VELHO VENTO
Barata Cichetto
Trilha Sonora: Alpha III (Amyr Cantusio Jr.) "The Wizzard", "Stellaris", Do Álbum: "New Voyage To Ixtlan", 2000
 

Velho Vento

Sou um vento velho, daqueles que te desgraça o cabelo, que te cospe ar no rosto, que te arrota no nariz. Sou velho vento, daqueles que te chama de filho da puta, como elogio ou xingamento; que te manda se foder, com prazer ou sentimento; que te chama de puta por carinho ou sacramento; que te manda tomar no cu por desgosto ou a seu gosto. Um velho vento, rabugento e nojento, que desfaz teu penteado. Um vento velho, cansado de soprar; um velho vento, no momento, e para seu tormento, que ainda teima em ventar.

Sou vento, não sou forte, sou força; não sou sorte, sou certeza; não sou antigo, sou eterno; não sou estado da matéria, sou elemento. Vento. Velho. E me assemelho, no intento, ao advento do dia, perto do fim. Orgasmo da existência. O velho vento que sopra, o vento velho que sobra. O vento abraça o velho e o velho abraça o vento. E no velho mar, um velho pisa na areia da ampulheta, pescando sereia; velho bastardo, vento velho tarado, fodendo a fenda do ar. E o velho vento vicia a virgem vadia a viajar, na vaga do vento, de um velho vagão.

Sou velho vento, que sopra nos teus ouvidos, palavras que novos ventos não sabem soprar, a canção da natureza, a voz da beleza; um vento velho; que te sopra no rosto, feito brisa do mar, mormaço de deserto; que te balança como as copas de árvores; um vento velho, que te desmancha feito pedra em poeira; um vento velho, que te derruba e te levanta, que te empurra, que te joga contra a parede, que te joga para cima, para baixo ou para a cama; um velho vento, tão velho quanto pode ser o vento.

Sou vento velho, e abro crateras, invado cavernas, quebro pernas; desfaço rochas, apago tochas; aumento chamas, desarrumo camas, desfaço famas; carrego sementes, entorto dormentes, e arrasto serpentes. E se por um momento eu parar de ventar, durmo de olhos abertos, pronto a despertar, provocar furacão, tornado, tempestade, devastando cidades, despertando maldades, trazendo cheiro de peixes podres do mar. - O velho pescador me convida para pescar, o maldito, no fundo do mar. Tiro o cisco do seu olho, e o arremesso a outro lugar.

Sou vento sem tempo, sem hora de ventar. Se apago teu cigarro e engulo teu escarro, é por não saber me comportar; e se movo tuas vacas e devasso tua colheita, é por não saber brincar; mas, se galopo desarrumando teu cabelo, e depois me transformo em apelo, é por querer te despertar. Sou vento, e não sou tempo, e se te toco no rosto, te corto a pele e te causo rugas, é para saber que, pouco importa o tempo àquele que não sabe ventar, e tampouco importa o vento a quem não consegue sonhar. Velho vento que uiva por não poder chorar.

Sou velho, mas ainda vento: vadio despenteando cabelos, viciado despetalando rosas, vagabundo enchendo de areia teus olhos tolos, vingativo varrendo tua sujeira. E vivo enquanto vento, trazendo chuva, fazendo viúva; velho enquanto tento, e quando venho, criando tormento, virando temporal. E se vento, é por sustento de meu advento, já que velho demais, estou para inventar. Velho vento, vacilo entre o vão e a vez, e vejo vir à vontade de vociferar, tal vento voraz, e vomitar vermes no vazio da vida, vaticinando vírgulas, vendendo verdades, e vencendo vontades.

E se sou vento, se sou velho, tenho liberdade de ventar, de inventar, de prender e de soltar, de fazer curva e de ser chuva, de te fazer cair e te fazer voar; te encher os olhos de areia, cortar tua pele, arranhar tuas costas, e me enfiar nas tuas cavidades. Velho vento não invento, mas intento ventar; sou velho vento, vento velho, veloz, pensamento; e tento levantar, erguer tua saia, arrancar tua roupa, e só faço ventar. Velho vento, soltam palavras em mim, no evento do fim: - Vá-te, velho vento avarento, vá ventar em outro lar!

Sou vento, sou velho, e tenho o direito de te derrubar, e o dever de te levantar; tenho o direito de ser, e o dever de estar; o direito de ver, e o dever de haver. Vento velho, tenho o direito de ir e o dever de vir; o direito de ter, e o dever de ser; o direito de mentir, e o dever de sentir; o direito de te cegar e o dever de te tirar a venda. Sou vento velho, tenho o direito de ser velho, e o dever de ser vento; o direito de ser furacão e o dever de ser brisa. Velho vento, tenho o dever de ventar, e o direito de parar.
8/12/2018
https://youtu.be/_1ZElSgHD04