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O Corvo - Tradução: Milton Amado e Oscar Mendes (1943 - Brasil)



Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e exausto quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém"- fiquei a murmurar - "que bate à porta, devagar; sim, é só isso e nada mais.

Ah! claramente eu o lembro! Era no gélido dezembro
e o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina, arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo
. Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."

Erguí-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta: - escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi "Lenora!" E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" penso então, "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
é um Corvo hierático e soberto, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa augusto e, e sem notar sequer meu susto, adeja e pousa sobre o busto - uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais,
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular"- então lhe digo
- "não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!
qual é o teu nome, o nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (uma fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chama: "Nunca Mais."

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: "Amigos...sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: "é só isso que ele diz, duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritornelo
de "Nunca, nunca, nunca mais."

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então uma poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhando no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a alguem secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, torvo, este ominoso antigo corvo
grasnava sempre: "Nunca mais."

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ela, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais...

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!"- exclamo "- Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus
esquecimentos, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" - brado. " - Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a aeesa maldita e estéril terra, a essa precita
mansão de horror, que o horror habita, - imploro, dize-mo, em verdade: Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! dize-mo, em verdade!
"E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" - exclamo. "- Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja isso a nossa despedida!"- ergo-me e grito, a alma incendiada. -
"Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! Nunca mais!

 


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