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O Corvo - Tradução: Alfredo Ferreira Rodrigues (1914 - Brasil)



Numa noite de insônia, enfraquecido
e cansado, eu buscava aprofundar
de um velho e estranho livro o vão sentido,
quase a fronte de sono a se inclinar;
Eis que súbito escuto um som de leve,
como se alguém batesse, breve, breve,
bem de vagar à portra de meu quarto.
"É alguém que bate à porta de meu quarto.
Talvez um visitante, nada mais.
Sim, nada mais."

Era uma noite fria de dezembro;
da lareira entre as cinzas o clarão,
mortiço e tênue (vívido me lembro),
refletia-se a espaços pelo chão.
Embalde um lenitivo na leitura
buscava achar. Em vão, em vão pedia
confôrto à dor de haver perdido a pura
e radiosa mulher, minha Lenora,
que os anjos ainda chamam de Lenora,
que na terra êsse nome entre os mortais,
não terá mais.

Se o reposteiro as vêzes balouçava,
num roçagar de púrpura macia,
que fantástico horror me dominava
e que vaga tristeza me invadia!
Falei, para abafar do coração
a precípite e doida pulsação:
"É alguem pedindo entrada à minha porta,
alguém que se atrasou batendo à porta.
Eis o que é, com certeza. Nada mais;
Sim, nada mais."

Isto na alma um pouco reconforta,
e disse logo, sem mais hesitar:
"Quem quer que é que bate à minha porta,
senhor... senhora... queira desculpar,
pois eu estava quase adormecido
e pareceu-me até não ter ouvido
bater, roçar de leve encontro à porta."
Assim dizendo, fui abrir a porta.
Trevas havia. trevas, nada mais;
só, nada mais.

No recesso das trevas mergulhando
o olhar, cheio de assombro, apavorado,
entre a dúvida e o horror, hirto, sonhando
fiquei sonho de alguém jamais sonhado.
Muda e imóvel a noite, escura e morta;
e nenhum som a imensa treva corta.
Murmuro a mêdo o nome de Lenora,
num sussurro responde o eco — Lenora.
Apenas, nada mais.
Só, nada mais.

Voltando ao quarto, a alma perturbada,
ouço bater mais forte outra pancada.
"Alguma coisa, murmurei, que ocila
pelo lado de fora da janela,
a veneziana sólta da tramela...
Para aquietar de todo a alma intranquila
eu preciso sondar êste mistério.
Calma! Vamos sondar êste mistério.
Do vento é o sôpro apenas, nada mais;
sim, nada mais."

Abro a janela. Negrejante vulto
num surto entra no quarto de repente;
de asas batendo o ar ouço um tumulto;
era um corvo decrépito, impotente.
Como um senhor ou dama sobranceira,
sôbre um busto de Pallas se empoleira,
bem em cima da porta do meu quarto;
pousa num busto à porta de meu quarto.
Toma lugar, se acama. Nada mais,
só, nada mais.

A rir, o negro pássaro de agouro
a imaginação sombria me incitava;
rio do ar severo de decôro,
rio do grave aprumo que tomava.
E disse: — "Embora a poupa depenada
tenhas, não és de certo algum poltrão.
Ave rude e espectral, como és chamada,
qual teu nome no reino de Plutão?
Peregrino que vens da eterna noite,
teu nome na região da eterna noite?"
Grasna o corvo fantástico: Jamais!
Jamais, jamais!

Eu pasmei que a ave estupida tivesse
tão bem minha palavra compreendido,
pôsto a sua resposta não dissesse
coisa alguma de acêrto e com sentido.
Mas deve-se convir que a ninguém dado
fôra um pássaro ver empoleirado
num busto, de seu quarto sôbre a porta,
de seu quarto pousado sôbre a porta.
Nem consta que existisse, entre animais,
êsse nome — Jamais.

