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Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".
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Missa Negra
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
Com os cotovelos apoiados sobre a mesa e a cabeça nas mãos, olhando pela janela que exibia um quadro de uma noite tranqüila e serena, abaixei os olhos pesados de sono. Quando os ergui novamente uma figura de mulher parada, olhando fixamente. Tinha o rosto de uma brancura extrema e intensa, olhos fundos e negros delineados por profundas olheiras, os cabelos também muito negros e longos escorriam pelos ombros até a altura da cintura acabando em pontas maltratadas, um vestido negro de um tecido muito fino, quase transparente, era a única coisa a cobrir um corpo que, de resto, era tão branco quanto o rosto. Um par de negros e intumescidos mamilos pareciam querer romper o tecido e uma moita de pelos aparecia por debaixo do vestido. Parecia uma mulher muito jovem, embora ao emitir seu primeiro som, a voz soou como a de uma anciã, grasnada e gutural, e embora suas palavras não pudessem ser compreendidas, eu sabia exatamente o sentido. Ela queria que eu a acompanhasse, não podia resistir e quando ela virou-se de costas e começou a andar, ergui-me e passei a segui-la, numa mistura de irresistíveis curiosidade e desejo. Um som, uma música que eu certamente conhecia aparecia como trilha sonora e numa fração de segundo, abandonando minha sala, percebi que estava em um lugar parecido com um cemitério, a noite tranqüila e silenciosa deu lugar a raios que explodiam sobre nossas cabeças e um aguaceiro molhava até nossos ossos. Ela deitou-se sobre uma das sepulturas coberta de mármore negro e retirou inteiramente o negro vestido. Os raios iluminavam aquele corpo muito branco e pareciam - agora podia perceber - sair de suas mãos. Seus olhos fitaram meu corpo e seus braços puxaram-me de encontro aquele corpo. Agora não existia mais medo, apenas desejo, um desejo insano, e não me lembro como, mas quando percebi, estava sobre aquela mulher, penetrando aquele corpo e saciando um mutuo desejo. Os raios que saiam de seus dedos explodiam sobre minhas costas e quanto mais intensas as estocadas de meu pênis, penetrando aquele útero quente, maiores eram as explosões. Chegamos ao orgasmo ao mesmo tempo e sobre aquela sepultura negra, conheci um orgasmo de uma forma como nunca conhecera antes. Naquele momento, um grito que não sei de onde saíra, saiu de minha garganta ou dela ou quem sabe de ambas ou de nenhum, foi escutado naquele cemitério. Era um grito parecido com um trovão e foi seguido de uma gargalhada e uma frase "Agora nós possuímos um ao outro, você meu corpo e eu sua alma". Quando olhei dos lados aquela mulher tinha desaparecido e meu corpo ficou coberto de arrepios. Corri igual um louco, enquanto raios explodiam sobre minha cabeça. Quando cheguei ao portão trancado, escalei a grade e ao chegar ao alto, cortei a mão nas afiadas lanças. Caí sobre a calçada e corri desesperadamente e sem coragem de olhar sobre os ombros. Uma ventania intensa parecia querem impedir-me de correr e o som dos trovões me ensurdeciam. Depois de algum tempo, caí e sem forças adormeci, ainda escutando o ribombar sobre minha cabeça e a água molhando minhas costas. Quando acordei os braços doíam de segurar o peso de minha cabeça - Puxa, que pesadelo horroroso! pensei - Ainda bem que foi apenas um sonho ! Olhei pela janela e uma madrugada muito calma dormia pelas ruas, mas quando ergui meu corpo daquela cadeira percebi minhas roupas completamente encharcadas e ao apoiar a mão sobre a mesa senti uma dor extremamente aguda e percebi um corte profundo e sangrento. E aquela noite agora não era tão calma assim...


(Este texto foi escrito para o concurso da Rádio 89 FM)
1/1/2001
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.629 - Livro 973 - Folha 475
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