Todas as letras estão registradas na Biblioteca Nacional em nome de Luiz Carlos Cichetto, proibida a cópia e reprodução sem autorização do autor. Registro 503.655 Livro 953 Folha 375

1 -Intro – Instrumental

1.1 - Prólogo
E agora escutem eu contar a respeito da imoral Vitória
Depois pensem direito sobre a moral da minha história.

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2 – Mil Novecentos e Setenta e Sete


(Narrador)
Mil novecentos e setenta e sete foi o ano de muita dor
Morto o Rei e morto também o palhaço grande ditador
Um menino grande partia em busca de diamantes
E a ditadura partia ao meio o coração dos amantes.

Ainda naquele ano, uma Igreja mostrou suas garras
Mostrando que Cristo gosta muito de jogos e farras
Cruel mil novecentos e setenta e sete do ano do Senhor
Pois do crucifixo nenhum prego ficou sem o seu penhor.

Rei morto e posto e em setenta e sete calaram a rebeldia
E jamais garotos tornariam a estar certos em sua covardia
Era Natal e o palhaço, pelos tempos modernos esmagado
Perdia graça a piada contada pelo vagabundo engraçado.

Foi um ano bom, aquele ano do Senhor da graça
Mas todo ano tem bondade, maldade e desgraça
E foi ainda naquele ano de nosso Senhor Salvador
Que nasceu Vitória, filha de Adão, Eva e muita dor.

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3 – Adão

(Narrador)
Adão foi criado da poeira e do barro
Da mãe recebeu tapas, do pai escarro
E Adão não foi dos deuses uma criação
Filho apenas de um ato de procriação.

Quando criança Adão era um algo diferente
Porque a maldade lhe era um traço inerente
Transando com porcas e esmagando ratos
Com os saltos empoeirados de seus sapatos.

Adão era o terror das crianças de sua escola
E lágrimas de dor eram o lucro de sua esmola
De pouco adiantaram castigos e nem reprimendas
Porque um tecido podre não adianta por emendas.

Aos 10 anos de idade Adão era um garoto viciado
Até que aos 12 foi por um traficante foi seviciado
E com 14 tinha sangue em suas mãos de criança
Então o reformatório lhe era a única esperança.

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4 – Eva

(Narrador)
Eva não foi retirada de uma costela ou parida da poeira
Mas uma pequena, mas bem amada filha de costureira
E a alegria de Inocência era clara ao parir aquela criança
Fruto de paixão gerada com desejo, carinho e esperança.

Uma linda menina, morena feito um entardecer de primavera
E brincando as coisas de menina, Eva cresceu formosa á vera
A escola era seu lar e um sonho de ser professora alimentado
A criança que qualquer mãe tem orgulho de ter amamentado.

Cadernos decorados com rosas, pintadas com todas as cores
Eva não sabia o que eram tapas, nem sabia o que eram dores
Blusa branca alvejada, saia de pregas com a cor azul marinho
Ia Eva a escola, cantando alegremente durante seu caminho.

Brincadeiras de roda e pegador, as preferidas no recreio
E Eva sempre repartia com pobres o seu pão e o recheio
Melhor aluna do colégio, em notas e disciplinas escolares
Eva era uma criança que famílias queriam em seus lares.

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5 – A Infância de Adão e Eva

(Narrador)
E por quatro anos Adão ficou preso em um reformatório
Muitos garotos mandou ao Inferno outros ao purgatório
Pelos inspetores de "O Perverso" Adão era chamado
Mas pelos diretores de disciplina jamais seria amado.

(Adão)
Sou Adão, Perverso feito a verdade
E o único atributo é minha maldade
Maltrato e machuco com o sorriso nos lábios
Porque minha é a sina de demônios e sábios.

(Narrador)
E por quatro anos Eva foi a melhor aluna do colégio
Melhores notas, melhores amigas, amado sortilégio
Pelas professoras muito querida e muito invejada
Mas na verdade pelo diretor era mesmo desejada.

(Eva)
Sou Eva, amo minha família, amo minha professora, amo
Sempre por amado e por querido meus amigos eu chamo
As professoras sempre falam de minha habilidade culinária
Mas o diretor prefere olhar minhas coxas de forma ordinária.

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6 – A Fuga de Adão

(Vinheta)
Atenção, informa em edição extraordinária o Repórter Policial
Em um gentil oferecimento da Igreja do Sétimo Desejo Potencial
Traga o seu espírito cansado e descanse nas redes do Senhor
Depois nos pague o preço justo de jóias colocadas em penhor.