Mudo e firme, quedou-se sôbre o busto,
nada mais disse o corvo solitário,
nem se moveu, como se houvesse a custo
dito tudo do seu vocabulário.
Até que eu murmurei: — "Como passaram
outros amigos que me abandonaram,
como esperanças que se vão voando,
assim êste amanhã irá voando."
Responde o corvo lúgubre: — Jamais!
Jamais, jamais!

Esta pronta resposta admirou-me,
vindo tão a propósito e discreta.
"Talvez, eu refleti, com êste nome
todo o seu repertório se completa.
Aprendeu-o de um dono desgraçado,
a quem sem tréguas perseguiu o fado,
cujo canto só tinha êste estribilho,
melancólico e único estribilho,
psalmeando da esperança os funerais:
Jamais, jamais!

Como o corvo em minha alma despertasse
um pensamento misterioso e torvo,
rolei uma poltrona bem em face
ao busto, em frente à porta, em frente ao corvo.
E recostei-me, pensativo e mudo,
na macia almofada de veludo.
Visões, sonhos revi na fantasia,
pensando o que é que o corvo queria,
rude e espectral fantasma do passado,
o que o corvo agourento do passado
quereria dizer com seu — Jamais!
Jamais, jamais!

Em vagas conjeturas me perdendo,
sentado e mudo, o negro corvo olhava;
e o olhar do corvo, em fogo aceso, ardendo,
o coração no peito me queimava.
Nisto eu pensava, a gôsto descansando,
nos coxins de veludo repousando,
no veludo violeta em que batia,
em que o clarão da lâmpada batia,
em que ela não repousará jamais,
ai! nunca mais!

Pareceu-me sentir o ar mais denso
e dos anjos ouvir roçar o passo,
como se viessem derramando incenso
de invisível turíbulo no espaço.
"O esquecimento, eu disse, ó desgraçado,
Deus enfim pelos anjos te há mandado.
Acalma esta saudade de Lenora,
esquece, esquece a perda de Lenora."
O corvo crocitando diz: — Jamais!
Jamais, jamais!

"Profeta, ente de agouro, ave ou demônio,
se pelo Tentador fôste mandado,
ou se te trouxe a asa do aquilônio
a êste pais deserto e enfeitiçado,
a esta casa onde o horror mora e se esconde,
sem rebuço me diz, anda, responde:
Haverá, haverá o esquecimento,
o bálsamo haverá do esquecimento?"
Responde o corvo tétrico: — Jamais!
Jamais, jamais!

"Profeta, mensageiro da desgraça,
ave ou demônio da superstição,
diz, pelo céu, pela divina graça,
diz à minha alma prenhe de aflição,
responde, diz: No paraíso, ainda,
poderei estreitar a santa e linda,
radiosa mulher que foi Lenora,
que os anjos inda chamam de Lenora?"
O corvo rouquejando diz: — Jamais!
Jamais, jamais!

"Vai-te, gritei, ave ou demônio! Uivando
leve-te o vento à noite de Plutão;
e que tuas mentiras atestando
não fique uma só pena pelo chão.
Vai-te, demônio; vai-te num momento.
Deixa inviolado o meu isolamento.
Tira o bico que o peito me trespassa,
que o coração no peito me espicaça.
Deixa êsse busto sôbre a minha porta;
foge, fantasma; foge dessa porta."
Diz o corvo terrífico: - Jamais!
Jamais, jamais!

O corvo não se move, não se importa,
fica no busto pálido fixado;
imóvel fica sôbre a minha porta,
com o olhar de um demônio condenado.
No chão, a luz da lâmpada que ondeia,
do negro corvo a sombra delineia.
E minha alma, da sombra que flutua,
eu sinto que, da sombra que flutua,
não fugirá, não fugirá jamais,
jamais, jamais! *

In Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul, ano de 1914, págs. 230/234 — com as correções indicadas à pág. 291 do mesmo volume.

 


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