(16) 99248-0091

Apóie a continuidade deste trabalho, totalmente independente desde 1997. Saiba como participar clicando na imagem ao lado.

1958 1990 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018

O Corvo - Tradução: Anônimo/Desconhecido (1916 - Brasil)



[...]

Abro o postigo e súbito entra, negro,
Altivo urubu-rei, tumultuoso,
Que sem mais cortesia vai voando,
Sem partir uni instante, descuidoso,
Mas, circunspeto sempre como um lord,
Adejando inda acima dos portais,
Vê um busto de Palas sobre a porta
E nele pousa, e fica: e nada mais!

Diante de tão feio e negro vulto,
De atitude severa e ar correto,
O triste pensamento me sorri:
Oh! corvo, disse eu, corvo abjeto!
Tu, que sem medo vens das plagas negras,
Posto disfarces dons senhoriais,
Responde: "Qual teu nome? onde nasceste?"
E o corvo respondeu-me: nunca mais!

Aterrado fiquei; pois na verdade,
Embora tão confuso respondesse,
Entendera mui bem minha pergunta.
Coisa igual jamais sei que acontecesse!
Um pássaro, tão negro, altivo, posto
No busto que lá 'stá num dos portais,
Ouvir minha pergunta e responder
Que se chama somente: nunca mais!

Assim, aquele corvo, que não sabe
Dizer outra palavra que as que disse,
Quedo, lá, sem mexer nenhuma pena,
Disse tudo que sua alma resumisse.
Por fim, considerei: "Tenho perdido
Tantos antigos bons e tão leais!
Perderei tombem este, em vindo o dia?"
E o corvo respondeu-me: nunca mais!

Estremeci. "Resposta tão cabida,
Tão exata!" pensei: "isso é ciência
Única que aprendeu com algum mestre
D'implacável desdita, em convivência;
Que tão tenaz castigo dó destino!
Guardar dos cantos dantes usuais
Somente o que ficou do derradeiro!
Somente este estribilho: nunca mais!"

De novo me sorri o pensamento;
Me sento na poltrona, em frente ao corvo;
Concentro o pensamento no mistério
Que só em desvendar eu me absorvo.
Que lúgubre, sentido? Que alma tem
segredo dos termos sepulcrais?
Agouro é o sentido dessa frase
Que o corvo grasna tanto: nunca mais?!

Estava meditando, em devaneio,
Calado, em conjecturas; mas sentia
Seu olhar abrasar-me, e recostado
Na poltrona, tranquilo refletia:
Neste encosto macio já outrora
Cabeça de anjo; tranças divinais
Muita vez esparziu aqui; depois...
Depois! não esparziu mais... nunca mais!

Parecendo-me então o ar encher-se
De incenso de turíbulo qual no espaço
Serafins invisíveis se agitassem,
Logo esta exclamação me ocorre e faço:
"Deus sensível! que dás consolo à dor,
Pungida de saudades imortais!
De Leonor ide esquecer assim tu fazes?"
Do alto disse o corvo: nunca mais!

"Profeta, ave, demônio, ou quer que sejas,
Profeta que tu és, dize, responde,
Ou venhas tu do Averno ou, naufragado,
Acaso o temporal aqui te esconde,
Nesta casa onde só, e tão somente,
O horror tem seus passos triunfais.
Dize: quando haverá conforto à dor?"
E respondeu-me o corvo: nunca mais!

"Profeta, ave, demônio, ou quer que sejas,
Profeta que tu és, responde, fala.
Pelo céu que se estende ao infinito,
Por Deus que é nosso Deus, há de abraçá-la,
Dize só: poderá minh'alma triste
Unir-se, além dos lares sepulcrais,
À virgem que entre os anjos é Leonor?"
E o corvo respondeu-me: nunca mais!

"Profeta, ave, demônio, ou quer que sejas,
Cala-te! e volta, já, pra tua noite!
Regressa ao temporal donde fugiste;
Que eu fique só aqui, mas não te acoite!
Vai-te! leva contigo essa mentira!
Carrega-te com as garras tão fatais
que rasgam-me no peito a minha dor!
E o corvo respondeu-me: nunca mais!

E fica ali pousado e quedo o corvo
Sobre o busto de Palas, tão bisonho;
Que, ao ver-lhe o duro senho carregado,
Julga-se ver um demo em pleno sonho.
No chão a sombra dele reproduz-se
Perfeitamente em linhas funerais,
E minh'alma que geme, presa e triste
Fora dela não sai! Oh! nunca, mais!

 


(16) 99248-0091

A Barata - O Site

A Barata Ao Vivo

Amigos & Livros

A Arca do Barata

Arquivos Abertos

Artesanato

Artigos
As Faces d'O Corvo
Augusto dos Anjos

Ataraxia

Barata Cichetto, Quem É?

Barata Rocker

Biografi'As Baratas

Camisetas

Cinematec'A Barata

Coletâneas de Rock

Colunas Antigas
Conte Comigo, Conte Pra Mim
Contos d'A Barata
Convergências
Crom

Crônic'As Baratas

De Poeta a Poeta

Depoimentos

Des-Aforismos Poéticos Baratianos

Discoteca d'A Barata

Download Free

Ensaios Musicais

Entrevist'As Baratas

Eventos

Facebookianas
Fal'A Barata!
Fotos
Gatos & Alfaces
Kakerlak Doppelgänger
Livrari'A Barata
Livros
Madame X
Memória A Barata
Micrônic'As Baratas

Na Mídia

O Anjo Venusanal
Pinturas
Pi Ao Quadrado

Poesi'a Barata

Ponto de Fuga
Pornomatopéias
PQP - Puta Que Pariu
Prefácios & Editoriais
Projeto Sangue de Barata
Psychotic Eyes
Renato Pop
Resenhas

Retratos e Caricaturas

Revist'A Barata Digital

Revist'A Barata

Seren Goch: 2332

Sub-Versões

Tublues

Versus

Videos

Vitória

Webradio

Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos Giraçol Cichetto, nome literário Barata Cichetto, e foram registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor, bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade". Lei de Direitos Autorais: 9610/98.
 On Line

Política de PrivacidadeFree counter users online