À SOMBRA DE OBJETOS INEXISTENTES (ANTES DO COMEÇO E DEPOIS DO FIM)
Barata Cichetto

"Apenas lunáticos enxergam o lado escuro da Lua, mas quem percebe a sombra de objetos inexistentes?". Este é o principio deste poema em prosa escrito por Barata Cichetto, que fala do desespero e solidão causados pela modernidade. O título é uma "resposta" à aludida pelos membros da banda Pink Floyd ao explicar o disco "The Dark Side Of The Moon". O texto é repleto de citações "floydianas" e particularmente é dedicado a um dos maiores gênios da música contemporânea, mentor e criador do Pink Floyd, Roger "Syd" Barrett.

"Antes do começo e depois do fim... A sombra... De objetos inexistentes.". o vídeo foi montando usando trechos de filmes pornôs da década de 1920 e 30 e de outros filmes antigos, como "Viagem a Lua", além de inserções minhas narrando o poema. Foram usados efeitos de luz e cortinas de fumaça, além de trucagens, com o intuito de criar uma atmosfera de sombra e sexualidade, como pedia o texto. Foram utilizados três programas de edição de vídeo: o Windows Movie Maker, o Vegas e o DivxLand para a inserção das legendas (o texto). A narração foi feita como programa de código livre Audacity, e como trilha sonora, trechos de músicas da banda Pink Floyd.
Apenas lunáticos enxergam o lado escuro da Lua, mas quem percebe a sombra de objetos inexistentes?
Antenas parabólicas refletem nas paredes das casas a sombra da modernidade.

Sombras de corpos nus refletidos nas paredes de um quarto de motel vagabundo, reflexos de objetos de desejo inexistentes.
O desejo morto, esfacelado a golpes de uma marreta cuja sombra reflete no lençol imundo em forma de sangue rubro.
Desejos mortos são sombras apenas.
Qual a forma da sombra da minha alma?

Reflito, aflito, sobre a superfície do seu corpo, deitada ao meu lado depois de chupar meu pinto.
Estarei morto antes do amanhecer? Serei sombra antes de anoitecer?

E agora seguras minha cueca entre seus dentes e eu observo a sombra da fumaça do seu cigarro e penso que o desejo é igual fumaça, apenas sombras...
Estamos aqui deitados juntos, numa cama de motel barato e meu corpo reflete a sua sombra. Espelhos no teto, um céu de corpos nus e eu nem consigo beijar o céu enquanto chupas com desejo aquilo que chamas de seu.
Pink Floyd rolando em um velho disco negro de vinil enquanto Syd Barrett ignora o corpo nu de Karinne e eu desejo ao seu.
Um alto-falante solta estalidos da agulha deslizando sobre a superfície do disco enquanto eu solto grunhidos ao deslizar meu pinto sobre a superfície dos seus lábios.

Um domingo de sol desses, eu levo minha sombra para visitar um parque qualquer, carregando em meu embornal um par de sanduíches de carne de elefante efervescente.
A música é a sombra sonora do espírito.

Estamos nós dois agora esperando um ônibus que não chega, atrasado feito a vida.
Dói a falta de esperança, de não saber quando chega esse último ônibus que nos carrega em direção ao aconchego da noite.
Não tentes prender minha sombra, não tentes entender minha poesia. Não tentes entender minha sombra.
A noite gera sombras, estamos todos perdidos dentro de sombras de objetos inexistentes.

Cobertos pelas sombras da morte, nus perante o Universo sem sombras. Não existe sombra no espaço sideral, mas há sombras em minha mente.
Reflete a luz dos postes da rua no meu corpo que escurece sua pele branca à sombra de um objeto inexistente.

Logo, minha querida, estaremos todos mortos e mortos não geram sombras.
Da luz nasce a sombra e da dor a poesia. Portanto, em uma matemática ilógica, não existe luz sem poesia.
Minha poesia é a sombra da minha alma, refletida sobre os muros descascados e sujos da sua mente.
Apenas sombras escuras de objetos inexistentes.

Antes do começo e depois do fim existe a poesia. Há a sombra, existe o desejo. Obscuro e escuro objeto de desejo.
Sobram as sombras, restam os restos. E as sombras das antenas parabólicas não refletem meu sentimento, nem captam minha emoção.

Muros cercam os olhos, impedem a visão e eu nem sei quando podemos apanhar um ônibus que nos carregue em direção ao lado escuro da Lua.
Syd Barrett é um São Jorge moderno domando com sua lança psicodélica, um elefante efervescente de olhos de cristal.
Enquanto nos olhamos, esperamos um ônibus cuja sombra nas paredes das casas refletem a angustia da espera e o desespero de não poder chegar a lugar nenhum. Porque as sombras chegam primeiro sem nunca chegar.
Syd Barrett não mora mais aqui, Alice é presidente do País das Maravilhas e a Revolução acabou.
Somos todos mortos, somos todos poesia. A poesia quanto a morte não gera sombras e, portanto somos, enfim, apenas sombras de objetos inexistentes.

Antes do começo e depois do fim... A sombra...
De objetos inexistentes.
https://youtu.be/73gW1wqk8yQ