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O Corvo - Tradução: Manoel de Soiza e Azevedo (1913 - Brasil)



Numa noite de insônia, enfraquecido
e cansado, eu buscava aprofundar
de um velho e estranho livro o vão sentido,
quase a fronte de sono a se inclinar.
Eis que súbito escuto um som de leve,
como se alguém batesse, breve, breve,
bem de vagar à porta de meu quarto.
“É alguém que bate à porta de meu quarto.
Talvez um visitante, nada mais.
Sim, nada mais”.

Era uma noite fria da Dezembro;
da lareira, entre as cinzas, o clarão
mortiço e tênue (vívido me lembro)
refletia-se a espaços pelo chão.
Com que ardor ansiava pelo dia!
Embalde um lenitivo na leitura
buscava achar. Em vão, vem vão pedia
conforto à dor de haver perdido a pura
e radiosa mulher, minha Leonora,
que os anjos ainda chamam de Lenora,
que na terra esse nome, entre os mortais,
Não terá mais.

Se o reposteiro às vezes balouçava
num roçagar de púrpura macia,
que fantástico horror me dominava,
e que vaga tristeza me invadia!
Falei, para abafar do coração
a precípite e doida pulsação:
“É alguém pedindo entrada à minha porta;
alguém se atrasou batendo à porta.
Eis o que e com certeza. Nada mais;
Sim, nada mais”.

Isto minh’alma um pouco reconforta
e disse logo sem mais hesitar:
“Quem quer que é que bata à minha porta,
senhor… senhora… queira desculpar,
pois eu estava quase adormecido
e pareceu-me até não ter ouvido
bater, roçar de leve encontro à porta”
Assim dizendo, fui abrir a porta:
Trevas havia, trevas, nada mais;
Só, nada mais.

No recesso das trevas mergulhando
o olhar, cheio de assombro, apavorado,
entre a dúvida e o horror, hirto, sonhando
fiquei sonho de alguém jamais sonhado
Muda e imóvel a noite, escura e morta;
e nenhum som a imensa treva corta.
Murmuro a medo o nome de Lenora,
num sussurro responde o eco — Lenora.
Apenas, nada mais.
Só, nada mais.

Voltando ao quarto, a alma perturbada,
ouço bater mais forte outra pancada.
“Alguma cousa, murmurei, que oscila
pelo lado de fora da janela,
a veneziana solta da tramela…
Para aquietar de todo a alma intranquila,
eu preciso sondar este mistério.
Calma! Vamos sondar este mistério.
Do vento é o sopro apenas, nada mais;
sim, nada mais”.

Abro a janela. Negrejante vulto
num surto entra no quarto de repente;
de asas batendo o ar ouço um tumulto;
era um corvo decrépito, imponente.
Como um senhor ou dama sobranceira
sobre um busto de Palas se empoleira,
bem em cima da porta de meu quarto;
pousa num busto à porta de meu quarto;
Toma lugar, se acalma. Nada mais,
só, nada mais.

A rir, o negro pássaro de agouro
a imaginação sombria me incitava;
rio do ar severo de decoro;
rio do grave aprumo que tomava.
E disse: — “Embora a poupa depenada
tenhas, não és de certo algum poltrão.
Ave rude e espectral, como és chamada,
qual teu nome no reino de Plutão?
Peregrino que vens da eterna noite,
Teu nome na região da eterna noite?”
Grasna o corvo fantástico: — Jamais!

Eu pasmei que a ave estúpida tivesse
tão bem minha palavra compreendido,
posto a sua resposta não dissesse
cousa alguma de acerto e com sentido.
Mas deve-se convir que a ninguém dado
fora um pássaro ver empoleirado
num busto, de seu quarto sobre a porta.
Nem consta que existisse, entre animais,
esse nome — Jamais.

Mudo e firme, quedou-se sobre o busto,
nada mais disse o corvo solitário,
nem se moveu, como se houvesse a custo
dito tudo do seu vocabulário.
Até que eu murmurei: — “Como passavam
outros amigos que me abandonaram,
como esperanças que se vão voando,
assim este amanhã irá voando”.
Responde o corvo lúgubre: — Jamais!
Jamais, jamais!

Esta pronta resposta admirou-me,
vendo tão a propósito e discreta
“Talvez, eu refleti, com este nome
todo o seu repertório se completa.
Aprendeu-o de um dono desgraçado,
a quem sem tréguas perseguiu o fado
cujo canto só tinha este estribilho,
salmeando da esperança os funerais:
Jamais, jamais!”

Como o corvo em minh’alma despertasse
um pensamento misterioso e torvo,
rolei uma poltrona bem em face
ao busto, em frente à porta, em frente ao corvo.
E recostei-me, pensativo e mudo,
na macia almofada de veludo.
Visões, sonhos revi na fantasia,
pensando o que é que o corvo quereria,
rude e espectral fantasma do passado,
o que o corvo agourento do passado
quereria dizer com seu — Jamais!
Jamais, jamais!

Em vagas conjeturas me perdendo,
sentado e mudo, o negro corvo olhava;
e o olhar do corvo, em fogo aceso, ardendo,
o coração no peito me queimava.
Nisto eu pensava, a gosto descansando,
nos coxins de veludo repousando,
no veludo violeta em que batia,
em que o clarão da lâmpada batia,
em que Ela não repousará jamais,
ai! nunca mais.

Pareceu-me sentir o ar mais denso
e dos anjos ouvir roçar o passo,
como se vissem derramando incenso
de invisível turíbulo no espaço.
“O esquecimento, eu disse, ó desgraçado,
Deus enfim pelos anjos te há mandado.
Acalma esta saudade de Lenora.
Esquece, esquece a perda de Lenora!
O corvo crocitando diz: — Jamais!
Jamais, jamais!

“Profeta, ente de agouro, ave ou demônio,
se pelo Tentador foste mandado,
ou se trouxe-te a asa do aquitônio
a este país deserto e enfeitiçado,
a esta casa onde o horror mora e se esconde,
sem rebuço me diz, anda, responde:
Haverá, haverá o esquecimento,
o bálsamo haverá do esquecimento?”
Responde o corvo tétrico: — Jamais!
Jamais, jamais!

“Profeta, mensageiro da desgraça,
ave ou demônio da superstição,
diz, pelo céu, pela divina graça,
diz à minh’alma prenhe de aflição,
responde, diz: — No paraíso, ainda,
poderei estreitar a santa e linda,
radiosa mulher que foi Leonora,
que os anjos ainda chamam de Leonora?”
O corvo rouquejando diz: — Jamais!
Jamais, jamais!

Vai-te, gritei, ave ou demônio! Uivando,
leve-te o vento à noite de Plutão;
e que tuas mentiras atestando
não fique uma só pena pelo chão.
Vai-te, demônio; vai-te num momento.
Deixa inviolado o meu isolamento,
Tira o bico que o peito me trespassa,
que o coração no peito me espicaça.
Deixa esse busto sobre a minha porta;
foge, fantasma; foge dessa porta.”
Diz o corvo terrífico: — Jamais!
Jamais, jamais!

O corvo não se move, não se importa,
fica no busto pálido fixado;
imóvel fica sobre a minha porta,
com o olhar de um demônio condenado.
No chão, a luz da lâmpada que ondeia
do negro corvo a sombra delineia.
E minh’alma, da sombra que flutua,
eu sinto que, da sombra que flutua,
Não fugirá, não fugirá jamais.
Jamais, jamais!

 


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