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O Corvo - Tradução: João Inácio Padilha (1997 - Brasil)



A noite era um manto infausto, e eu lia, enfastiado e exausto,
Estranhos livros de extintos arcaísmos doutrinais;
Já quase dormia, inquieto, quando à porta um som discreto,
Um som miúdo e incompleto, ouviu-se de modo fugaz.
Murmurei: "Batem à porta com toque leve e fugaz,
E é só isso, nada mais."


Distintamente eu me lembro: era o álgido mês de dezembro,
E as brasas no chão forjavam seus reflexos fantasmais.
Pelo sol eu ansiava e nos livros em vão buscava
A paz - mas nada sustava a dor de não vê-la jamais.
Os anjos podem chamá-la - "Lenora..." - mas eu, jamais.
Aqui, não a chamam mais.


Vagindo um vago murmúrio, vacilava o véu purpúreo
Da cortina triste e trêmula. Terrores abissais
Assaltaram-me e eu me vi erguido, alerta, a repetir:
"Há alguém a insistir em ingressar por meus portais —
Um visitante tardio vem bater aos meus portais; —
É só isso, e nada mais."


Minha alma sentiu-se forte, estava entregue à própria sorte.
"Senhor", eu disse, "ou Senhora, perdoai-me se esperais.
O fato é que dormitei; se ao débil som não me aprestei
A acudir, logo abrirei. Não discerni que aí estais,
Mal ouvi vosso chamado; agora sei que aí estais."
Abri: noite, e nada mais.


Mergulhei na escuridão, no medo, na imaginação,
Sonhando sonhos ousados jamais por seres mortais.
No silêncio infrangível, na quietude até sensível,
Uma só palavra audível soou, sem outras rivais:
"Lenora!" eu a proferi - devolveram-na ecos rivais.
Isto, só, e nada mais.


Voltei aos meus aposentos com os sentidos atentos.
Nova pancada soou, mais clara agora, um pouco mais.
"Vem da janela", disse eu, "da janela o som procedeu;
Verei, para alívio meu, onde e como o mistério jaz —
Com o coração em paz, verei onde o mistério jaz; —
É só o vento, e nada mais."


Eis que abro a janela e em frente, como flâmula fremente,
Vejo um imponente Corvo de distinções ancestrais,
Que entra sem qualquer mesura; mas com garrida postura,
Garbosa desenvoltura, pousa por sobre os umbrais —
Pousa no busto de Palas postado sobre os umbrais.
Pousa e fica, nada mais.


O Corvo me divertia em sua nobres bizarrias,
E eu lhe disse, após sorrir de seus graves ares formais:
"Tens cortada a crista rente, mas não és ave temente;
Vens de noites inclementes, nelas um nome terás.
Nas noites sepulcrais, fala, Corvo, que nome terás."
Disse o Corvo: "Nuncamais."


Que pássaro assim canhestro a mim respondesse tão destro
Foi algo que me assombrou, embora soassem banais
Os signos de sua voz; pois raro será sempre, a nós,
Estar em um quarto, a sós, co'um bicho que seja capaz
De assentar-se sobre um busto, acrescentando ser capaz
De chamar-se "Nuncamais".


Mas o Corvo empoleirado sobre o busto inalterado
Calou-se. Nada mais disse, não usou palavras mais.
Nada mais esclareceu, nenhuma pena mais moveu.
Desiludido, disse eu: "Tu também, Corvo, passarás;
Outros amigos perdi, e tu, pássaro, passarás."
Disse ele então: "Nuncamais."


Atônito ante reposta tão habilmente disposta,
Murmurei: "De sua boca brotam heranças verbais
De algum mestre amargurado que não terá escapado
Ao desventuroso fado de cruéis penas fatais,
Restando em suas canções não mais que palavras fatais,
Que são ‘Nunca, nunca mais’."


O Corvo me distraía ainda, em suas bizarrias.
Arrastei uma poltrona para junto dos umbrais;
Diante de ave e de busto recuperei-me do susto,
Adivinhando, com custo, ocultos lúgubres sinais
Naquilo que o Corvo disse com seus incultos sinais
Quando grasnou: "Nuncamais."


Absorto em tal exercício, calado fiquei de início,
Do Corvo os olhos de fogo queimando-me, triunfais.
Prossegui adivinhando - a cabeça se acomodando
No espesso veludo brando, sob as luzes radiais
Da lâmpada, que jorrara outrora luzes radiais
Sobre ela. Ah! nunca mais!


Súbito, o ar pareceu denso com a fragrância do incenso
De serafins a brandir turíbulos angelicais.
"Biltre!" eu gritei. "Vejo agora! A dor que a alma tua devora,
De saudades de Lenora, atrai graças celestiais!
Esquece Lenora! Goza essas graças celestiais!"
Disse o Corvo: "Nuncamais."


"Profeta!" pus-me a exclamar. "Ave ou demo! que há-de importar
Se me trazes tentação ou se te trazem temporais!
Corvo intrépido, lançado neste deserto encantado,
Neste lar maldiçoado, dize-me: onde encontro paz?
Existe no mundo um bálsamo? Dize-me: existe paz?"
Disse o Corvo: "Nuncamais."


"Profeta!" pus-me a bradar. "Ave ou demo, que há-de importar!
Pelo céu que nos circunda, pelas luzes divinais,
Dize a esta alma suplicante se longe, no Éden distante,
Reside Lenora, a amante das saudades imortais! —
Dize se está entre os anjos seus encantos imortais!"
Disse o Corvo: "Nuncamais."


"Que este verbo nos aparte! Some! Não quero escutar-te!"
Ergui-me, investi meu ódio. "Retorna aos teus temporais!
Retorna às noturnas gretas! Não reste uma pluma preta
Que evoque a mentira abjeta grasnada dos meus umbrais!
Tira teu infame vulto do busto sobre os umbrais!"
Disse o Corvo: "Nuncamais."


E sem mover uma pluma, o pássaro ainda se apruma
Por cima da mesma pálida Palas, sobre os umbrais;
Seu olhar guarda a peçonha do olhar de um demo que sonha.
A luz sobre a ave medonha abate-lhe a sombra, que jaz
Sobre o chão; - e neste chão, e em tal sombra, minha alma jaz.
Não se erguerá - nunca mais!

 


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