(Repórter)
Ontem a noite, a rebelião no reformatório central da cidade
Resultou na fuga em massa de infratores, menores de idade
Entre eles fugiu o conhecido por suas maldades, Adão o Perverso
Perigoso menor cujas atrocidades são cantadas em prosa e verso.

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7 - Adão o Perverso

(Narrador)
Ao fugir do reformatório, Adão era apenas revolta
Um ódio por qualquer coisa que respire, sem volta
E tinha a ela, junto o desejo, combinação diabólica
Ainda mais quando misturado com bebida alcoólica.

Em uma construção abandonada Adão fizera seu covil
E entre outras coisas ali realizava seu porco desejo vil.
Foi ai que Adão conheceu Eva pelas esquinas do lugar
Chamando sua atenção e querendo seu sorriso alugar.

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8 – A Sedução da Serpente

(Narrador)
Então Adão cercou Eva de todos os meios e formas
Porque o seu desejo não tinha freios e nem normas
E fugia Eva de Adão pois o desejo sob a pele crescia
E um líquido estranho que pelas pernas horas descia.

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(Eva)
Sou Eva, sou menina e o pecado consome minha alma
A noite eu imploro ao Senhor a serenidade e a calma
Mas minhas carnes são frescas e borbulham de desejo
E depois da oração a fronha com rosto de Adão beijo.

(Narrador)
E Eva sabia que ela e Adão eram de mundos diferentes
Mas também que no Universo os mundos são parentes
Exibindo dentes cheios de restos de comida Adão sorria
Enquanto Eva era apenas sorrisos de uma tímida alegria.

(Adão)
Olá, criança de saia pregueada até os joelhos
Não fujas de mim feito um bando de coelhos
Menina, quero a transformar em mulher-fêmea
Porque que da minha sua alma é a irmã gêmea.

(Narrador)
E crescia em Adão a malícia, do sangue o desejo
Até que uma tarde, de Eva Adão furtou um beijo
Antes de uma palma de mão lhe estalar no rosto
Porque Eva das delícias não tinha ainda o gosto.

(Adão)
Aquela menina chamada Eva é a fruta do Paraíso
E eu de Adão chamado serpente agitando o guizo.
(Eva)
Aquele menino, batizado com nome de Adão
É bonito feito demônio e imperfeito cidadão.

(Adão)
Porque tem frutos que podem ser colhidos
E outros que precisam ser roubados
(Eva)
Como existem desejos que podem ser recolhidos
E outros que precisam ser saciados.

(Adão e Eva)
Fruto proibido aquela criança em forma de tentação
Que adoça nosso desejo com o néctar de perdição.
Somos nós, temos desejos e domamos nossas feras
Mas temos segredos, medos guardados de outras eras.

(Narrador)
Então Adão pulou rápido a alta cerca de arame
E estuprou Eva sobre as tábuas de um andaime
Espremida contra a madeira uma Eva apenas soluçando
Pensando que era ela a quem Adão devia estar amando.

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9 – O Fruto do Pecado

(Narrador)
Foi no mês seguinte quando o sangue parou de descer
Que Eva percebeu que tinha algo dentro dela a crescer
A religiosa mãe lhe deu um sermão e um gesto de carinho
Mas o pai a carregou até a porta lhe indicando o caminho.

Inocência era apenas lamúrias e ao Céu clamou por justiça
Mas o marido era apenas desânimo e um tanto de preguiça
A oração da mãe encontrou a filha dormindo em uma praça
Mas pensando ser um milagre Eva abraçou foi sua desgraça.

Eva tinha procurado Adão que desapareceu feito esperança
Porque em seus planos não existia o ser pai de uma criança
E naquela noite a mulher trajada da mais doce misericórdia
Seria o anjo maligno que a carregaria nas asas da discórdia.

Eva tinha em sua barriga a primeira neta de Inocência
E sabia que por temor jamais ao pai pediria clemência
Então, carregada por aquele anjo Eva foi a própria luta
Transformada em um dia de santa a malvada prostituta.

(Eva)
Sou Eva, transo com todos que tenham desejo e dinheiro
Em seu quarto sou imunda, mas não limpo seu banheiro
Transo com tantos quanto agüente arder minha vagina
Mas o que dói é saber o que de mim sua mente imagina.

