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DESEJO
ANDREI SIMÕES
27/8/2000
I - Não
Definitivamente não queria mais morar com os pais. Já não os via fisicamente há alguns anos, apesar de morarem na mesma casa, óbvia redundância. Comunicava-se com eles através do criado-mudo do corredor, onde ele colocava recados escritos, sempre de madrugada, quando tinha a certeza de que ninguém apareceria. Também tinha a chave da porta dos pais, e quando saía para deixar os tais recados, trancava a porta do quarto deles, e depois destrancava e corria para seu quarto, devidamente protegido pela sua porta de 16 trancas, além da fechadura, e com uma pequena cortina de um metro quadrado que cobria o buraco feito na porta para que a comida, roupas e quaisquer objetos pudessem passar, necessários à sua reclusa existência. A casa que ele projetava mentalmente ainda levaria mais um tempo para ficar pronta e passava praticamente todas as horas do seu dia a criando em sua mente. Uma vez por semana a diarista varria o quarto e limpava o banheiro de suíte, que era o lar-mundo do garoto de vinte anos, que já há cinco havia decidido por não ver mais ninguém. Quando a diarista entrava para a dita limpeza, ele se postava em um grande baú de madeira, acolchoado por almofadas de plumas e com pequenos furos em sua parte superior, até que ela se fosse. Lá dentro ele não rezava ou contava carneiros, ele apenas esperava. Jó no baú. No mais, não havia comunicação. Os pais aceitaram suas exigências, a duro e incoerente custo, e faziam tudo que ele queria. Cúmplices na montagem do casulo. Mas agora estava quase na hora da fase dois, e não poderia mais morar ali. E assim ele viveu aqueles anos, criando o casulo, na mente e na vida, projetando a casa na sua mente e esperando a hora de começar a nova fase. Casulo nos atos e nos sorrisos que só ele via. Sorrisos de liberdade enclausurados. Era magro. Saudável apesar de. Nunca foi bonito. Simpático apesar de. Agora era ele totalmente. Apesar de só ele poder ver e sentir, mas nada mais importava. Era um caramujo lindo, o mais lindo de todas as tartarugas, apesar de ser caramujo. Palmas para o casco da tartaruga, e um viva para as sereias que jamais apreciaram a beleza destes seres.

II - Hematoma
Para tentarmos fazer de idéias linhas e através das linhas gerarmos onomatopéias silenciosas e mentais como "Ah! Oh!", conseqüências de um maldito entendimento cuspido pela lógica, retrocederemos a exatos cinco anos, quatro meses, 3 horas e 5 segundos, quando nosso protagonista projetou sua mão com intensa violência nas delicadas maçãs-do-rosto de sua namorada, fazendo-a cortar o ar e estatelar-se absurdamente no chão, enquanto os dois sorvetes que ela segurava voaram de suas mãos, formando um balé glicótico aéreo, até se encontrarem no mesmo chão. Definitivamente ele não havia gostado do sabor do sorvete que ela havia escolhido pra ele, que pela milésima vez ela insistiu em dizer que era seu preferido, e não era. Como todos ainda estavam no estado da não-reação diante daquele ato grotesco e merecível de punição severa, tratou de ir-se embora, antes que alguma daquelas criaturas resolvesse tomar as dores de sua, agora ex-namorada, recém agredida, pós-sorridente e é claro, nitidamente inchada, com os olhos borbulhando de lágrimas. Já há algum tempo, diga-se que desde que ele começou a ter discernimento das coisas, não queria viver no mundo, e aquele ato apenas foi a gota d'água. Passeando mais ridiculamente pela linha que se chama passado, poderemos encontrar nosso amigo na última cadeira das salas das escolas do mundo que ele havia passado. