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SYD BARRETT: O ELEFANTE EFERVESCENTE NÃO ESTÁ NA PRAÇA DA APOTEOSE
LÚCIO EMÍLIO DO ESPÍRITO SANTO JÚNIOR
5/9/2007
Comentar a respeito de Syd Barrett (1946-2006), o co-fundador do Pink Floyd, é tratar de um tempo em que a música popular era um universo efervescente de experimentação e o rock/pop não tinha se tornado, como hoje em dia, a Coca-Cola da música. Existia espaço para referências literárias e experimentalismos, que deram lugar, muitas vezes, ao império da mercadologia.
Criou-se toda uma aura mística em torno de Syd Barrett, gerando um mito que o compara a um Nietzsche de nosso tempo. Alguns anos antes, quando Barrett co-fundou o Pink Floyd com Roger Waters (que tocou recentemente na praça da Apoteose), Mason e Wright, o compositor deu um forte impulso à banda naquele início de carreira. Depois de ter lançado vários singles e The Piper in the Gates of Dawn, Barrett, que preferia o rythm and blues (o próprio nome Pink Floyd saiu de uma fusão dos nomes de seus jazzistas favoritos, Pink Andersenl e Floyd Consel) à fusão entre rock e música clássica, ou seja, o chamado progressivo. As razões de sua saída do Pink Floyd deram origem a muitas lendas, mas o fato é que Roger Waters assumiu a liderança e colocou David Gilmour como guitarrista no lugar de Barrett após a turnê norte-americana, em 1968.
Entre 1968 e 1972, Barrett partiu para uma mal sucedida carreira solo; lançou dois álbuns: The Madcaup Laughs (que contava com a maioria dos componentes da banda Soft Machine, com exceção de Kevin Ayers) e Barrett. Decepcionado, a seguir retirou-se completamente do universo da música. Um álbum de material inédito, Opel, saiu em 1988.
Ao falar sobre The Piper at the Gates of Dawn (O Flautista nos Portões da Madrugada), Syd respondia prontamente: “Wind in the Willows” (Vento nos Salgueiros, livro infantil de autoria de Kenneth Grahame). No referido álbum, a canção Chapter 24, por exemplo, saiu diretamente do I Ching, com muitas palavras retiradas diretamente do livro. Barrett gostava muito de canções simples, que atingissem muitas pessoas, podendo também ter mais de um sentido. Octopus (Polvo) foi uma canção que Barrett pensou e mentalizou durante seis meses, antes de chegar a realizá-la. Na canção, doze linhas são, cada uma, antecipando a próxima e remetendo a um tema comum. Funciona como uma combinação de palavras que se direcionou num sentido, para depois o refrão vir e mudar o tempo, dando uma unidade a toda a canção. O clima das canções de Barrett remetia muito à infância, aos contos de fadas e às rimas infantis, as chamadas nursery rhymes. As letras de Barrett eram colagens surrealistas. Numa entrevista realizada na época do lançamento do disco Madcaup Laghs (1970), afirmou que escutava Bo Diddley, Beatles e Stones e velhos discos de jazz. Nesta época, lia Shakespeare and Chaucer.
Numa das poucas entrevistas que deu após sua saída do Pink Floyd, em 1972, Barrett estava de cabelos curtos, quase como um skinhead. Sobre si mesmo, afirmou: “eu sou um pintor, estudei para ser pintor”.
A escrita de Barrett sempre foi voltada para canções e não para as longas peças instrumentais que o restante do Pink Floyd apreciava. “A escolha do material dos demais membros do Pink Floyd tem muito a ver com o que estudantes de arquitetura costumam pensar”, comentou Barrett após sua saída da banda. “Coisas pouco instigantes, primárias. Qualquer um que estivesse andando numa escola de artes poderia pensar coisas semelhantes, mas quem sabe eles estejam planejando voltar para a escola”.
O Pink Floyd gradualmente afastou-se de canções como See Emily Play. Syd afirmou que, no começo, os ruídos eletrônicos foram necessários, eram algo excitante. Para Syd, ser um grupo pop era fazer singles. Mas ele afirmou que sua saída não foi uma briga, foram alguns problemas. Syd negava a versão de que saíra da banda porque enlouquecera em meio a viagens de ácido, dizendo que isso nada tinha a ver com o trabalho musical propriamente dito. Barrett atribuiu tudo ao fato de ter morado em Londres. As canções, afirmava ele, transmitiam uma atmosfera, mais do que contar uma história.
Syd voltou a usar seu nome real, Roger Barrett. Passou o resto da vivendo anonimamente em Cambridge, indo à casa da mãe, pintando e fazendo jardinagem. O trabalho com o Pink Floyd continuou lhe rendendo direitos autorais e ele viveu com certa segurança. No entanto, raramente aceitou falar com os fãs e jornalistas que o procuraram durante todos esses os anos.
Em torno dele floresceram lendas sobre o fato de que o excesso de drogas o fizera enlouquecer e levara à total instabilidade mental, o que não correspondia à realidade. Após sua morte em 2006, sua irmã Rosemary, enfermeira de profissão, afirmou que “Roger” não entendia o contínuo interesse por seu trabalho com o Pink Floyd, tinha certa dificuldade com o convívio social, mas era muito popular entre os lojistas da vizinhança e as crianças. Estudava profundamente História da Arte, tendo deixado um livro inédito a respeito. Para ilustrar as letras de Barrett, segue abaixo então a tradução de três das canções de Madcaup Laughs: Octopus, Dark Globe e Golden Hair:
Polvo

