(16) 99248-0091

Apóie a continuidade deste trabalho, totalmente independente desde 1997. Saiba como participar clicando na imagem ao lado.

1958 1990 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018

O Corvo - Tradução: Fontoura Xavier (1887 - Brasil)



Ao Conde Afonso Celso

Uma vez, ao bater da meia noite, quando eu meditava sobre o volume de uma doutrina ignorada, e quando mais sonolenta sentia a cabeça fatigada curvar-se sobre as suas páginas, ouvi o ruído como de alguém que batia, batia à porta de meu quarto. "É talvez uma visita, murmurei: é talvez um visitante, tardio que bate à porta do meu quarto, é isso e nada mais".

Ah! Lembro-me distintamente: era pelas neves de Dezembro, e cada brasa de fogão exalava o seu último raio de agonia. Eu anelava ardentemente que amanhecesse. Em vão tinha-me esforçado para arrancar dos livros um alívio para a minha saudade, a saudade da minha morta Leonor; saudade daquela que os anjos chamam Leonor e que na terra ninguém mais há de chamar, nunca mais!...

E a vaga e leve ondulação das cortinas penetrava todo o meu ser, enchendo-o de um terror fantástico que eu então desconhecia. Se bem que para acalmar o meu coração eu repetisse comigo mesmo: "É talvez uma visita que deseja entrar a porta do meu quarto; é talvez um visitante tardio que deseja entrar a porta do meu quarto, é isso e nada mais".

E assim, sentindo-se animado, não hesitei por mais tempo: "Senhor ou Senhora, disse quem quer que sejas, peço-vos que me perdoeis; mas o fato é que estava quase adormecido; e depois batestes tão docemente, tão docemente, viestes bater à porta do meu quarto, que eu apenas pude convencer-me que tinha ouvido..." E, abrindo-a subitamente, vi trevas e nada mais!

Perscrutando ansiosamente essas trevas, sentir-me tomado de assombros e de apreensões, imaginando sonhos que nenhum mortal jamais ousou sonhar; mas o silêncio era imóvel, e a sua imobilidade foi ainda acentuada por uma palavra, "Leonor"! Era eu que a murmurava, e o eco a seu turno repetiu essa palavra "LEONOR". Só isso e nada mais.

Voltando ao meu quarto, e sentindo dentro em mim como um incêndio na alma, ouvi de novo o ruído, um pouco mais forte que o primeiro. "Naturalmente, pensei, já alguma coisa atrás da minha janela; vejamos o que seja, desvendemos o mistério; deixemos o coração acalmar-se um instante e desvendemos este mistério: é o vento e nada mais".

Mas, abrindo-a subitamente, vejo entrar um soberbo corvo digno de eras primitivas. Sem fazer a menor reverência, sem que sequer lhe parecesse estranho o lugar onde entrava, ele não hesitou um instante, mas, com ar senhorial de um nobre, pousou tranquilamente sobre a porta do meu quarto... pousou sobre o busto de Palas que fica sobre a porta do meu quarto, pousou, recolheu as asas e nada mais.

Então, esta ave negra, não sei se pela severidade de seu aspecto ou se pelo grotesco do seu todo, induziu-me a triste imaginação a sorrir: "Se bem que sejas calvo, disse, e conservas a cabeça despida de penachos bélicos, tu não és decerto um vilão, ó lúgubre e velho corvo, viajante aportaro da profunda noite de Averno!... Dize-me qual é o teu nome senhorial na profunda noite ptutoniana?... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

Assombrou-me que esse desgraçado plumitivo tivesse tão facilmente entendido a minha pergunta; com quanto a sua resposta não fosse inteiramente satisfatória, pois devemos convir que jamais foi dado a um ser humano ver uma ave ou um animal pousado sobre a porta do seu quarto, uma ave ou animal pousado sobre o busto esculpido à porta do seu quarto, e dizendo chamar-se "Nunca mais".

Mas o corvo, pousado tranquilamente sobre o busto plácido, não proferiu senão essas palavras, como se nessas palavras ele expandisse toda a sua alma; não pronunciou nada mais e nem de leve moveu uma pena até que em murmurasse comigo mesmo: "Em chegando a manhã ele também me deixará como me deixaram as minhas velhas esperanças; outros amigos foram-se assim como ele..." E o corvo respondeu: "Nunca mais".

Sobressaltado com a sua resposta tão a propósito supus que era essa sem dúvida toda a sua bagagem literária que ele aprendera, quem sabe! de algum infortunado, a quem a desgraça perseguira tão incessantemente e sem tréguas, que as suas canções não eram mais que este único estribilho... que o "de profundis" da sua esperança não mais que este melancólico estribilho: "Jamais, nunca mais".

