UM CONTO SEM CRIME NEM CASTIGO
Barata Cichetto
O lugar era enorme, com cerca de umas duzentas cadeiras, daquelas antigas de cinema de bairro, de madeira, todas tomadas por pessoas que tinham livros nas mãos. Era o mesmo título, um volume de poemas.
Eu, sentado em um banco alto, de madeira, tinha ao lado um rapaz jovem que acompanha e ponteava as leituras com um contrabaixo, o mais maravilhoso dos sons. Seu instrumento tinha apenas duas cordas, as mais graves, no estilo Mark Sandman, do Morphine.
E eu lia cada poema como se fosse o único e o ultimo. Gritava, gesticulava, enchia os pulmões e às vezes escarrava e cuspia. Uma mesinha ao lado tinha Jack Daniels e dois copos. O rapaz do contrabaixo, sempre de cabeça baixa, se concentrava nas palavras que eu cuspia e berrava, e as emoldurava com as mais belas notas.
Ao final de cada leitura, a plateia toda aplaudia. Eu agradecia e abria outra página do livro. Outro poema. Outro urro. Outro grito.
Era uma festa, sem bolos nem felizes aniversários, mas as pessoas me eram simpáticas e me ouviam. Algumas, no entanto, incomodadas com o teor vagabundo e sacana do meu livro se levantavam e saiam. Outros xingavam e jogavam o livro na minha cara. E eu rosnava. Furioso. Aquilo era a poesia que eu queria.
De repente, as pessoas se dirigiram ao pequeno palco e começaram a me bater com os livros. Eu sangrava. E rosnava. E xingava. E, sobretudo, sangrava. Mas não parava de ler, de gritar, de urrar. Eram poemas duros, eu sei. Eram poemas ferozes, eu si. Eram poemas pornográficos, eu sei. Eram poemas putos, impuros, conservadores, drásticos, eram poemas com todas as cores e eram ao mesmo tempo transparentes.
Havia palavrões, havia paixão, havia tesão naqueles poemas. Mas quanto eu lia, mais apanhava, era surrado e espancado por todas aquelas pessoas. Estava no chão, estirado, com a boca cheia de sangue, mas ainda soltava meu grunhido, como o de um lobo ferido. Olhei ao lado, e o contrabaixista se levantou e se foi. Fiquei sozinho.
Apanhei durante muito tempo, e quando consegui me erguer estava sozinho. Sangrando, com uma pilha de livros ensanguentados ao meu lado. Escutei um burburinho que vinha do lado de fora, depois vi dois policiais entrando no local. Colocaram-me algemas e me enfiaram numa viatura.
Passei anos numa cela, sendo espancado por presos violentos, traficantes e assassinos. Mas nada daquilo foi em vão. Dentro da cela, passava o tempo escrevendo outros poemas e planejando minha vingança.
Quando sai, escrevi outro livro e fui ao mesmo lugar, mas não havia mais ninguém ali, nem para me aplaudir, nem para me espancar. Eu estava sozinho. E mesmo assim li meus poemas como se tivesse uma imensa plateia a me ovacionar. E havia, de fato: uma plateia de invisíveis, de mortos, que do lado de fora se espancava, dando gritos de liberdade a um político.
23/4/2018