AINDA A VONTADE DE MORRER
Barata Cichetto
Ontem tive vontade de morrer, outra vez. Vontade de morrer outra vez, este mês. É o que me move na vida, essa vontade de morrer, de correr aos braços da morte sempre que me sinto em perigo. Insano isso? Fuga impossível, acredito. Lendo "Tabacaria" de Pessoa e pensando o quanto é uma merda tudo isso. Lembro de tudo o que escrevi, quilos e quilos de papel, mais uma milhar de poemas, a grande parte enormes tratados sobre a mente humana, sobre mim mesmo. Mas o que importa toda essa papelada, quando dentro em pouco estarei mesmo morto. Talvez minha poesia sobreviva um pouco. Um geração quem sabe. Lembrarão dela, mas não de mim, até não lembrarem mais de nenhum dos dois. O papel, aqueles quilos, irão amarelar, apodrecer. Os bites e bytes dos computadores onde foram escritos serão corrompidos. Ah, os vírus de computador, os vírus humanos, os germes. E não sobrará mais computadores e nem minhas lembranças neles registrados. Pensamentos agora não duram mais que um dia.. Menos.. Quinze minutos de fama, como disse Warhol, é o que dura qualquer filosofia mais alta ou rasteira. Ah, que lástima! Ontem tive vontade de morrer... Outra vez... Mas acho que vou aproveitar o sol de hoje e viver um pouco.
21/6/2015