uma Morte Adiada
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
Há tempos que o encantamento pelas coisas acabara. Não conseguia ter relacionamentos com as pessoas, de nenhuma espécie - de pessoas e de relacionamentos -, sem perder completamente a paciência. Nenhum trabalho conseguia mais lhe despertar qualquer interesse, nem mesmo sua poesia, que nem trabalho era, nem mesmo o sexo, que nem desejo era; a poesia era agora trabalho e o sexo não era mais poesia, ou as coisas eram mesmo confusas desse jeito. Sua mente, embotada nessa confusão de sentimentos, não conseguia mais sequer sonhar, nem dormir, nem sonhar acordado. Dormir a noite não conseguia e durante o dia seu único desejo era o de se deitar e dormir, uma canseira eterna, uma falta de qualquer coisa e, pensou, quando a gente não tem mais apego nem desejo de coisa alguma, quando não suporta nada nem mais ninguém, principalmente a gente próprio, a única saída é mesmo acabar com a própria existência...Então começou a pensar em acabar com o que ele mesmo chamou de existência mesquinha...uma existência, segundo ele também, de existência de dor e sofrimento, e também pensou, uma existência de merda. E assim decidiu anunciar sua própria morte. Era o início de um mês em que o sol costumava brilhar e no final daquele mês, pensou, seu sol iria definitivamente se apagar. O dia, seria o dia de seu aniversário e seria perfeito, pois naquele dia completaria a idade em que morrera Janis Joplin, Brian Jones, Jim Morrison, Hendrix e alguns outros. Seria, portanto a morte em glória quanto a de seus ídolos, com a diferença de que era um total e perfeito desconhecido. Mas a diferença poderia estar ali. Seria um desconhecido até sua morte, depois a glória chegaria...mas, pensou, que adiantaria a glória se não estaria presente para apreciá-la? É, mas pouco importa..., pois a glória com certeza chegaria. Pensou em inúmeras formas e fórmulas para cometer o chamado atentado contra a própria vida, mas todas elas pareciam rudes e rudimentares demais, nenhuma com glamour... veneno, revolver, pular do prédio, cortar os pulsos...não, pensou, nenhuma delas tinha o apelo necessário para que se tornasse célebre. Pensou, pensou e depois de tornar a pensar chegou a conclusão de que a forma perfeita seria aquela a quem as pessoas dedicassem mais atenção, ao menos por alguns minutos, coisa que, segundo pensou, nunca lhe dedicaram... ora, afinal seus poemas, seus escritos, estavam criando mofo nas gavetas e em seu cérebro... Lembrou-se de que em tempos idos os poetas tinham na fatalidade das doenças como a tuberculose e a sífilis a sua gloriosa morte... mas essas doenças além de serem atualmente difíceis de contrair demoravam um tempo que ele não queria e não poderia esperar... E tornou a pensar e recomeçou a elaborar seu plano de morte anunciada...pensou e pensou e decidiu que seria igual a de Torquato Neto, no forno do fogão a gás. Mas não seria apenas isso, não. Teria que ser mais bombástica, algo que também carregasse outras pessoas que segundo seu parcial julgamento tinham responsabilidade em sua mágoa e essas pessoas poderiam ser qualquer uma, já que todas eram culpadas. Era simples, - pensou. E gostou tanto do que pensou, que esboçou pela primeira vez desde que decidira anunciar sua própria morte, um sorriso -, era simplesmente não colocar nenhum aviso na porta sobre o vazamento de gás. E aí, o primeiro que chegasse, fosse esse alguém quem fosse... ao ligar o interruptor, a faísca faria seu trabalho e transformaria aquele apartamento numa enorme bola de fogo, uma explosão que ecoaria pelos quarteirões da cidade. Pensou que certamente aquilo chamaria a atenção, até mesmo do noticiário noturno da televisão e com sorte até daria manchete nas primeiras páginas dos jornais. Seu plano era perfeito, achou-o tão perfeito que pensou, poderia tê-lo elaborado quando ainda a veia de escritor ainda jorrava sangue com cor de textos e poesias, porque ai poderia ter escrito um grande romance, mas agora era tarde para isso, pois sua morte estava anunciada. E então começou a colocar em prática seu plano, faltavam poucos dias para o fatídico mas esperado dia, o dia da independência de Moçambique, o dia em que também fazia aniversário Jeff Beck e ainda tinha que escrever sua carta de despedida, afinal, pensou este seria seu passaporte para a glória esperada. Sua carta seria lida pela voz impostada daquele locutor de rádio ou mesmo aquele senhor de cabelos brancos e voz gutural... é, precisava ser sua grande obra, uma ode, o trabalho de sua vida... dado ao mundo como um macabro testamento... precisava ser realmente grande e retratar toda a sua revolta contra a sociedade podre, contra as mulheres que nunca o amaram, contra seu vizinho que reclamava do barulho de seus "rocks", contra sua mãe que sempre e contrariava, contra o presidente da república e contra o lixeiro... Tinha que ser perfeita, a obra perfeita! E assim se pôs a escrever. Uma frase, uma folha de papel amassada, outra frase e outra folha no lixo, outra e outra e entre centenas de outras frases e de outras folhas de papel amassadas, os dias foram passando, passando. Tentou poesia, texto, crônica, ensaio, todas as formas literárias e nenhuma delas era boa, não poderia ser sua carta-testamento. Lembrou da carta de Getúlio Vargas, de Torquato... ora, eram perfeitas e a dele tinha que ser mais perfeita ainda, porque afinal a deles tinham ficado famosas por que eles eram cultuados e a dele tinha que ser o passaporte ao seu culto. Tinha que ser perfeita... Mas nenhum lhe parecia boa o suficiente... E seu desespero foi aumentando pois o dia de sua morte anunciada estava chegando e sem carta-testamento não poderia existir suicídio e tinham que acontecer. Pensou em copiar de alguém, mas fatalmente seria descoberto e então sua glória duraria menos do que deveria e seria transformada em difamação. Não... tinha que escrever, escrever, escrever... Então chegou a noite, a última noite de sua vida, pensou. Era aquela noite em que as fogueiras ardiam e as pessoas alegres estavam na rua, mas ele precisava escrever sua carta de despedida, pois o dia chegaria rápido e com ele a sua morte... tinha que ser rápido e criativo, pensou... Mas a criatividade não era o suficiente e outras centenas e centenas de folhas foram amassadas e jogadas no lixo... O dia chegou e ele verificou o registro do gás, o botijão, o estado dos botões do fogão... aprontava sua câmara de gás particular e agora estava tudo pronto. Ou quase, pois faltava ainda escrever sua carta, sua grande obra, aquela com a qual seria conhecido pelas próximas gerações. Mas a inspiração não chegou e a carta, sob nenhuma forma saiu. E como não pode existir o suicídio de um poeta, de um escritor sem uma grande obra literária, ele continua até hoje, quinze anos depois, tentando escrever sua grande obra, aquela que lhe dará a glória após a morte. E continua tentando, tentando, amassando folhas de papel, rabiscando... mas nenhuma grande obra, nenhuma que possa ser considerada a derradeira, nenhuma para figurar na primeira página do jornal como a de um grande artista que se suicidou... Quem sabe, sua morte anunciada ainda aconteça com a idade com que Elvis e Raul ou Lennon morreram... mas isso apenas se ele conseguir escrever até lá sua grande e derradeira obra de arte....E ele continua tentando.
28/2/2001
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.629 - Livro 973 - Folha 475
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