Viajando para cima, para baixo, dentro e fora
Você nem tem palavras
Viajando, viajando num dragão de sonho
Que esconde suas asas numa torre fantasma
Velas arrebentando em cada prato que quebramos
Estouram por agulhas espalhadas
O gongo do minutinho
Soa e limpa sua garganta
Madame, veja bem antes de ficar
Olha, olha, nunca fique muito quieto
A velha marca original
A verde, herbácea banda
E o tom em que tocam é “confie em nós”
Então viaje para cima, para baixo, dentro e fora
Você nem tem palavras
Tire-nos daqui
Por favor, feche os olhos para a volta do polvo!
Não é mau estar perdido na floresta
Não é ruim na floresta, aqui é tão quieto
Significa menos para mim do que pensei
Com um doce monte de sementes
Potes de mel, comida mística brilhando...
Bem, o maluco riu para o homem na fronteira
Hey, ho, rufam os tambores
“Trapaça!” Disse ele chamando o canguru
É verdade que em suas árvores eles gritam
Por favor, deixem-nos aqui
Fechem os olhos para o passeio do polvo!
O maluco riu para o homem na fronteira
Hey, ho, rufam os tambores
Os ventos sopram e as ondas chegam em vagas
Eles nunca vão me colocar em sua bolsa
Os mares vão sempre ir e voltar
Quanto mais alto você voa, mais fundo você cai
O vento sopra no trópico
Os afogados sentam nas cadeiras
A porta guinchando vai sempre guinchar
Dois para cima, dois para baixo e nunca mais nos encontramos
Na viagem meramente esqueça meu lado
Por favor, tire-nos tire daqui
Feche seus olhos para a volta do polvo!

A capa de Madcap mostrou Syd agachado e pensativo no chão de uma sala vazia. No fundo, uma garota nua. A foto traz a atmosfera das canções, minimalistas, despreocupadas com a moda, sinceras, sem produção refinada, deixando que o ouvinte se concentrasse no efeito de fluxo de consciência. O trabalho engendrava um intimismo gentil e uma hesitante, mas intensa, consciência. Outra canção do mesmo disco foi Dark Globe (Globo Escuro):

Oh, onde estará
O salgueiro que sorriu para essa folha?
Quando eu estava sozinho você me prometeu seu coração de pedra
Minha cabeça beija o chão
Estava quase caindo, encostando na areia
Por favor, por favor, me dê a mão
Eu sou somente uma pessoa cujos braços batem
Nas mãos, que ficam pendendo no alto
Você sentiu minha falta?
Você sentiu minha falta no fim das contas?
O caminho dos passarinhos
Ao redor dos cafés
Marca sua língua
Minha cabeça beija o chão
Estava quase caindo
Por favor, por favor, me dê a mão
Eu sou só uma pessoa acorrentada no frio como esquimó
Tatuei meu cérebro afinal...
Você sentiu minha falta?
Você sentiu minha falta no fim das contas?

E, finalmente, o poema de Joyce que Barrett musicou, Cabelos Dourados (Golden Hair), letra originária do poema Chamber Music:

Abra sua janela, cabelos dourados
Eu vejo você cantando no ar da meia-noite
Fecho meu livro e não leio mais
Observando o fogo dançar no chão
Eu deixo o livro, eu deixo a sala

Desde que escutei você cantando na bruma
Cantando e cantando, um mero ar livre
Abra sua janela, cabelos dourados...

Ao todo, a carreira musical de Syd Barrett foi apenas de 1965 até 1972. Passou 32 anos recusando-se resolutamente a gravar qualquer música ou aventurar-se numa apresentação. Barrett começou a fazer música na adolescência, pouco depois da morte de seu pai, um médico. Seu estilo de tocar guitarra era singular. O primeiro single da banda, Arnold Layne, era sobre um sujeito perturbado que roubava roupas femininas dos varais locais em Cambridge. David Bowie adorou os climas ora claros ora escuros das canções de Barrett. Recentemente, Bowie juntou-se aos remanescentes do Pink Floyd para homenagear Syd, cujas músicas tiveram grande influência sobre ele.
Muitos viram em Jugband Blues (1968), última canção gravada de Syd com o Pink Floyd, um apelo de um homem frágil, que lutava contra a esquizofrenia. Essa perturbação mental foi a razão que Roger Waters apresentou para o afastamento de Barrett da banda. Num depoimento de Waters sobre Barrett, disponível no Youtube, ele elogiou o talento do Barrett pintor: “Barrett pintou um quadro com leões, arcos romanos e criou uma perspectiva muito estranha (o quadro comentado por Waters segue em anexo junto com esse artigo)”. Ele fez algumas apresentações com uma banda local chamada Stars no início de 1972, mas uma crítica negativa numa revista o desistir das ambições musicais e tornar-se um anti-social e recluso em tempo integral.
Seu fantasma continuou a fascinar muitas gerações de músicos de rock. O próprio Pink Floyd foi assombrado por seu espectro, conforme referências a ele em Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e The Wall. David Bowie relançou a forma deslocada e bastante inglesa de projeção vocal em canções como The Bewlay Brothers. Em 1976, logo depois que John Lydon entrou nos Sex Pistols, Malcolm McLaren tentou convencer, sem sucesso, a banda a tocar canções de Barrett. A banda The Damned tentou fazer com que Barrett produzisse seu segundo álbum. Várias bandas da New Wave (tais como os Soft Boys) apropriaram-se do toque surreal de Madcaup Laughs como parte de sua estética. Ele tornou-se um flautista encantado para o rock independente dos anos 80, citado tanto Blur como por Brian Jonestown Massacre. No novo milênio, basta ouvir atentamente Libertines ou Babyshambles para saber que o diamante louco da música de Syd continua informando as escolhas criativas da última geração do rock e dos espíritos boêmios.

Bibliografia:

Syd Barrett Archives: www.sydbarrett.net/welcome.htm.

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