Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".

"O Amor é a Compensação da Morte"
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
Sexta-Feira. O final da tarde chega e a tristeza dos solitários com ele. A gente pensa que as pessoas estão com seus planos e desejos todos prontos. Mas estar naquele momento, naquele lugar era o que nenhum baladeiro, ninguém que ama sua existência poderiam querer.

Sair? Era o mesmo que ficar. Tinha ela, a Angústia que acompanharia a qualquer balada, qualquer boteco, qualquer puteiro, qualquer esquina. E decidi que ela, a Angústia iria ficar em casa naquele dia e que eu iria sair. Sozinho, sem ela minha companheira desde que tinham colocado minha existência dentro da geladeira da realidade.

A cabeça doía, não por causa de bebidas ou outros excessos. O único excesso que eu cometia há dois meses era o cigarro. E as lágrimas, que tinham até secado. A cabeça doía era de pensar, pensar e pensar. Pensar nos erros, nos sonhos defeitos a pontapés, na falta de dinheiro, na falta de carinho. Pontapés. A mentira é o maior pontapé que a gente pode tomar na bunda. É de longe a maior traição que um ser humano faz com o outro.

Mas a realidade é que até então, não tinha o menor desejo de sair, de tomar banho, de comer... Era apenas um pegar e largar o revolver guardado, o calcular o tempo que demora um corpo do alto de um prédio até o chão e quanta dor poderia um ser humano sentir antes da bala penetrar e explodir o cérebro, ou nos minutos que antecedem o chegar de um corpo a calçada e espatifar em pedaços de carne pintada de vermelho. Pensar na dor que poderiam sentir ainda poucas pessoas que sobraram e que realmente ainda têm alguma importância. Pais e filhos, apenas. Ainda bem! Sabia que seria um ato egoísta acabar com a própria existência ao tentar acabar com a dor e deixar outra dor a pessoas que não causaram a primeira. Queria que apenas que quem causou tal dor sofresse, mas isso não era possível. Então ficava ali remoendo uma dor que nem tinha razão de ser segundo algumas pessoas.

Foi por esse motivo que, de tanto pensar, decidi sair de casa naquela Sexta-Feira. Pouco dinheiro eu tinha, mas pensei, sempre existem mulheres que basta a gente olhar que querem dar. O sexo ficou banal, uma disputa nojenta de "quem dá mais", dar por dar. Nem prazer existe nisso. Mulheres que não conhecem mais o sentido de carinho, de afeto, de desejo de verdade. Mulheres-Mijo: instantâneas, sem gosto e que logo em seguida a gente tem fome novamente.

Então tomei por mim o desejo, apanhei uma das inúmeras caixas de madeira que eu mesmo construíra, uma das poucas que não tinham sido dadas de presente, e decidi que seria ali onde eu deixaria guardada minha Angústia antes de sair. Abri o peito e a arranquei com força dali. Ela chorou, pediu para ficar, mas eu disse: "Chega, quero viver, preciso de ar. Não me deixas respirar, só quero chorar quando estás comigo. Então fique ai. Fique dentro dessa caixa de madeira. Talvez quando voltar, nunca mais a retire dessa caixa, não a queira mais."

E assim o fiz. E tomei um demorado banho como há muito tempo não fazia. Lavei o pau e o saco com muito sabão e até esfreguei no meio dos dedos. Afinal, o objetivo era o de ser um macho completo naquela noite. Peguei camisa e calças novas nas malas onde guardava minhas roupas desde que uma enchente de esgoto fétido tinha carregado aquilo que um dia erroneamente eu chamara de lar, uma cueca vermelha e um par de meias baratas. Trajado, coloquei desodorante e calcei as botas pretas com saltos gastos que sempre deram a mim a sensação de liberdade. Porque botas pretas dão a sensação de liberdade? Algum fator histórico, provavelmente. Aparei a barba, cortei as unhas e os pêlos do nariz e sai. Antes ainda dei uma olhada de soslaio para a caixa de madeira e quase a abri. Mas, apanhei apenas um pacote de camisinhas e rumei ao ponto do ônibus.

Olhos atentos ao ponto, dentro do ônibus, na descida da ladeira, no terminal, nas ruas, nos botecos onde entrei no intuito de tomar umas bebidas. Olhos atentos, sentidos redobrados a espera de um olhar correspondido, de um gesto, de um aceno. Iria pegar a primeira que aparecesse, ou talvez a segunda. Não, a primeira seria o suficiente. Não deixaria escapar porque a segunda poderia não chegar. E a segunda também poderia ser a primeira. E a primeira a segunda... Então, era melhor não vacilar.

