CHUVA DE MERDA SOBRE SÃO PAULO
Barata Cichetto
Era um amanhecer como outro qualquer de Outono, em São Paulo. Manhã fria e nublada. Mas ao contrário do que era normal, o dia não era cinza cor de chumbo, com aquelas nuvens quase negras. A cor do dia era marrom. Marrom escuro.

Em principio pouca gente percebeu, mas aos poucos todos foram estranhando aquela coloração no ar. Demorou um pouco, e quase todos perceberam que tinha algo errado na cidade, pois não era apenas a cor, mas o odor era diferente. Ao contrário do cheiro de fumaça proveniente dos escapamentos dos carros, que antes era de chaminés de fábricas que já não existem na cidade, era cheiro de merda.

Primeiro foram as esposas que reclamaram com os maridos, dizendo que eles eram mesmo porcos por peidarem tão fedido dentro de casa, sob as juras sacras de que não tinham sido seus rabos os emissores do tal fedor. Logo se pensou em vazamento de gás, nalguma usina de processamento de lixo, vazamentos monstruosos em tubulações de esgoto, mas quando o cheiro e a cor de merda foram percebidos, através da cobertura do helicóptero do jornal da manhã, estar por toda a cidade, a população começou a se preocupar.

O prefeito foi entrevistado ainda em casa, de pijama marrom de listas azuis, e disse que estaria indo ao seu gabinete, se reunir com seus assessores e que em breve daria explicações. E a manhã inteira foi repleta de opiniões de especialistas em tudo quanto é merda: da química à astrologia, da física à biologia, da meteorologia à política internacional. Foram aventadas inúmeras possibilidades àquela situação catastrófica: uma delas é que o partido político da oposição estaria sabotando o prefeito atual, que aquilo era coisa do presidente golpista, que era culpa do presidente americano, do estado islâmico, dos judeus, dos palestinos, dos fascistas alemães e mais uma porção de teses, até de que a cidade estava sendo invadida por alienígenas.

Até o horário do almoço, com o fedor de merda aumentando mais e mais, o furor tomou conta do Facebook e do Twitter. Os defensores da esquerda explodiam verborragias e ofensas, afirmando que aqui era parte da tentativa de golpe militar, os da direita culpavam os comunistas. Alguns culpavam a NASA, e os crentes diziam que era a vinda de Jesus, que o fim estava próximo, o que fazia com que as lojas evangélicas se abarrotassem de fiéis que tentavam aumentar a cota do dizimo para garantir a passagem.

No meio da tarde, os camelôs já faziam muito dinheiro vendendo máscaras de gás com emblemas de times de futebol, nas portas de estações de metrô e pontos de ônibus. Na Praça da Sé, pregadores batiam nas bíblias e diziam que aquilo era coisa do Demônio, que não era de merda o cheiro, mas de enxofre do Inferno. A Avenida Paulista se encheu de bandeiras brasileiras e o Largo da Batata de bandeiras com a foice e martelo. Ensaiaram passeatas, todos com máscaras de gás de suas cores preferidas e faixas com palavras de ordem. Mas nada disso parecia adiantar, aliás, o cheiro de merda era cada hora mais forte.

Policiais corriam de um lado para o outro tentando conter a multidão enfurecida, e bandidos se aproveitavam para roubar, assaltar e matar. Não havia lugar seguro daquele cheiro. As pessoas se trancavam em casa, colocavam panos molhadas sob as portas e frestas de janelas, mas de nada adiantava. O cheiro de merda só aumentava.

No inicio da noite, o que parecia ser uma merda, em todos os sentidos, piorou. Repentinamente, trovões e relâmpagos anunciaram uma tempestade. De imediato, especialistas disseram que aquilo era um bom sinal, já que a chuva e os ventos levariam aquele cheiro de merda para longe, para outros lugares. O prefeito suspirou, já que o importante é que aquilo parasse de ser motivo para o chamarem de merda. Que esse titulo ficasse com o prefeito de outra cidade.

Quando a chuva se precipitou sobre a cidade não era água, mas merda liquida, tipo aquelas de diarreia, que caía sobre os telhados, escorria pelas calhas e entupia os condutores, fazendo com que todos as casas e prédios rapidamente ficassem cobertos com uma espessa camada de bosta. A merda corria pelas sarjetas, entupia os esgotos e iam direto aos córregos, que logo transbordaram interrompendo o transito nas marginais. Carros cobertos de merda foram enguiçando pelas ruas, por onde corriam pessoas desesperadas cobertas de merda da cabeça aos pés.

Um repórter de televisão, usando uma capa de chuva coberta de merda, entrevistou o prefeito, com seu terno coberto de bosta, enquanto assessores, completamente encharcados de merda liquida tentavam limpá-lo, sem sucesso. O apresentador do telejornal entrou no ar com funcionários da emissora tentando limpar seu rosto.

Por volta das oito da noite, o Presidente da República, junto com o Ministro da Saúde pediu calma à população, seguido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal que afirmava que a lei nesse caso seria cumprida conforma reza a Constituição Federal, mas que todos os procedimentos legais deveriam ser julgados em estâncias. Todos pediam no final, que a população ficasse calma e que não saíssem às ruas para protestar, já que a merda pararia de cair do céu a qualquer momento.

O temporal de merda durou a noite inteira. Quase toda a cidade de São Paulo estava coberta de merda. Segundo relatos, haviam bairros com mais de cinco metros de camada de merda nas ruas. A sede da Prefeitura teve que ser evacuada, já que foi completamente coberta pela merda, o mesmo acontecendo com o Palácio dos Bandeirantes, onde o Governador e sua família tiveram que ser alojados num estádio de futebol nas proximidades.

Nas periferias, barracos eram soterrados por avalanches de merda, bêbados dentro de botecos aumentavam sua dose de cachaça para tentar afastar o cheiro, e as ruas ficavam cheias de barricadas erguidas com bosta. Lideres comunitários esbravejavam contra o descaso da prefeitura e comerciantes fechavam as portas, alguns por não terem mais mascaras e capas para vender, outros por terem tido sido seus estabelecimentos invadidos por enxurradas de merda.

Ainda na Internet, pessoas diziam que somente os militares poderiam resolver aquilo, outros que aquilo era culpa dos capitalistas. Outros ainda, mais exaltados, afirmavam que tudo era culpa da Nova Ordem Mundial, que decerto o Papa Francisco estava por trás daquilo. Políticos davam discursos, prometiam que se fossem eleitos na próxima eleição aquela chuva de merda nunca mais aconteceria. E outros diziam que não tinham nada com aquilo, que sentiam cheiro de merda algum, e que era tudo mentira, e que nem chovendo estava.

O dia chegou. O sol raiou. Ninguém percebia nenhum sinal de merda nas ruas, nenhum cheiro de merda, nenhum resquício sequer. Todos se levantaram, tomaram banho e um café com leite e pão com manteiga e foram trabalhar.

Eles não sabiam, mas a chuva de merda sobre São Paulo ainda continuava a cair.
3/4/2018