Sou Eva e tenho o pecado dentro de mim crescendo
Incomoda a barriga quando a escada estou descendo
Sou Eva e gosto de fingir que és meu primeiro homem
Mas jamais terão o gozo aqueles que comigo dormem.

Fui derrotada por meu desejo e agora o ato é meu preço
Mas não perco a esperança de minha criança ter apreço
À noite acaricio minha barriga e o feto dentro a estalar
Então penso em seu futuro e nas montanhas a escalar.

Mas a minha vitória de outro prenome será conhecida
Jamais um nome qualquer, jamais chamará Aparecida
Porque a mim não existe derrota, nem sequer rendição
De Vitória será chamada, vitória sem qualquer condição.

(Narrador)
Ao atender outro cliente com bocejos de marasmo
Eva sentiu as dores e não era um outro orgasmo
O cliente assustado saiu correndo de dentro do quarto
Porque chegara a Eva o momento esperado do parto.

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10 – Fandango de Aulétrides

(Narrador)
Naquele momento uma festa aconteceu no meretrício
Cafetinas cantaram e dançaram e os clientes no ofício
Foram buscar toalhas, transformadas putas em parteiras
E muitos dos clientes comovidos abriram suas carteiras.
Do Céu saíram anjos eunucos, anjos doces e mijados.
E Eva foi carregada em cortejo por demônios aleijados.

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10.1 – Canto das Putas

(Aulétrides)
Vitória, Vitória, uma menina nascida dentro de um bordel
Cantemos então á Vitória em prosa, em rimas e cordel
Vitória, filha de Eva e de um pai chamado de Perverso
Mas agora nós putas cantamos Vitória em prosa e verso.
Vitória, sua mãe agora é a felicidade total e absoluta
Mas não sejas por infelicidade uma bela prostituta.

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11 – A Visita das Rainhas Magas

(As Rainhas Magas)
Somos as três Marias, as rainhas magas da Liberdade
Chegamos até Vitória seguindo a estrela da iniqüidade
Somos três mulheres, três putas, três rainhas mágicas
E trouxemos de presente três coisas de formas trágicas.
Porque bondade e esperança são as últimas que morrem
Enquanto a morte é a última que a humanidade socorre.


Maria das Rosas – A Hipocrisia
Sou Maria das Rosas, trago de presente a hipocrisia
Crente em coisas do Céu, odeio o Inferno da Poesia
Maria das Rosas, mas por Beata sou conhecida
E não sou nem de longe com a outra parecida.
Oh Vitória meu presente receba agora de graça
Porque Hipocrisia é o impedimento da desgraça.

(Narrador)
Então Das Rosas entregou Hipocrisia num belo papel de presente
Sabendo que sua oferta seria aquela que jamais estaria ausente.


Maria das Marias – O Prazer
Maria das Marias é do jeito que sou chamada
E gosto de ser pelos machos e fêmeas amada
Sou desejo por tesão, pouco importa a fidelidade
E a Vitória a Luxúria a quem chamo de liberdade
Das Marias e dos Josés pertencem o meu prazer
Então lhe trago o melhor que poderiam lhe trazer.

(Narrador)
E então Das Marias entregou o orgasmo das bacantes
Pois sabia que seria Luxuria o melhor dos fortificantes.


Maria das Dores – A Mentira
Maria das Dores é a forma com que clamam minha presença
Tenho dores e sou de todas as cores que chamam a Doença
E trouxe á Vitória a melhor das armas, a chamada de mentira
Arte do que vive o Prazer e donde sustento a Hipocrisia retira.
Porque de sua geração e até o último suspiro antes da morte
A mentira é aquilo que a humanidade chama apenas de sorte.

(Narrador)
Então Das Dores entregou a mentira a Vitória Criança
Sabendo que mentiam quando lhe deram a Esperança.

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12 – O Batismo de Vitória

(Narrador)
Decidiram então que Vitória teria o batismo na Igreja
Porque é ali o caminho do Céu de quem a ele deseja
E trajada de criança, ficaram juntos na Pia Batismal
E o Padre de vestes brancas falou de forma sofismal:

(Sacerdote Judas)
Eu a batizo, a filha de Adão e de Eva, Vitória de Tal
E ao fazer o sinal da cruz em sua testa, lábios e peito
Eu a livro das mãos do maligno e do pecado original
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo perfeito.

