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O Corvo - Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta (2009 - Brasil)



Numa meia-noite assombrosa, enquanto lia, fraco e fatigado,
Quase adormecido, um curioso livro de uma longínqua filosofia,
Ouvi, de repente, um toque,
Uma leve batida, roçando a porta do meu quarto
– É uma visita – murmurei, – que bate à minha porta.
Apenas isso, e nada mais.

Ah, lembro-me claramente, era um lúgubre dezembro,
E cada brasa que morria lançava uma sombra no chão.
Súbito ansiei pela manhã; em vão buscara
Em meu livro um alento para a minha dor – dor de haver perdido Lenore –
A rara e radiosa dama que os anjos chamam de Lenore –
E aqui não chamam mais.

O roçar sedoso, triste e incerto das roxas cortinas
Me assustaram – aterrorizando-me como nunca antes;
E agora, para abrandar as batidas do meu coração, comecei a repetir:
– É uma visita que quer entrar em meu quarto.
Um visitante tardio que em meu quarto quer entrar.
Apenas isso, e nada mais.

Nesse momento, minha alma encheu-se de coragem, sem mais hesitar:
– Senhor – eu disse, – ou senhora, imploro que me perdoe;
Mas eu estava dormindo, e roçavas, batendo tão de leve,
Tão levemente batendo, batendo à porta do meu quarto,
Que mal o ouvi – abrindo a porta de par em par –
E me deparei com a negra escuridão e nada mais.

Olhando o negrume, fiquei ali por muito tempo, pensando, temendo,
Duvidando, sonhando o que mortais jamais ousaram antes sonhar;
Mas o silêncio continuava, e se mantinha inquebrantado,
E a única palavra que se ouviu foi um sussurro: – Lenore!
Que murmurei, e um eco devolveu-me seu nome: – Lenore!
Apenas isso, e nada mais.

Voltei-me novamente para o quarto, com minha alma em chamas,
Logo ouvi, outra vez, um toque, uma batida mais forte que antes;
– Claro – eu disse, – claro que há algo junto à minha janela;
Deixe-me ver, então, do que se trata, e desvendar esse mistério.
Deixe-me abrandar o coração e desvendar esse mistério!
É apenas o vento, e nada mais.

Abri a janela de um só golpe, quando, rufando as asas,
Entrou um imenso Corvo, como os antigos corvos do passado.
Ele, sem se fazer de rogado, nem por um momento ou minuto se deteve,
Mas, com um largo ar senhorial, pousou em cima da porta do meu quarto –
Pousou sobre o busto de Atena, em cima da porta do meu quarto –
Apenas pousou, e nada mais.

Então, esse pássaro de ébano, ludibriando a minha tristeza,
Pelo ar grave e sério que demonstrava,
– Embora sua cabeça seja lisa e brilhante – eu disse, – não pareces um severo,
Assustador, terrível e antigo Corvo, à noite, sobrevoando as praias:
Dize-me teu nobre nome, nesta praia, em uma Noite de Plutão!
Retrucou o Corvo: – Nunca mais.

Surpreendi-me por essa estranha ave falar tão diretamente,
Embora sua resposta aparentasse ter tão pouco significado ou relevância;
Pois não podemos deixar de concordar que nenhum ser humano
Teve a chance de ver um pássaro em cima da porta de seu quarto –
Pássaro ou animal sobre o busto esculpido em cima da porta de seu quarto –
Que se chamasse “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sentado solitário sobre o plácido busto, disse apenas
Esta única palavra, como se nela expirasse toda a sua alma.
Nada mais ele disse, nem moveu nenhuma pluma;
Até eu mal balbuciar: – Outras aves já se foram:
Pela manhã ele me deixará, como minhas Esperanças já me abandonaram.
Então, o pássaro replicou: – Nunca mais.

Estarrecido com o silêncio rompido por resposta tão abrupta,
– Duvido – eu disse, – o que ele diz é apenas o que sabe dizer,
Que aprendeu de um dono infeliz, cujo inclemente Desastre
Aproximou-se dele rapidamente, até calá-lo com seu peso,
Até o estertor de sua Esperança, que carregava a melancolia
De “Nunca – nunca mais”.

Mas com o Corvo ainda iludindo a minha triste alma,
Empurrei a poltrona diante do pássaro pousado no busto acima da porta;
Então, afundado no assento de veludo, vi-me associando
Os fatos, pensando o que este taciturno e antigo pássaro,
Por que este taciturno, antigo, estranho, amedrontador e terrível pássaro
Grasnava: – Nunca mais.

Sentado, tentei adivinhar, mas sem dizer palavra
À ave, cujos olhos ferinos agora queimavam em meu peito;
Isto e muito mais tentei adivinhar, reclinando a minha cabeça
Sobre o estofo de veludo sob a luz da lâmpada;
Mas este estofo de veludo violáceo sob a luz da lâmpada
Ela nunca mais tocará. Ah, nunca mais!

Então, pensei, o ar ficou mais denso, perfumado por um turíbulo invisível
Balançado por um Serafim, cujo pé tropeçou no assoalho acarpetado.
– Céus! – gritei, teu Deus te mandou – por estes anjos ele te enviou
Alívio – alívio e nepente de tua lembrança de Lenore!
Bebe, ó bebe este sutil nepente, e esquece a perdida Lenore!
Retrucou o corvo: – Nunca mais.

– Profeta! – exclamei – Coisa do demo! Ainda assim profeta, senão pássaro do demo!
Se enviado pelo Tentador, ou se a tempestade te arremessou à praia,
Desolado, embora destemido, sobre esta terra deserta e encantada.
Neste lar assombrada pelo Horror – sê verdadeiro, eu te imploro:
Há – haverá bálsamo na Esperança? Dize-me, dize-me, eu te imploro!
Retrucou o Corvo: – Nunca mais.

– Profeta! – exclamei – Coisa do demo! Ainda assim profeta, senão pássaro do demo!
Pelo Céu que se curva acima de nós, pelo Deus que ambos adoramos,
Dize a esta alma moída pela tristeza, se, no distante Éden,
Haverá uma santa dama que os anjos chamam de Lenore:
Há uma rara e radiosa dama que os anjos chamem de Lenore;
Retrucou o Corvo: – Nunca mais.

– Que esta palavra o sinal de despedida, pássaro ou demo! – urrei, erguendo-me.
– Retorna à tempestade e à praia da Noite de Plutão!
Não deixes tua pluma negra como lembrança da mentira que tua alma proferiu!
Deixa intocada a minha solidão! Deixa o busto em cima da minha porta!
Retira teu bico do meu coração, e afasta-te da minha porta!
Retrucou o Corvo: – Nunca mais.

E o Corvo, sem se mover, ainda está pousado, está pousado
Sobre o pálido busto de Atena em cima da porta do meu quarto;
E seus olhos, como se revelassem os sonhos de um demônio,
E a luz da lâmpada lança a sua sombra ao chão;
E minha alma sob a sombra que jaz no chão
Não se erguerá – nunca mais!

Originalmente no blog O corvo de Edgar Allan Poe e no livro O Corvo, Thereza Christina Rocque da Motta, 2013

 


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