Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".

 

Criaturas
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
Trilha Sonora Incidental:
"Black Sabbath"


"What is this that stands before me?
Figure in black that points at me.
Turn around quick and start to run.
Find out I'm the chosen one."


Que criatura é aquela, ali parada em minha frente? Trajada de uma espécie de terno marrom-avermelhado, olhando fixamente em algum ponto desconhecido ela trouxe a minha mente medos e lembranças que eu francamente não quero ter, neste momento. Uma criatura de idade indefinida, monstruosas pernas e um cheiro medonho. Sim, o cheiro! Medonho quanto aqueles pesadelos que tenho nas poucas noites em que consigo dormir.

Aquela criatura, ali parada, fedendo e olhando a algum ponto do infinito que apenas a antiguidade de seu ser consegue compreender. E eu, eu ali olhando aquela criatura fedorenta quanto escura. Escura quanto a noite sem sonhos, escura quanto um pesadelo que tenho em noites escuras e fedorentas.

- Oh, criatura monstruosa - grito em meu pensamento - por que não partes em direção ao infinito que miras, deixando sossegada minha alma, sobrecarregada de outros infinitos medos ? Por que não partes, carregando consigo o medonho fedor? Porque não parte, como partem todos aqueles que amo? Sim, criatura nojenta - torno a gritar dentro do pensamento - por que não partes do jeito que partem todos os meus sonhos? Porque permaneces ai parada, cutucando minha alma igual a um pesadelo?

Mas por mais que eu grite em meu pensamento, ela permanece ali, inerte, fitando o infinito com aqueles olhos escondidos , com aquela cabeça que carrega um cérebro que algum pensamento medonho e fedorendo naquele instante acomete.

"Big black shape with eyes of fire,
Telling people their desire,
Satan's sitting there, he's smiling,
Watches those flames get higher and higer."

-Oh, Senhor, ajude! é meu clamor. - Sem saber ao certo a qual senhor ele é dedicado. - Oh, Senhor, ajude! Carregue aquele nojento ser, fatalmente sua criação arrependida, a outros campos!

Tento, entretanto, em mórbida curiosidade, enxergar aquele rosto que é portado por um corpo deformado e rústico, mas meus olhos, não encontram outros olhos, certamente porque foram eles arrancados, - penso eu tentando explicar meu medo.

- " Oh, No No No! Please God, Help Me"

Aquela criatura, aquele ser, permanece ali parado, sem falar coisa alguma, sem emitir um som sequer.O único som presente naquele momento é o som desesperado dos batimentos do meu coração que bombeia furiosamente o sangue ao cérebro, que encharcado e bêbado, sente um pânico ainda maior. O sentimento de fugir, escapar daquela coisa é único. Então porque permaneço ali , grudado naquela cadeira fitando um ser que causa tanto desconforto em minha alma? Por que?

Tento argumentar com aquela criatura mas sem conceber ao certo que estranha língua teria eu que falar. A língua dos anjos, do espírito santo ou dos demônios. Imagino que pensamento torpes , medonhos e fedorentos pululam por aquela mente e tento ao menos, formular algum som que lhe seja familiar. Silêncio entretanto. Um silêncio de morte. Um silêncio tão absoluto que escuto o ranger dos meus ossos dentro das minhas carnes, o borbulhar do meu sangue nas artérias quase entupidas, o grito desesperado e insano do medo dentro do meu cérebro.


Ergo então meu corpo empapado de frio e mortal suor, daquela cadeira onde por horas inteiras marcadas por um matraqueado surdo do relógio ficou prostrado; caminho em direção daquela monstruosidade a passos decididos. E mister que eu a enfrente, que mire seus olhos escondidos, que sinta seu calor. Que a mate! Sim, preciso matar aquele ser monstruoso que insiste em colocar medo absoluto em meu coração, que insiste em trazer a minha mente lembranças mórbidas sobre a inconsistência e pequenez do meu ser; que insiste em plantar e minha alma uma dor aguda e penetrante quanto aqueles pesadelos noturnos que acometem nas poucas noites em que consigo dormir.

"Is this the end my friend?
Satan's come around the bend.
People running 'cause they're scared.
People better go and beware"

Caminho em sua direção e desfiro um único tapa, esmagando aquele ser monstruoso e nojento contra a parede. Uma gosma branca escorre e aquela monstruosa e fétida criatura agora é apenas uma monstruosa e fétida ... barata morta!
10/4/2001
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.629 - Livro 973 - Folha 475
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