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O Corvo - Tradução: Reynaldo Jardim e Marilú Silveira (1987 - Brasil)



É meia noite.
Tenebrosa meia-noite.
Em funda melancolia eu penso
sobre um fascinante livro de ciências ocultas.
Minha cabeça exausta cambaleia.
Subitamente,
um ruído.
É assim como se alguém
de leve
tocasse levemente em minha porta.
- É algum chato
que bate levemente à minha porta.
Apenas isso, nada mais.

Está gelado este dezembro.
Cada brasa morrendo na lareira
joga sombras fantásticas no chão.
Meu Deus, por que não amanhece logo!
Não há livro capaz de abafar essa louca aflição.
Ah, Leonor, Leonor.
Ah, perdida Leonor.
Pura, radiante a virgem a rara que os anjos nos céus
chamam Leonor.
E aqui para sempre já não pode mais ser chamada.

As cortinas farfalham. Roxas. E me assusto.
Encho-me de um pânico como nunca senti antes.
"É algum forasteiro perdido."
"É algum visitante tardio."
"É alguém querendo entrar."
Só pode ser alguém querendo entrar.
É só isso, nada mais.

É melhor abrir. Direi: "Senhor, ou madame,
sinceramente eu peço desculpas. Mas de fato
eu estava quase dormindo.
E tão leve bateste que fiquei indeciso
e me demorei a abrir."
Escancaro a porta.
Ninguém.
A escuridão. E nada mais.

Leonor, Leonor, Leonor
(apenas o eco responde)
dor, dor, dor.

Ah, pode ser alguma coisa no trinco da janela.
Deixe-me ver o que é lá. E descobrir logo esse mistério.
Sossega coração, a descobre esse louco mistério.
Ah, é o vento. Deve ser só o vento a nada mais.

Escancaro a janela.
Com um forte ruflar de asas entra
um soberbo Corvo.
Não um mero urubu. Um Corvo magnífico
desses que não se fabricam mais.
Não faz a menor reverência. Entra a pousa sobre
um busto de Palas que fica justarmente em cima da minha porta.
Está ali parado. Quieto. Quieto e nada mais.

Fico olhando a até acho engraçado esse
pássaro preto cheio de pose ali pousado.
Ei Corvo, apesar dessa tua crista tosquiada tens um
jeito audacioso. Ei, horrível e disforme e velho Corvo,
diz lá qual é o teu fidalgo nome?
Sabem o que o Corvo responde? - Never môr
- que significa nunca mais.
Duvido que alguém já tenha tido uma visão igual.
Um pássaro negro pousado sobre a porta da sala
dizendo que se chama never môr.

Tive muitos amigos.
Todos já bateram asas.
Esse aí também ao amanhecer me deixará em paz.
E o Corvo quebra o silêncio pesado com uma
resposta precisa: - Never môr.

Ah, esse desgraçado, certamente, aprendeu com
seu dono infeliz a quem desastre após desastre,
tanto encheu de desenganos e desesperanças
que a única coisa que dizia - em mau inglês -
era, never, never, never môr.
Tanto ouviu o Corvo essa expressão que aprendeu
unicamente a falar never, never, never môr.

Mas esse Corvo, no fundo, é engraçado.
Puxo uma poltrona a me acomodo olhando sua cara.
Sinto uma funda dor queimando dentro do peito. É esse Corvo
cravando seu olhar de fogo no meu peito.
De repente, o ar parece pesado. Um anjo invisível
parece perfumar de um estranho incenso toda a sala.

Certamente, um Deus clemente teve piedade de mim e tenta
me fazer esquecer de Leonor. Sossega, coração. Bebe.
Bebe para esquecer a perdida Leonor. Esquecer Leonor?
- Never môr.
Profeta, coisa do mal, profeta, pássaro ou demônio
que a tentação enviou ou que a tempestade fez desembarvar
aqui, nesta casa invadida pelo horror. Diga, Corvo, de
verdade, eu imploro, existe, em qualquer lugar do mundo,
algum bálsamo, alguma coisa que possa cortar a minha dor,
acabar com a saudade de Leonor?
E o Corvo: - Never môr.

Profeta, coisa do mal, profeta, pássaro ou demônio,
por esse céu que se curva sobre nós, por Deus que nós
dois adoramos, diga a esta alma aflita, carregada de amargura, se
no além tornarei a ver, esse anjo, essa flor, a quem agora só os
anjos chamam Leonor.
E o Corvo disse: Oh, never môr.

Oh, seu urubu filho da puta. Chega desse chato never môr.
Volta para a tempestade, volta para a noite fúnebre, some,
voa. Não quero nem sinal de tua nefanda presença. Nem uma pena.
Nem uma negra pena negra. Deixa minha solidão intacta. Sai da
minha porta. Vai-te para os quintos. Tira essa garra do meu
coração. Chô, urubu chato.

E o corvo, na maior:
Ah, never môr.

E o desgraçado não se mexe. Eica ali parado, quieto, com seus
olhos de demônio. Parado. Estático. Duro. Imóvel.
E minha alma presa para sempre. A luz do teto espalha no chão
sombras fantasmais, funerais, sinistrais. Ah, Leonor, de você não
me libertarei jamais com esse Corvo a repetir seu devastador
never, never, never môr.

In Jornal Nicolau, ano I nº 4 outubro de 1987, págs. 12 e 13.

 


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