Jamais trairás Vitória, aquele que a acorrenta
E jamais morderás a mão que lhe alimenta
Do traidor fugirás e fidelidade será sua sina
Mas nunca terás felicidade, a fera assassina.

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13 – A Rebelião das Putas

(Repórter de Rádio)
Ontem à noite a policia resgatou de um prostíbulo da capital
Uma menor apenas conhecida por Vitória, uma Vitória de Tal
Eva a mãe aos prantos, prostitutas anônimas aos choros
Protestaram entoando cantos e declamando belos coros.

(Aulétrides)
Somos todas mulheres sem respeito, somos meretrizes
Estandartes do desejo, dos seus ensejos somos atrizes
Mas não retirem de nosso meio a criança chamada de Vitória
Porque a neta de Inocência é melhor parte da nossa história.
Deixem que a filha de Eva que padeceu dores maternas
Cuide de sua criança longe das pérfidas garras paternas.

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14 – A Lei e a Ordem

(Narrador)
E o delegado contou a um jornalista de plantão muitos pormenores
Afirmando que o destino de Vitória era o reformatório de menores.

(Delegado)
Minha obrigação é o cumprimento da lei severa
E não poderia admitir uma criança criada á vera
Portanto o estado cumprirá seu papel obrigatório
Mandando a filha da prostituta ao reformatório
E usando a função de guardar a moralidade
Determino a mãe ser privada da legalidade.

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15 – A Menina Vitória

(Narrador)
A respeito da menina chamada Vitória
E de sua infância deveras tumultuada
Existe muita lenda e existe uma história
Mas a verdade ainda muito mal contada
É que foi dentro de casa reformatória
Que ganhou na pele a maldade tatuada.


15.1 – A Cantiga de Ninar ou de Roda de Vitória

(Aulétrides)
E Vitória falou antes de andar
Correu antes mesmo de caminhar
E sofreu mesmo antes de amar.

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16 - 1999

(Vitória)
Detesto lembrar sobre minha infância
Tão cheia de dor, falta e intolerância
Apenas conto com louvor as cicatrizes
Profundas valas a marcar as diretrizes.

Sou a Vitória, filha da dor e do perverso
E nunca agradeço ao Senhor do Universo
Por milagres que pediram em meu nome
Vitória é minha sina, de Tal o sobrenome.

Chamam a mim de Vitória, alcunha de Morte
Sou a Rainha das Putas e minha é sua sorte
E sobre a égide da dor eu crio minha legião
Sem dogmas nem regras, uma real religião.

Filha de Eva e de Adão chamo Vitória de Tal
Neta da Inocência, sou cruel, bela e mortal
Sou Vitória, filha do pecado e intolerância
Então detesto falar sobre a minha infância.

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17 – A Volta do Perverso

(Narrador)
E quando de uma doença mortal foi acometido
Adão em homem crente acabou por convertido
Agora a Bíblia Sagrada cheira suor debaixo de seu braço
E a todos chama de irmãos, e em todos quer dar abraço.

Adão aprendeu de cor, cantar hinos com força do pulmão
E também a trajar ternos e usar perfume de rosas na mão
Cigarros e bebidas são agora coisas de fracos da perdição
Mas Adão tinha apenas mudado a forma de sua rendição.

Em tempo muito curto Adão chegou a pastor protestante
Pouco tinha a perder e muito a ganhar ao custo restante
Ele agora usava terno e sapatos de couro importado
Andava em carro do ano, cabelo muito rente cortado.

O tempo de pecados era contado como provas e expiação
Adão contando do alto do púlpito sem conter a respiração
E até a tatuagem de cruz em seu braço mandou ele apagar
Contando sobre o milagre do desenho ter mudado de lugar.

17.1 - (Hino Pentecostal)
(Adão)
Subam irmãos, comigo do Paraíso as escadas
E caminhem comigo por iluminadas estradas
Marchem irmãos da minha Igreja unificados
E que sejam todos ao meu Senhor purificados
O Senhor nos oferta o caminho da Sua Glória
E que carrega a Ele e a Sua absoluta Vitória.

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18 – A Rainha Vitória e Seu Império

(Narrador)
E bem cedo Vitória ficou conhecida por Perversa
Transformando em dinheiro a existência adversa
E tinha Vitória mil putas em seu bordel
Cantado em prosa, em repente e cordel.

