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A PEQUENA HISTÓRIA DE UM PRÍNCIPE DESENCANTADO E DA PEQUENA PRINCESA
Barata Cichetto
Existem lutas e guerras perdidas, batalhas que nunca começam e pesadelos que nunca terminam ao amanhecer. Minha alma em lutas titânicas em busca da felicidade, mas meu coração não consegue ser dado a conhecer. Sonhos antigos quando a alma e o desejo eram um, sonhos que chegaram atrasados igual ônibus em dia de temporal.

Agora estou parado em um ponto de ônibus perdido no meio do nada e meus sapatos e minha alma estão furados e gastos.

O que adianta portanto lamentar o elogio que deixou de ser feito, o orgasmo que deixou de ser causado e lamentar minha falta de sorte? Realmente de nada adianta lamentar minha falta de jeito, sentir a dor forte em meu peito... de nada, nada adianta quando perdi outra guerra. Criaturas informes e toscas, fantasmas do passado guardados dentro do armário do meu cérebro. O dragão da maldade e o santo guerreiro lutam a mais dura batalha de suas vidas por minha vida e eu nem sei a que horas o próximo ônibus irá chegar. Pode ser que nunca chegue, mas quando chegar estará lotado de bêbados e putas e sem nenhum lugar onde eu possa sentar. O condutor é cego e surdo e guia o ônibus por ruas escuras ao som de uma canção em que a morte é o único refrão imaginário. Eu queria viver em uma história amorosa, ser um príncipe, mas fui um sapo. Em minha estória, ou melhor, em minha história, não foi o sapo que virou príncipe, mas o príncipe que virou sapo.

O que adianta pedir perdão quando a acabou a paixão? O que adianta paixão sem o perdão e o perdão sem a paixão? O que adianta algo, quando, transformado em sapo, o Príncipe percebeu desmoronar seu castelo e vê diariamente a tão sonhada princesa, a quem ele contou histórias e lendas sobre príncipes e princesas encantadas, desaparecer?

Resta agora apenas o que? Lamentar e chorar pelas esquinas, em copos de bebida amarga? Sufocar a mágoa, sufocar a dor, sufocar o amor? Rock não tem sentido, Rock não é paixão. Minha trilha sonora agora é o silêncio, o mais puro e absoluto silêncio e resta apenas a solidão e um monte de letras amontoadas em lamentos tolos. Poesia é tolice, claro, apenas os poetas não o percebem. Poetas são péssimos amantes, estou certo disso agora. Porque mulheres não são poesias e poesias não ser mulheres. Casei com a poesia, uma Mulher-Poesia e não a soube amar e tal qual a inspiração ela abandonou minha rima á beira do caminho.

Quanto tempo? Quanto demora esquecer a Poesia em forma de Mulher? Quanto tempo demora esquecer a Mulher em forma de Poesia? A bebida deixa as pessoas com falta de memória, então resta apenas beber e tentar esquecer... Queria poder retornar aos tempos em que o tempo não tinha importância, em que o amanhã era apenas o depois do hoje. Retornar aos tempos... tempos, tempos... Em busca do tempo perdido perdi o bonde do tempo e o tempo cobrou seu preço.

Durante muito tempo sonhei com a mulher perfeita, sensual e que entregasse apenas a mim seu desejo e seu prazer. Quando a encontrei, as feridas do tempo tinham machucado e danificado tanto meu corpo e minha alma, que acabei por perder meu sonho. Culpa do tempo? O tempo não tem culpa.

Jurei nunca mais falar sobre dores, jurei falar de amor, falar de paixão, mas meu corpo não deixou e agora minha alma antes repleta de paixão, agora repleta de dor e angústia busca em si mesma as respostas. O pior que pode acontecer a um ser humano é perder sua capacidade de sonhar. Sonho é vida e o que é a vida senão um sonho do qual não queremos acordar?

Perdido no tempo e no espaço, em um ponto de ônibus lotado de seres perdidos e bêbados prostituídos e prostitutos. Pergunto: qual é o itinerário e o destino do próximo ônibus? Quem o dirige e quem é o cobrador? O letreiro apagado desse ônibus não deixa pistas sobre seu destino e itinerário e nem sei onde fica o ponto perdido, em qual calçada da vida ele se encontra. Pago o preço da passagem e sento em um banco ao lado de uma pequena e bela dama. Nosso destino seria o mesmo, pergunto á ela. É o destino, ela responde. E estou certo de destino não existe e que a vida não é um ônibus, mas mesmo assim deixo meu corpo e minha alma serem levados. Quando percebo, passou o ponto onde eu tinha que descer e agora permaneço sentado, com uma garrafa de bebida despejando pela garganta, que queima igual as chamas do inferno e a bela e pequena Princesa agora não está mais sentada ao meu lado. Quanto demora o próximo ônibus? Quanto tempo demora a próxima viagem? Quanto tempo?

Em meu caminho ainda existem guias ou sarjetas? Um cão de rua? A salvação do cão é a rua e a rua não se importa com o cão. Existe felicidade na vida dos cachorros de rua? Eles se sentem abandonados? Procuro respostas nas loucuras e as loucuras não encontram eco em mim. Sofro pelas mulheres que não conquistei e a que conquistei e não soube manter. Perdão a mim e perdão a elas. Quem pede perdão a quem? Quem perdoa quem? Perdão é coisa do Senhor? Apenas? Perdoar a Deus e todo mundo. Mas o que é perdoar? A resposta é imperdoável.
26/11/2004
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.628 - Livro 973 - Livro 474

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