CARTA A ARTURO BANDINI
Barata Cichetto
P
"Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade". Miguel Torga

Hoje consigo falar de dor sem sentir a dor; falar sobre o sentido do amor perdido, sem perder o sentido do amor. Hoje consigo falar de morte sem estar morto. Falar sobre desejo sem ser o de morrer. Ninguém destrói um sonho e eu sou um. Sou meu próprio sonho e sonhar é bom. Tentaram matar meu sonho, tentar aniquilar meu desejo, mas, sabiam, que uma barata pode durar dias sem a cabeça?

Queria saber onde andam aqueles que tentaram matar minha paixão, que transformaram minha existência em medo e angústia, em terror do dia seguinte, em pânico da noite. Transformaram meu sonho em pesadelo, meu sono em insônia. Onde andam? Não estou morto e nem quero morrer. Café com bolinhos, cerveja sem gelo, um par de amigos e de chinelos, o teto sobre minha cabeça e um jeito de detonar minha mente em pensamentos e poemas. Que é preciso ainda?


Prezado Arturo Bandini:

Meu caro amigo, temos muito em comum, a sua Camilla Lopez, a minha... Que lhe importa, jamais irás conhecer a minha. Desculpa meu amigo, mas fiquei com muito tesão por Camilla Lopez. Queria uma Camilla em minha vida. O quer diria Fante sobre isso? Pergunte ao Fante, Pergunte ao Pó. Ontem comprei algumas coisas em uma loja de departamentos, mas parece que também não caíram bem. Então lembrei de você e decidi lhe mandar uma carta, mas não igual àquelas que mandavas a J.C. Hackmuth. Uma página é suficiente.

Sabe, Arturo, meu velho, seria muito interessante a gente tomar um café no Columbia Buffet. Camilla nos serviria um daqueles cafés horrorosos. Desculpa, de novo, mas fiquei apaixonado por Camilla Lopez. Também tenho fixação por garçonetes, caixas, escriturarias e essa classe de mulheres que se contentam com pequenos empregos ou apenas em ficar a tarde inteira na frente da TV.

Vou lhe contar uma coisa, Bandini, outro dia fui num Bar de Rock, e em meio a tantas mulheres bonitas, cheirosas, bem-vestidas, fiquei interessado sabe em quem? Na garçonete japonesa-mestiça. Ficava observando seus passinhos apressados pelo salão, o jeito com que segurava a bandeja, seu avental amarrado na cintura, seus pequenos pezinhos orientais, o rabo-de-cavalo. E olha que só fui saber da sua paixão por Camilla um dia depois. Fiquei extasiado quando ela, na escusa de pedir passagem, tocou em minha cintura. Claro que era só uma desculpa que ela arrumou para tocar em mim, afinal ali, em sua frente, estava ninguém mais, ninguém menos que o criador do Maior Portal de Rock, Cultura e Idéias do Brasil, o melhor um poeta do mundo e escritor idem. O único detalhe é que, a "minha" Camilla Lopez, que, aliás, nem pode ser Lopez, talvez seja Camilla Oshino ou qualquer outro sobrenome japonês, nem sabia disso, aliás, pra ser sincero, Arturo, ninguém, a não ser meu amigo que me levara até ali, sabiam disso... Na saída, ela parada perto da porta com a bandeja vazia pendurada sobre as coxas e lhe fiz um aceno e uma reverência num pseudo-estilo oriental, demonstrando assim minha paixão imediata por ela.

Estou ainda pouco além da metade de sua autobiografia e fico tentando imaginar o desfecho dela. Diga-me uma coisa, meu amigo, você vai ou não fazer amor com a Camilla? Amanhã talvez eu saiba. Que ansiedade! Bem, Arturo Bandini, estou me despedindo agora. Espero que respondas tão rápido a esta minha carta do mesmo jeito rápido de J.C. Hackmuth. Se quiseres também indicar a ele meus contos e poesias, quem sabe eu também receba um gordo cheque de 175 dólares.

Um grande abraço de seu admirador, Luiz Carlos Cichetto.
2/2/2006