18.1 – Cordel de Bordel

(Aulétrides)
Existiu um dia uma Rainha
Que de Vitória foi chamada
A compaixão ela não tinha
Mas que queria ser amada.

De Perversa tal Adão
Ficou ela conhecida
Não sabia do Perdão
Com a Eva parecida.

Mil meninas no bordel
Outras mil na sua cama
E agora canto o cordel
De Vitória minha dama.

Tinha jeito de dengosa
Mas maldade no coração
Mas Vitória era orgulhosa
E não aceitava a traição.

(Narrador)
Então construiu Vitória o seu Império
E sobre terras de um antigo cemitério
Ergueu o maior de todos os templos mundanos
Que a Terra conheceu desde tempos romanos.

Mulheres ás centenas chegaram de todos as partes
E iniciadas em erotismo, a mais humana das artes
Do embaixador ao presidente e do padre ao policial
Tinham todos no Império de Vitória lugar especial.

Mas existia alguma coisa de diferente naquele bordel
Que foi cantada alegremente por cantadores de cordel
Porque um dia ao ano, exatamente a Sexta-feira Santa
O corpo de Vitória era a mendigos servido como janta.

Era lauto o banquete dos mendigos, farto de sevícias
Pois Vitória era aos flagelados belo prato de delícias
E a noite com o corpo de Cristo ainda morto, insepulto
Vitória ressuscitada os condenava á morte em seu culto.

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19 - Estrela das Águas, Régia Vitória

(Narrador)
E nas noites dos sonhos de Vitória uma luz aparecia
Que por Jacy, seu amigo índio aquela Lua conhecia
Então por todas as noites Vitória por ela clamava
Sabendo que na manhã a predileta a Lua amava.

E amantes da Lua eram em estrelas transformadas
Estrelas opacas, estrelas sem brilho e deformadas
Mas Vitória, noite após noite a Luz perseguia
E nem dormir e nem comer Vitória conseguia.

Até que no espelho a Lua lhe mostrou o rosto
Vitória entorpecida admirou seu próprio gosto
Atirando-se á visão, afogada em seu desejo
Sendo agora Jacy, a predileta de seu beijo.

De manhã acordou Vitória ofegante de prazer
Junto a cama uma criada o café a lhe trazer
Yaraci uma criada de amante por ela chamada
A amante que dentre todas aquela mais amada.

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20 – Canção de Yaraci e Vitória

(Yaraci e Vitória)
Então porque nos furtar daquilo que nós somos
Quando o desejo é claro e afronta cromossomos
Rasgaram nossas carnes, deixaram sangue jorrar
E agora não pretendemos outra maquiagem borrar
Sangue, suor e lágrimas compraram nossos beijos
Mas agora sem medo promulgamos nossos desejos.

(Yaraci)
Eu sou sua idêntica forma e somos mulheres apenas
Amo portanto a mim mesma feito mulheres de Atenas
Sou uma índia e o pecado a mim é sempre o original
Porque pecar é o jeito que ama um bandido marginal
Bandida, sou amante das estrelas, poeira no rastro
Sou lésbica, sou mulher e da bandeira sou o mastro.

(Vitória)
Sou a filha do pecado e da dor, de Inocência sou a neta
Todas as dores conheço e nenhum prazer me completa
Busco a gargalhada e dos machos quero apenas dinheiro
Amiga portanto deixe que eu acaricie a sua pele de criança
Minha mãe lembra de mim, mas dela não tenho lembrança
Então amemos feito irmãs, feito espinhos amando rosas
Sabendo que seremos nós duas formas de amar gloriosas.

(Yaraci e Vitória)
De mulheres nos chamamos, nos amamos e somos fêmeas
Almas casadas, irmãs siamesas e acima de almas gêmeas
Entendemos a nossa em menstruação e da anterior tensão
E da intensidade certa das caricias nós temos a pretensão
Penetramos nossas almas, nossos corpos não defloramos
Pois sabemos da dor do parto e a paixão não imploramos.

(Vitória):
Que ócio, que maldade, que falta de desejo
E ninguém consegue dar um simples beijo.

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21 – O Palhaço do Coqueiro

(Narrador)
Filho do outro era ele um palhaço sem graça
Até que um dia com o circo caiu em desgraça
Enlouquecido fugiu, abandonado a própria sorte
E agora é um palhaço perdido fugindo da morte.

