(16) 99248-0091

Apóie a continuidade deste trabalho, totalmente independente desde 1997. Saiba como participar clicando na imagem ao lado.

1958 1990 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018

O Corvo - Tradução: Rubens Lucchetti (1960 - Brasil)



Certa vez, à hora lúgubre da meia-noite, eu meditava, fraco, fatigado, quase adormecido, sobre muitos volumes interessantes e valiosos. De repente, ouvi ligeiro ruído, de uma doutrina agora morta, como de alguém batendo, de leve, à porta do meu quarto. "É alguma visita", murmurei eu, "e nada mais".

Estávamos em dezembro, bem me lembro. As achas meio queimadas desenhavam no solo o reflexo da sua agonia. Eu desejava ardentemente a manhã! Eu não pedia aos livros o esquecimento das minhas mágoas… Pensava sempre nela, na minha Leonora perdida, na mulher rara e deslumbrante que os anjos chamam ainda Leonora e que os homens não chamarão nunca mais!

O vago sussurro dos reposteiros ondulantes enchiam-me de um terror fantástico e melancólico. Para acalmar a agitação que me assustava, levantei-me repetindo: "É, alguém que bate à porta, alguma visita tardia, que solicita a entrada do meu quarto; sim é isso, e nada mais". Então senti o espírito um pouco fortalecido, e sem hesitar falei assim:

– Senhor ou senhora, tende a bondade de perdoar-me. Estava meio adormecido e batesteis tão devagarinho que apenas tenho a consciência de vos ter ouvido.
Assim dizendo, escancarei a porta, mas só vi trevas e nada mais!

E a perscrutá-las profundamente, fiquei muito tempo cheio de espanto, de receio e de dúvida, tendo sonhos que mortal algum jamais ousou sonhar; mas nada perturbou o silêncio e a imobilidade das trevas, senão um nome proferido por mim: "Leonora!" e o eco, murmurando, repetia a palavra "Leonora!". Apenas isto e nada mais!

Tornando a entrar no quarto, com a alma em fogo, ouvi um ruído um tanto mais forte que o primeiro. "Com certeza, o que ouço agora é a gelosia da janela: vou ver o que ali há e apurar que mistério é este. Provavelmente, é o vento, e nada mais!"
Abri então a janela, e um corvo majestoso, digno dos antigos tempos, entrou pelo quarto adentro, com um bater de asas tumultuoso. Sem me fazer uma simples cortesia, adiantou-se com a imponência de um "lord" ou de uma "lady" e empoleirou-se num busto de Palas, colocado justamente por cima da porta do meu quarto.
A gravidade do seu aspecto e a severidade da sua fisionomia fizeram sorrir a minha triste imaginação:

– Embora tua cabeça, - disse-lhe eu, - não tenha popa nem cimeira, não és por certo um pássaro ordinário. Dize-me, pois qual é o teu título de nobreza nas regiões plutônicas da noite?
O corvo disse:
– Nunca mais!

Fiquei maravilhado ao ouvir aquela ave desgraciosa volátil compreender assim a palavra, posto que a sua resposta não tivesse grande senso, nem respondesse de modo algum à minha pergunta, porque é preciso confessar que nunca foi dado a um homem vivo, ver, por cima da porta do seu quarto, um pássaro, um bicho, sôbre um busto esculpido, com semelhante nome: "Nunca mais!".

Mas o corvo, solitariamente empoleirado no busto plácido, não proferiu aquela palavra única, como se nela toda a sua alma se espargisse. Então murmurei em voz baixa:
– Todos os amigos me têm deixado: amanhã também este me fugirá, assim como todos os outros me fugiram, assim como voaram as minhas esperanças!
E o pássaro tornou a dizer:
– Nunca mais!
Ao ouvir aquela resposta tão a propósito, estremeci.
– Provavelmente, - disse eu comigo mesmo, - não sabe senão esta palavra. Isto ele aprendeu com algum mestre infortunado, a quem a ímpia desgraça perseguiu sem tréguas, e cujos cantares acabaram por não ter senão aquêle melancólico estribilho, espécie de "De profundis" de todas as suas esperanças - nunca mais!

