VERBO DESENCARNADO
Barata Cichetto
Videoarte com crônica poética de Barata Cichetto. Trilha Sonora: Alpha III - Plêiades VII.
 

Não me leia, que não sou palavra escrita, poesia de livro; não me escute, que não sou palavra cantada, letra de música; não me olhe, que não sou palavra pintada, quadro de exposição; não me cheire, que não sou palavra cheirosa, flor de jardim; não me engula, que não sou palavra gostosa, comida de botequim; não me toque, que não sou palavra de choque, guitarra de Rock; não me sinta, que não sou palavra de dor, discurso de ditador; não me creia, que não sou palavra religiosa, santo de andor; não me admire, que não sou palavra solta, idoso de andador; não me aceite, que não sou palavra feita, cerimônia de seita; não me deseje, que não sou palavrão, grito de tesão; não me chupe, que não sou palavra líquida, gozo de masturbação; não me chute, que não sou palavra prostituta, bandeira de luta; não me siga, que não sou palavra certa, grito de alerta; não me torture, que não sou palavra socialista, ideia de humorista; não me empurre, que não sou palavra de ordem, bandeira de carnaval; não me odeie, que não sou palavra torta, pedido de perdão; não me inveje, que não sou palavra vazia, eco de covardia; não me tolere, que não sou palavra tola, hino de futebol; não me derrube, que não sou palavra concreta, muro de arrimo; não me pague, que não sou palavra mercenária, cafetão de tribunal; não me entenda, que não sou palavra fácil, tiro de misericórdia; não me morda, que não sou palavra cadela, dentista de plantão; não me esqueça, que não sou palavra fútil, beijo de traição; não me chame, que não sou palavra surda, vendedor de chocolates; não me ame, que não sou palavra doce, briga de foice; e não me mate, que não sou palavra inútil, carta de suicídio.
2/12/2018
https://youtu.be/0jF8UcR5VT4