Mas o corvo, induzindo o meu triste espírito a sorrir, fez-me chegar a poltrona para mais junto do busto, onde reclinado sobre o espaldar de veludo eu me esforçava por concatenar as minhas ideias, procurando o que queria dizer essa agourenta ave das antigas eras... procurando o que queria dizer essa agourenta, triste e sinistra ave das antigas eras, grasnando o seu — "Nunca mais".

E conservei-me assim por algum tempo pensando, mas já sem me dirigir mais à ave, cujos olhos ardentes parecia agora que me queimavam a alma; pois era embalde que eu me esforçava por compreendê-la, com a cabeça repousada sobre o veludo da poltrona que a luz da lâmpada acariciava... esse veludo violeta que a luz da lâmpada acariciava, e onde a cabeça dela não mais se há de reclinar, nunca mais!

E então afigurou-se-me que o ar se condensava, perfumado por um turíbulo invisível, agitado por anjos, cujos passos eu imaginava sentir sobre o tapete: "Desgraçado! murmurei; o teu Deus levou-ta para sempre, deixando a sua lembrança como tormento da tua saudade... detém-te, detém-te nessa senda e esquece de uma vez a tua morta Leonor... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Profeta! exclamei; prenúncio de desgraça, ave ou demônio, mas sempre profeta! sejas embora um enviado do inferno, ou que só o acaso da tempestade tenha-te arrojado como um náufrago perdido mas ainda intrépido sobre este retiro onde o horror habita! diz-me, eu te suplico, poderei encontrar porventura um alívio à minha dor? dize-me, eu te suplico!" E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Profeta! Prenúncio de desgraça, ave ou demônio, mas sempre profeta! por este céu estendido sobre as nossas cabeças, por esse Deus que nós ambos adoramos, dize se a minha alma carregada de dores pode ainda abraçar num paraíso longínquo essa filha que os anjos chamam Leonor?..." E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Ave ou demônio! que essas palavras sejam o adeus eterno da nossa separação. Vai-te tempestade, torna de novo à mais profunda noite do Averno! não deixeis uma única pena negra como lembrança da mentira que acabas de proferir; vai-te da minha solidão inviolável, deixa esse busto de cima, da minha porta... Arranca o teu bico que me dilacera a alma, e vai-te, espectro lutolento, para bem longe da minha porta!... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

E o corvo imóvel, está sempre pousado, sempre pousado sobre o busto plácido de Palas, esculpido sobre a porta do meu quarto; os seus olhos são como os olhos de um demônio que sonha; a luz da lâmpada entornando-se sobre ele, projeta a sua sombra negra sobre o pavimento; e fora dessa sombra negra que gira flutuante sobre o pavimento, a minha alma jamais se poderá elevar, nunca mais!

 


(16) 99248-0091

A Barata - O Site

A Barata Ao Vivo

Amigos & Livros

A Arca do Barata

Arquivos Abertos

Artesanato

Artigos
As Faces d'O Corvo
Augusto dos Anjos

Ataraxia

Barata Cichetto, Quem É?

Barata Rocker

Biografi'As Baratas

Camisetas

Cinematec'A Barata

Coletâneas de Rock

Colunas Antigas
Conte Comigo, Conte Pra Mim
Contos d'A Barata
Convergências
Crom

Crônic'As Baratas

De Poeta a Poeta

Depoimentos

Des-Aforismos Poéticos Baratianos

Discoteca d'A Barata

Download Free

Ensaios Musicais

Entrevist'As Baratas

Eventos

Facebookianas
Fal'A Barata!
Fotos
Gatos & Alfaces
Kakerlak Doppelgänger
Livrari'A Barata
Livros
Madame X
Memória A Barata
Micrônic'As Baratas

Na Mídia

O Anjo Venusanal
Pinturas
Pi Ao Quadrado

Poesi'a Barata

Ponto de Fuga
Pornomatopéias
PQP - Puta Que Pariu
Prefácios & Editoriais
Projeto Sangue de Barata
Psychotic Eyes
Renato Pop
Resenhas

Retratos e Caricaturas

Revist'A Barata Digital

Revist'A Barata

Seren Goch: 2332

Sub-Versões

Tublues

Versus

Videos

Vitória

Webradio

Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos Giraçol Cichetto, nome literário Barata Cichetto, e foram registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor, bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade". Lei de Direitos Autorais: 9610/98.
 On Line

Política de PrivacidadeFree counter users online