Mas o corvo induzindo ainda a minha alma triste a sorrir, puxei a cadeira para defronte dele, do busto e da porta, e comecei a ligar idéia com idéia, procurando adivinhar o que aquela ave agoureira de outros tempos, o que aquele triste, desengraçado, sinistro, magro e agoureiro pássaro de outrora, queria dizer com o seu "Nunca mais!".
Assim me detive um tempo, sonhando, meditando, porém sem mais dirigir a palavra ao pássaro, cujo olhar ardente me abrasava até o íntimo do coração. Eu procurava adivinhar o estribilho do corvo e muitas coisas mais, com a cabeça encostada ao espaldar da cadeira; esse espaldar macio de veludo violeta, onde a cabeça dela se recostava outrora!… onde não se recostará nunca mais!

Então pareceu-me que o ar se tornava mais espesso, perfumado por um turíbulo invisível, balouçado por serafins, cujos passos deslizaram pelo tapete do quarto.
– Desgraçado! - exclamei eu. - Deus, pelos seus anjos, manda-te tréguas e nepentes contra as saudades de Leonora! Bebe, oh! bebe este bom depentes e esquece Leonora, perdida para sempre!
E o corvo tornou a dizer:
– Nunca mais!

– Profeta! ser de desgraça pássaro ou demônio, contudo profeta! quer sejas mensageiro do Tentador, ou simples náufrago, lançado pela tempestade a esta terra deserta e enfeitiçada, a este lar de miséria e de horror, dize-me sinceramente - suplico-te! - é verdade que existe um bálsamo da Judéia? oh! dize-me, dize-me por piedade!
O corvo respondeu:
– Nunca mais!

– Profeta! ser de desgraça! pássaro ou demônio, contudo profeta! Pelo céu que nos cobre, pelo Deus que ambos adoramos, dize-me se esta alma, esmagada pela dor, poderá um dia, no paraíso longínquo, abraçar uma donzela santa, preciosa e deslumbrante, a quem os anjos chamam Leonora?
O corvo disse:
– Nunca mais!

– Seja mas tuas palavras o sinal da nossa separação, pássaro ou demônio! - exclamei eu, pondo-me em pé. - Volta à tempestade e às costas da noite plutônica! Não deixes aqui nem uma só das tuas penas negras, em memória da mentira que acabas de proferir. Não violes por mais tempo a minha solidão. Tira-te de minha porta, arranca o teu bico do meu coração e precipita o teu aspecto para bem longe dêste quarto!
O corvo disse:
– Nunca mais!

E, imutável, continua sempre empoleirado no pálido busto de Palas, por cima da porta do meu quarto. Os meus olhos, com um brilho demoníaco, parecem pensativos; a luz da minha lâmpada projeta a sua sombra sobre o solo, e além do círculo desta sombra, a minha alma não poderá elevar-se nunca mais!

Rubens Francisco Lucchetti (Santa Rita do Passa Quatro/SP 1930 -) é um dos mais importantes roteiristas de cinema e de histórias em quadrinhos. Ilustrações Nico Rosso Nico Rosso (Turim, Itália 1910-1981 São Paulo/SP, Brasil) foi um dos maiores artistas de quadrinhos do Brasil, especializando-se no gênero horror.

 


(16) 99248-0091

A Barata - O Site

A Barata Ao Vivo

Amigos & Livros

A Arca do Barata

Arquivos Abertos

Artesanato

Artigos
As Faces d'O Corvo
Augusto dos Anjos

Ataraxia

Barata Cichetto, Quem É?

Barata Rocker

Biografi'As Baratas

Camisetas

Cinematec'A Barata

Coletâneas de Rock

Colunas Antigas
Conte Comigo, Conte Pra Mim
Contos d'A Barata
Convergências
Crom

Crônic'As Baratas

De Poeta a Poeta

Depoimentos

Des-Aforismos Poéticos Baratianos

Discoteca d'A Barata

Download Free

Ensaios Musicais

Entrevist'As Baratas

Eventos

Facebookianas
Fal'A Barata!
Fotos
Gatos & Alfaces
Kakerlak Doppelgänger
Livrari'A Barata
Livros
Madame X
Memória A Barata
Micrônic'As Baratas

Na Mídia

O Anjo Venusanal
Pinturas
Pi Ao Quadrado

Poesi'a Barata

Ponto de Fuga
Pornomatopéias
PQP - Puta Que Pariu
Prefácios & Editoriais
Projeto Sangue de Barata
Psychotic Eyes
Renato Pop
Resenhas

Retratos e Caricaturas

Revist'A Barata Digital

Revist'A Barata

Seren Goch: 2332

Sub-Versões

Tublues

Versus

Videos

Vitória

Webradio

Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos Giraçol Cichetto, nome literário Barata Cichetto, e foram registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor, bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade". Lei de Direitos Autorais: 9610/98.
 On Line

Política de PrivacidadeFree counter users online