COMO UM DANADO CÃO DE RUA
Barata Cichetto
P
Ontem á noite quebrou outro dente meu. Acho que é o 15º. em um ano. Sobrou pouco agora. Falta pouco agora. Que bom, agora não posso mais morder ninguém. Quem tem medo de um cão desdentado? Sarnento, sim, mas desdentado não. Cão danado, sou um cão danado, e quem pensa que irá chutar cachorro morto, enganado está! Não chuta que eu grito e não grita que eu chuto. Não grita senão eu mordo, não morde que eu assopro. Au au au... : "Numa noite sombria / Sorria e gritava pelos becos escuros / Uma garrafa de Whisky / Me compensava a solidão / De não estar na hora certa com a pessoa certa / Mas não tem problema não / Como um cão de rua que procura e procura / O que comer / Vou atrás do que posso encontrar / Mas a cadela que me deu um não / Irá se arrepender, Irá se arrepender / Não adianta chorar, não adianta gritar".Essa letra e música é do Heavy, do Tublues, meu parceiro em "Sangue de Barata".

É, estou indo atrás do que posso comer. Existem muitas cadelas no cio abanando seus rabos pelas calçadas... É, as calçadas têm muitas cadelas e eu desejo todas mas nem todas desejam a mim, pois eu sou osso duro de roer. Duro e velho. O que temos para o jantar? Cadela no cio! Por quem abana seu rabo gostoso, minha cadelinha? Seu cio é eterno e é igual a minha paixão. Ontem acabou meu primeiro pesadelo e o segundo ainda não, meus sonhos ainda são daquela cadelinha. Não sei se sinto porque quero ou se quero porque sinto. Mas sinto que em alguma esquina do futuro aquela cadelinha estará esperando que eu a cubra... de beijos.

Estou muito cansado hoje. Tem dias que são piores que outros e outros que são piores ainda. Dias piores virão. A ressaca é foda e a rebordosa pior. Reclamar é chato mas ficar de boca calada engolindo tudo a seco é de foder. Por isso que eu bebo e reclamo. E vomito. Ninguém vai acabar comigo porque sou fraco. E covarde. Deixa eu acender um cigarro e estourar meus pulmões um pouco mais. Ai eu tusso e vomito até as tripas. Mas o cigarro é minha companhia noturna e diurna. Que prazer me dá soltar aquelas baforadas e ficar olhando a fumaça desaparecer no ar. Fico ali imaginando formas na fumaça. Algumas até são femininas, corpinho gostoso que desaparece no ar. Esfumaça. Me dá um cigarro? Fuma comigo, vai! Por favor!

Bem, hoje é sábado e fim de semana é sempre assim: a saudade aperta e a dor espeta. E eu não tenho sequer uma cadela de rua que abane o rabo para mim e que eu possa acariciar a cabeça. Tenho uns dois amigos que escutam minhas queixas e lamúrias e principalmente escutam minha falta de fé nas mulheres. Acredito nas cadelas e nos cachorros mas também não tenho a companhia de nenhum. Nem a Pat nem o Milo, meu Deus! "Au, au, au, eu não sou cachorro não!".

Tenho que recomeçar a andar, aliás tenho que aprender novamente a andar... sozinho. Mas minhas pernas estão velhas demais para recomeçar a andar... e também, andar para onde? Na direção de quem? Quando aprendemos a andar sempre tem alguém de braços abertos esperando e incentivando: "Vem!" E no meu caso, quem me espera de braços (e pernas, principalmente) abertos dizendo "Vem?" Ninguém. Então, pra que reaprender a andar? Acho que vou ficar aqui sentado com a boca escancarada, faltando um monte de dentes, esperando a morte chegar. Né, Raul?

Por enquanto ainda é dor o que era paixão, saudade de uma coisa ruim, mas saudade é saudade e dor é dor. Paixão é paixão. E amor ninguém explica. Tem um milhão de motivos para sentir ódio e para que sintam também de mim, mas como o ódio é parceiro do amor e eu não quero mais nenhuma emoção barata rondando minha vida, não a odeio. Mortos não dançam, minha querida.
31/1/2006