(Janga):
Sou Janga ou o Palhaço do Coqueiro
Sou sem graça, desgraçado roqueiro
Então eu exijo que riam de minhas arrelias
Gargalhem até chorar de minhas estripulias
Ou os hipnotizo e espanco no meio da rua
Até a que a nuvem saia da frente da Lua.

(Vitória):
Que ódio, que tristeza, que falta de poesia
E ninguém consegue dar senão a hipocrisia.

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22 – Bloody Mary

(Bloody Mary):
Quando seus desejos não forem satisfeitos
Fique em frente a seu espelho sem defeitos
E chame por mim, sem precisar pagar com dinheiro
Bloody Mary, Maria Sangrenta ou Loira do Banheiro
Sou a Bruxa do Espelho, e sua alma posso enxergar
Então minha querida Vitória posso seus olhos cegar.

(Vitória)
Que dor, que angústia, que dor e que tédio
E ninguém consegue dar o correto remédio.

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23 – A Banda de Betty Boop

(Betty Boop)
Sou a sensação sexual dos 30, cadela formosa
Dos 30, dos 50 e dos 60, uma cachorra famosa
Sou seu desejo pueril, sou sua delícia
Sua imaginação infantil, sou a malícia.

Boop Oop um Doop, Boop Oop um Doop,
Sou Betty Boop, Betty Boop, Boooop.

Tenho a maldade juvenil e a falsidade da serpente
Sou da criança o imaginário e do adulto a semente
Sou uma sensação sexual, a pequena majestosa
Quadril de mulher, anca de cadela, uma gostosa.

Boop Oop um Doop, Boop Oop um Doop,
Sou Betty Boop, Betty Boop, Boooop.

(Vitória):
Que fadiga, que cansaço, que falta total de tesão
E ninguém consegue ser meu verdadeiro cortesão.

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24 – O Homúnculos

(Narrador)
E então Vitória criou um ser a beira da perfeição
Buscando o prazer perfeito e sua total satisfação
Um homúnculos criou com pedaços de amantes perdidos
Machos e fêmeas, bichos e plantas em pedaços repartidos.


(Homúnculos)
Tenho a força de cem machos e a delicadeza de mil fêmeas
E tenho em mim ao mesmo tempo um par de almas gêmeas
Útero e testículos, esperma e melado, coração e músculos
Ser criado por desejos torpes, sou o poderoso homúnculos.

Sou o futuro da humanidade, sem guerras e eróticas disputas
O fim da iniqüidade, das doenças e da necessidade das putas
Tenho grandes lábios e prepúcio, tenho o útero e o escrotal
Então sou ao mesmo tempo homem completo e mulher total.

Pai mãe, tenho capacidade de gerar filhos dentro do meu ser
Fecundar a mim mesmo e sentir o fruto dentro de mim crescer
Minha derme é polida e brilhante, sem barbas nem pelos
E eu posso portanto atender a todos indistintos apelos.

Sou forte e sou delicado, tenho sensibilidade e seios fartos
Meu quadril largo e pernas fortes são a perfeição dos partos
Sou uma criação alquímica, o aperfeiçoamento da humanidade
Mas agora sou apenas um homúnculos em busca de identidade.


(Vitória)
Que tédio, que preguiça e que falta de afeição
E ninguém consegue encontrar minha perfeição.

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25 – A Prisão de Vitória

(Repórter de Rádio)
Ontem a noite a policia invadiu o maior prostíbulo da capital
Prendendo a proprietária apenas conhecida por Vitória de Tal
E Vitória aos berros e as prostitutas anônimas aos choros
Protestaram entoando cantos e declamando belos coros.

(Aulétrides)
Somos todas mulheres sem respeito, somos meretrizes
Estandartes do desejo, dos seus ensejos somos atrizes
Mas não retirem de nosso meio a mulher chamada de Vitória
Porque a neta de Inocência é nossa melhor parte da história.

(Repórter de Rádio)
E o delegado deu ao jornalista de plantão a sua explicação
Afirmando que Vitória era portanto a Rainha da Prostituição
E que a tal crime contra a moral era preciso penalidade
Ou estaríamos todos nós condenados a total imoralidade.

