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O Corvo - Tradução: Bruno Palavro (2017 - Brasil)



Era noite alta e sombria, fraco e farto eu refletia
Sobre muitos e curiosos esquecidos manuais.
Cabeceando, adormecido, escuto um súbito ruído
Como algum gentil batido, um batido em meus umbrais.
“É visita”, murmurei, “que está batendo em meus umbrais:
É só isso e nada mais”.

Ah, distintamente lembro, foi no gélido dezembro,
Cada flama já morrendo criava sombras fantasmais.
Desejava o amanhecer – tentara em vão nos livros ter
Um amparo e não sofrer, sofrer com a perda de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais –
Nome aqui já não tem mais.

E o sedoso, triste, incerto rubro véu soando perto
Me abalava com fantásticos terrores sem iguais;
Já meu peito reprimindo fui tão logo repetindo:
“É visita me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
Vem tardia, me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
É só isso e nada mais”.

Forte a alma num instante, e eu então não hesitante,
“Senhor”, disse, “ou madame, penso se me perdoais;
Estava quase adormecido e tão gentil foi o ruído,
Foi tão débil o batido que batia em meus umbrais,
Que mal pude vos ouvir…” – então abri os meus umbrais –
Só o escuro e nada mais.

Fundo as trevas espreitando, lá fiquei desconfiando,
Dúbio em sonhos que mortal nenhum ousou sonhar jamais;
O silêncio era infinito – no sossego incompreendido
Só um vocábulo foi dito, um sussurro assim: “Lenais?”
Isso eu disse, e algum eco murmurou assim: “Lenais!” –
Isso apenas, nada mais.

Ao meu quarto regressando, toda a alma em mim queimando,
Novamente eu ouço tapas ressoarem inda mais.
“Certo”, eu disse, “essa mazela é qualquer coisa na janela;
Resta ver o que tem nela, no mistério dos sinais –
Que meu coração se aquiete, que eu explore estes sinais –
É só o vento e nada mais!”

Tendo aberto já a vidraça, turbulento me esvoaça
E entra ali um nobre corvo de eras santas e ancestrais;
Cumprimentos não prestou, nem um minuto ali ficou:
Com ar de lorde ou lady voou até pousar nos meus umbrais –
Sobre um busto, no de Palas, logo acima dos umbrais –
Lá pousou e nada mais.

A ave de ébano deteve meu pesar num riso leve
Com o decoro grave e austero de seus ares tão formais.
“Sem penacho volumoso, mesmo assim não és medroso,
Corvo ancião e pavoroso vindo lá do escuro cais –
Diz qual é teu nome lá nas trevas do plutôneo cais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

Admirei que a ave rara discursasse assim tão clara,
Salvo a pouca relevância das palavras, bem banais;
Mas que seja mencionado: não há humano agraciado
Que antes tenha contemplado alguma ave em seus umbrais –
Ave ou besta no esculpido busto sobre seus umbrais –
Com tal nome, Nuncamais.

Mas o corvo, solitário, não variou o vocabulário,
Como se sua própria alma derramasse em termos tais.
Nada mais ele falou, nem uma pena farfalhou;
Mas minha alma murmurou: “Perdi amigos tempo atrás –
De manhã me deixará como a esperança um tempo atrás”.
E a ave disse: “Nunca mais”.

Pasmo com a mudez quebrada na resposta assim falada,
“Certo”, eu disse, “o que profere são só falas usuais
Que pegou de um mestre aflito, por desastre desmedido
E imparável perseguido até um refrão marcado em ais –
‘Té canções sem esperança, melancólicas com ais
De ‘nunca – nunca mais’”.

A ave ainda assim deteve meu pesar num riso leve:
Ajustei minha poltrona frente ao corvo, busto e umbrais.
No veludo então sentando me peguei associando
Devaneios e pensando na ave de eras ancestrais –
No motivo da ominosa, horrenda ave de ancestrais
Crocitar seu “Nunca mais”.

Isso eu quis adivinhar, sem uma sílaba expressar
À ave de olhos que queimavam meus alentos mais fulcrais;
Estive assim ensimesmado com o crânio reclinado
No recosto aveludado sob a luz dos castiçais,
No veludo violeta sob a luz dos castiçais –
Leito dela ah, nunca mais!

O ar então ficou mais denso, num perfume como incenso
Solto pelos serafins com suas passadas musicais.
“Infeliz,” gritei, “Deus deu-te – pelos anjos concedeu-te
Trégua – trégua e o nepente pras memórias de Lenais;
Bebe, bebe o bom nepente e esquece a perda de Lenais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo! –
Pelo Tentador trazido ou pelos rudes temporais;
Desolado mas ousado neste deserto encantado –
Lar de horrores, assombrado – imploro: franco, fala mais –
Há bálsamo em Gileade? – diz, imploro, fala mais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo!
Pelo Deus que nós louvamos – pelos arcos celestiais –
Assegura essa alma insossa caso lá no Éden possa
Abraçar a santa moça que anjos chamam de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais”.
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Tal resposta nos desuna, ave ou diabo!”, grito, em suma –
“Vai de volta à tempestade e às trevas do plutôneo cais!
Que nenhuma pluma ateste tais mentiras que disseste!
Vai, que a solidão me reste! – sai do busto nos umbrais!
Tira o bico da minha alma e tua figura dos umbrais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

E esse corvo está parado, lá sentado, lá sentado,
No alvo busto, no de Palas, logo sobre meus umbrais;
Com seus olhos figurando os de um demônio assim sonhando
Sob a luz que, tremulando, lança sombras sepulcrais;
E minha alma dessas sombras que flutuam sepulcrais
Há de erguer-se – nunca mais!

 


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