Horas passando, tempo correndo e nenhum desejo satisfeito. Lugares não eram nada parecidos com aquilo que eu conhecera, e as pessoas pareciam nem notar minha existência. Teria tomado algum chá de invisibilidade? Lembrei de um filme que nunca sai de minha cabeça nesses momentos, de um sujeito, a personagem de Bruce Willis, que morre mas não tem consciência e fica puto porque as pessoas não o percebem. Chego a pensar que na verdade fora isso que acontecera comigo. Há algum tempo eu tinha morrido e é por isso que minha ex-mulher não percebia minha existência. Pensara muito nisso e agora parece que meus receios eram verdadeiros. Acho que é isso. Eu morri e portanto ninguém poderá mesmo enxergar minha presença. E é por isso que ela anda destemida por ai, porque afinal estou morto e aos mortos nada se deve, nem saudades.

Mas algo me trouxe à realidade. Aquela coisa que eu achara ter deixado guardada e trancada com cadeado dentro de uma caixa de madeira parecia ter conseguido romper as fechaduras e estava ali, caminhando comigo. Então, não era verdade que eu estava morto. Mortos não têm a Angústia ao seu lado e ela estava ali, mais viva do que nunca. Ralhei com ela até que consegui mandá-la de volta. Mas naquele momento era um pouco tarde. Todos os botecos tinham fechado, todas as putas tinham ido dormir. Existiam apenas bêbados e mendigos espalhados pelas calçadas e ninguém, absolutamente ninguém com quem eu pudesse conversar, beber, transar. As pernas doiam muito, com um peso que eu nem conseguia arrastar. Retirei as botas e caminhei em direção a Sol que achei que apareceria em breve.

Mas o dia parecia querer não chegar e gotas de uma chuva gelada e cortante feito palavras de separação caia sobre minhas costas. Ardia e queimava. Afinal eu estava mesmo vivo e aquela chuva misturada com lágrimas pareciam ser o atestado de óbito da minha busca. Uma ação de despejo da alegria, um divórcio da vida. Eu deixara pedaços da minha vida espalhados por lares que eu teimara em construir e agora a maior parte desses pedaços estava definitivamente perdido. E não podia fazer mais nada a não ser pegar um ônibus e ir embora, tentar dormir e esperar que o sono fosse um soro de vida, uma borracha mágica que apagasse aqueles sentimentos de morte, saudades e solidão.

Dentro do ônibus, o arrependimento de ter saído de casa, naquela noite. A raiva e a frustração agora tinha companhia. O caminho parecia eterno e o motorista sonolento parecia não ter pressa alguma. Ao descer no ponto, uma mendiga magrela e fedorenta ainda pede um cigarro segurando meu braço. Sorrio e digo a ela "Eu parei de fumar quando morri há dois meses atrás." Assustada e blasfemando ela se afasta balançando a cabeleira grudenta e desaparece pela esquina.

Chego em casa, um cachorro parece entender o que sinto e abana o rabo. Mal consigo lhe acariciar as costas e sento na cadeira rasgada na frente do computador. Martelo as teclas pretas, poesias sobre dor, falta de sentido, tempo, essas coisas. Lembro da caixa preta onde guardo o revolver que comprei há cerca deu mês e o retiro. Acaricio o cano, olho as balas e engatilho. A imagem de uma mãe chorando e soluçando retira de minha cabeça a idéia. Lembro então da caixa de madeira onde tinha colocado minha companheira. Apanho a chave, abro o cadeado com as mãos trêmulas e retiro de dentro daquela caixa feita com tanto carinho e dedicação, a Angústia.

Seguro e lhe acaricio os cabelos durante minutos que não sei contar. Aperto contra meu peito, lágrimas escorrem por meu rosto sem molhar. Então deito e durmo com suas pernas entre as minhas e a Angústia com sua cabeça sobre meu ombro. Aninhados dormimos assim, feito um par de amantes desejosos um do outro. Certamente eu casara com a Morte, mas Angústia era minha companheira inseparável. Durma, querida, durma em meus braços que lhe acalento.

Porque assim sinto que estou vivo.
18/10/2009
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.628 - Livro 973 - Livro 474

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