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O Corvo - Tradução: Marta Fagundes (2018 - Brasil)



Em uma meia-noite sombria, enquanto fraco e can-
sado eu lia,
Sobre pitorescos e curiosos volumes de esquecida
sabedoria,
Exausto, minha cabeça pendia, e senti meu corpo
adormecer,
Quando, de repente, um som se fez ouvir ao bater:
"Um visitante", murmurei, "bate aqui em meus portais.
Somente isso e nada mais."


Ah, distintamente recordei-me!
Era um dezembro gelado...
E a cada brasa enegrecida, forjada em sombras fantas-
mas pelo chão,
Ansioso, pelo amanhã, eu desejava,
Ainda que minha busca fosse em vão.
De meus livros o luto eu retirava, pela perda de
Leonora, minha amada,
Tal donzela radiante e rara, a quem agora um anjo,
abrigava.
Porém aqui, Leonora já não se achava.


E o súbito e triste sussurro incerto, de cada roxo acor-
tinado tecido,
De terror emocionado me via preenchido, com senti-
mentos que nunca mais houvera sentido.
Disposto a manter meu coração em ritmo normal, a
mim mesmo repetia o recital:
"Este visitante que insiste em adentrar em meus por-
tais, bate, bate, visitante tardio,
Mas é somente isto e nada mais"


Logo, minha alma se fortaleceu, e já nem pude hesitar.
"Senhor", disse eu, "ou senhora, por favor, verdadeira-
mente queira me desculpar,
Mas, de fato, enquanto ao sono me entregava, tão gen-
tilmente tu se achegava,
Tão suave batendo em meus portais,
Sequer certeza tinha de ter-lhe ouvido ou algo mais,
Pus-me então à porta abrir:
Oh, escuridão!
Somente isto e nada mais."


Profundamente na escuridão espreitei,
E enquanto ali estive, temi e imaginei.
Duvidando e sonhando, sonhos estes que mortal al-
gum ousou sonhar jamais.
Mas o silêncio não se quebrou e nem a quietude deu
quaisquer sinais,
Apenas sussurrei um nome: Leonora...
Seu nome ecoando em sussurros desiguais.
Apenas isto e nada mais.


De volta ao quarto deixei a alma em mim arder,
Não demorou que ouvisse mais alto o som de algo a
bater,
"Certamente", disse eu, "Há algo na grade da janela,
Olhemos, pois, para descobrir o que há com ela.
Deixe que meu coração se distraia, com esse mistério
a mais,
É o vento e nada mais".


Abri então as persianas, quando com agitação e graça,
Adentrou um majestoso corvo, de virtuosos tempos
de outrora,
Nem ao menos cumprimento fez, ou por um minuto
parou sequer.
Mas com tal porte elegante postou-se, logo acima dos
meus portais,
Corno se assim fosse o dono do busto de Atena, e nada
mais.


E assim o pássaro de ébano desenhou um sorriso em
meu rosto triste,
Pelo decoro solene e severo de semblante em riste.
"Embora tenhas a crista curta e aparada", disse eu,
"certamente de covarde não tens nada.
Então, diga, velho corvo mal-humorado, que da noite
escura e sombria vaga,
Que nome levas, por estas bandas ou trevas?"
Disse o Corvo: "Nunca Mais".


Muito me maravilhei com tal ave despreocupada, para
atentar-me ao seu discurso com clareza.
Embora ainda assim soubesse que o pouco significa-
do que tinha, muita relevância havia certeza.
E havemos de concordar que nenhum outro ser hu-
mano vivo há,
Tendo sido agraciado com a presença de tal ave em
um busto sobre seus portais,
Pássaro ou animal, pousado em busto nos portais,
cujo nome seja esse: "Nunca Mais".


Mas o Corvo, tão somente ali sentado, sozinho e plá-
cido,
Uma palavra apenas falou, como se fora de sua alma
que a derramou.
Nada além disso proferiu, nem ao menos uma pena
de sua asa sacudiu.
Até que, resoluto, murmurei:
"Outros amigos voaram antes e não voltaram jamais.
Amanhã ele me deixará e como minhas esperanças,
sumirá".
Então o Corvo respondeu: "Nunca Mais".


Assustado pela quietude repentinamente quebrada
por palavra tão bem pronunciada,
"Sem dúvida", disse eu, "o que diz é apenas o eco do
que aprendeu,
Talvez de antigo dono infeliz que tal desastre impie-
doso cometeu,
Com a rapidez das cantigas que logo se tornam um
fardo de melancolia,
Às esperanças esvaídas por mais,
Assim o era, Nunca Mais".

Mas, fazendo o Corvo ainda minha alma sorrir,
Tratei de diante dele sentar-me para de sua presença
usufruir.
E, acomodado em veludo estofado, pus-me a pensar,
O que será que agourenta ave poderia de mim esperar.
Tal ave sombria, desajeitada, sinistra, lúgubre e agou-
renta de tempos ancestrais,
O que poderia querer dizer com aquele: Nunca Mais.


Então sentei-me engajado a desvendar, sem palavra
alguma a dizer,
Àquela ave cujos olhos flamejantes fixos em meu pei-
to, fizeram arder.
Isto e mais, me deixando a predizer, com a cabeça
cansada a reclinar,
No veludo da almofada cuja luz da lâmpada pôs-se a
iluminar.
Sombras violetas projetadas me fizeram devanear,
Impressionado cada vez mais,
Ah, Nunca Mais!


O ar então se fez mais denso, perfumado nas brumas
invisíveis de um incenso.
Agitado por anjos, cujos pés tocavam o adornado pa-
vimento.
"Miserável", gritei, "teu Deus tomou-a emprestado aos
anjos".
Descanso e esquecimento das memórias de Leonora.
Bebo em grandes tragos, oh, a dor do esquecimento
de outrora,
Disse o Corvo: "Nunca Mais".


"Profeta", disse eu, "seja lá o que for. Seja ave ou demô-
nio em todo o seu esplendor.
Se o diabo o enviou, ou tempestade aqui na terra o
lançou,
Desolado ainda estaria, nesta maldita terra de encantos,
Nessa casa assombrada de medos, diga-me, peço-te
aos prantos:
Há um bálsamo de Gileade? Para urna alma que im-
plora por mais?"
Disse o Corvo: "Nunca Mais"


"Profeta", disse eu, "seja lá o que for. Seja ave ou demô-
nio em todo o seu esplendor.
Pelo Céu acima de nós, pelo Deus adorado que nos
abriga,
Diga a esta alma ferida, se em distante Éden de outra
vida,
Haverá virtuosa donzela a quem chamam os anjos de
Leonora,
Donzela radiante e rara, cujo nome ainda vigora".
Disse o Corvo: "Nunca Mais"


"Seja esse o grito que nos separe, demônio ou ave!",
gritei ao me afastar.
"Volta à tempestade e noite escura que lhe vai tragar.
Não me deixe urna só pluma para suas mentiras atestar.
Arranca o bico do meu coração e afasta-te dos meus
portais!"
Disse o Corvo: "Nunca Mais"


E o Corvo, sem se abalar, sentado permanece, sentado
está.
No pálido busto de Atena, acima dos meus portais,
Lança-me um olhar sonhador demoníaco que imagi-
nei jamais.
E a luz que acima dele está, projeta sombras pelo chão,
E minha alma, dessa sombra no chão projetada,
Deverá ser libertada...


Nunca Mais.

"O CORVO E OUTROS CONTOS" p. 17-23. "OBRAS DE EDGAR ALLAN POE", box em 3 volumes, Ed. Pandorga. (© 2018, by Editora Pandorga)

 


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