(Delegado)
A minha obrigação é o cumprimento da lei severa
E não poderia admitir o desejo grassando á vera
Portanto o estado cumprirá sua obrigação judiciária
Mandando a cafetina prostituta a uma penitenciária
E usando a função de guardião das chaves da prisão
Determino que a puta também seja privada do tesão


(Narrador)
E Vitória comeu pão fermentado pelo Deus da Justiça
Amassado pelas patas fendadas do Demônio da Moral
E assado nas lentas chamas do Bem Eterno
Até ser libertada pelas mãos do ente paterno.

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26 – Canção Para Vitória

(Som de uma narração de programa de rádio brega. No fim a voz de Eva:)

(Eva)
Chamam a mim de Eva, sou mãe e padeço no paraíso materno
Porque ser é mãe é morrer diariamente num sofrimento eterno
Quero dedicar a próxima música a minha amada filha Vitória
Aquela que veio ao mundo para contar a sua própria história.

(Entra a musica, num ritmo de bolero ou algo parecido)
(Eva)
Filha, eu lhe apontei o caminho da retidão
Mas preferistes o atalho torto da podridão
Concebidas fostes a partir do pecado original
Mas pecas agora descendo ao estado marginal.

Vitória, filha da minha carne, minha vitória
Principal capítulo e glória da minha história.

Filha, fruto do meu ventre, Ah Jesus quanto a amo
Por minha vitória lhe agradeço e de anjo a chamo
Vitória, minha vitória é saber sempre da sua felicidade
Mas porque buscas a derrota pelas esquinas da cidade?

Vitória, filha da minha carne, minha vitória
Principal capítulo e glória de minha história.

(Vitória)
Que preguiça, que sonolência, que falta de vontade de viver
E ninguém consegue dar aquilo que preciso para sobreviver.

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27 – A Vitória e a Morte de Adão

(Narrador)
E então Vitória da prisão fez o seu lar
E muito ela falou antes mesmo de calar
Muito ela chorou antes de sentir sua dor
E acabou rastejando aos pés do ditador.

(Adão)
Oh, Senhor, que minhas doenças curastes
E que minhas perdas comigo procurastes
Oh Senhor que nos braços eu achei serenidade
E que a luxuria transformastes em moralidade.
Oh, Senhor aceitas agora a minha oferta solene
Tomas então em seus braços minh’alma perene.

(Narrador)
E cultos religiosos Vitória começou a freqüentar
Pois diziam que sem Deus não poderia agüentar
Prisão é um lugar estranho e era Adão o pregador
E então ao Inferno ela foi pelas mãos do negador.

(Adão)
Sou Adão, Perverso feito a maldade
E o único atributo é minha verdade
Maltrato e machuco com o sorriso nos lábios
Porque minha é a sina de demônios e sábios.

(Narrador)
Então Adão pulou rápido sobre a cama em frangalhos
E estuprou Vitória sobre uma colcha rota de retalhos
Espremida contra a madeira Vitória apenas balbuciando
Pensando que era a ela quem Adão devia estar amando.

(Vitória)
Chamam a mim de Vitória, a alcunha é Morte
Sou a Rainha das Putas e minha é sua sorte
E sobre a égide da dor eu crio minha legião
Sem dogmas e sem regras, uma real religião.

(Narrador)
Então Adão traiu a todos que podia
E era tão tamanha a sua covardia
Que sua consciência não lhe ardia
Mas antes mesmo do raiar do dia
Traiu a si próprio ainda que tardia
Matando a serpente que o mordia.

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28 – O Poeta das Perdidas

Sou Poeta, minhas perdidas, mas acima das poesias
Acima da perdição e de suas mentiras e hipocrisias
Deixo agora a arena mastigado por um Leão
E não desejo conquistas e não sou Napoleão.

Porque ninguém acha quem não deseja ser achado
Ninguém é perdido e ninguém abre coração fechado
Fui Deus jogado ao Inferno e o Demônio sem Maria
Eu lhe dei Poesia, mas até minha alma eu lhe daria.

Sou Poeta das Perdidas, encontre comigo ao anoitecer
Que posso bordar sua pele e a paixão posso lhe tecer
Encontrar é perder e quero um encontro de perdidos
O tempo ocupará o espaço e atenderei seus pedidos.

Resta apenas ser Poeta, estar perdido, ser perdição
Chorar as perdas e danos das perdidas por rendição
Glória ao pai e ao filho bastardo e adoro blasfêmias
Perdido e minha perdição é a mãe de outras fêmeas.

(Vitória)
Que tédio, que maldição e que falta de lirismo
E ninguém consegue compreender meu cinismo.

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29 – Judas Crucificado

Minhas costas estão doloridas e minha cabeça arde
Fui Pilatos de manhã, um Barrabás e Judas à tarde.
Jamais caminharei ao Gólgota carregando pregos
Então arranquem de mim os olhos e fiquem cegos.

Não chores mulher, não quebraram meu esqueleto
Traga até mim suas lágrimas e seu outro amuleto
Enxugue meu rosto e abrace as minhas pernas
Que estarás comigo antes das deusas eternas.

Amarrado e malhado enquanto a criançada canta
Judas crucificado antecipando a Semana Santa
Quebraram minhas costelas com madeira de lei
Sem saberem que da Terra eu é que sou o Rei.

Jamais Cristo, sou Judas e não existe uma trégua
Pecados cometidos são medidos por minha régua
E jamais colocarei meu pescoço na forca de corda
Pois meu ato é o grito que a humanidade acorda.

(Vitória)
Que medo, que maldição e que falta de decência
E ninguém consegue entender minha inocência.

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30 – A Santa Ceia ou A Ceia Mística

(A Santa Ceia é o momento crucial. Vitória reencontra todos e em uma enorme cama redonda aponta a todos e anuncia sua morte, ao ser traída. Neste ponto todos os personagens principais estão presentes, num total de 12, além da própria Vitória. As Aulétrides ficam ao fundo, dançando e tocando flauta, mas não participam.)

1. Eva
2. Adão
3. As Rainhas Magas (Aqui, as Rainhas Magas são apenas um ser, com três cabeças)
4. Sacerdote Judas
5. O Delegado
6. Yaraci
7. Janga
8. Betty Boop
9. O Homúnculos
10. Bloody Mary
11. O Poeta das Perdidas
12. Judas Crucificado

(Narrador)
Um dia ao completar seu trigésimo terceiro ano
Foi que Vitória engendrou ao seu perfeito plano
E mandou chamar a todos que um dia a seguiram
Incluindo também aqueles que a ela perseguiram.

Chegando foram dispostos ao redor de seu leito
E a cada um Vitória abraçou contra o seu peito
A todos um pedaço de pão e um cálice sagrado
E tomou então a palavra e ao vinho consagrado.

(Vitória)
Que façam em minha memória
E do meu corpo o seu alimento
Bebam do mal sangue de Vitória
E da sua morte façam sustento.

A todos eu trai e a todos reneguei
E ninguém saberá o que é pecar
Serei traída tanto quanto neguei
E ninguém poderá a mim perdoar.

Ganhei de presente a hipocrisia
A mentira e o prazer ao nascer
Então não queiram que poesia
Eu possa ser quando crescer.

Eu fui feita da dor e da maldição
Amada por muitos e por ninguém
E agora lhes entrego a rendição
Antes de estar morta por alguém.

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31 – A Morte de Vitória

(Todos)
Nós não precisamos de seu desejo
Ou de seu comportamento imoral
Pois somos agora da Morte o beijo
E cantamos finalmente o seu coral.

Com panos e pedras nós a mataremos
Porque nós não precisamos de sua perdição
E de sua tirania todos nos libertaremos
Perdidos que somos no mar de contradição.

(Vitória)
Eu não preciso o que não desejo
Sou Vitória e vitória é meu ensejo.
Eu não desejo o que não preciso
Sou Vitória e vitória é meu inciso.

Sou Vitória e prefiro a morte à derrota
Agora tenho a liberdade, estou morta
E Vitória é meu nome e a minha sina
Mas fui eu a minha própria assassina.

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32- Canto Final
(Todos e Vitória)

(Narrador)
Ao correr do ano dois mil e dez da graça
Outro Rei morto e calado o som do Metal
E aos trinta e três anos de soberba desgraça
Calada também foi uma Rainha Vitória de tal.



(Todos – Inclusive com Vitória)
Imagine uma escola sem crianças
E uma igreja sem suas esperanças

Imagine uma mãe sem seu filho
E o Sol e a Lua sem seu brilho.

Imagine uma fêmea sem beijos
E um par de lábios sem desejos.

Imagine um poeta sem uma poesia
E uma Vitória de Tal sem hipocrisia.

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33 - Epílogo

E agora depois da glória
De escutarem com efeito
Eu cantar sobre a Vitória
Pensem direito a respeito
Da moral da minha história
E daquilo que lhe foi feito.
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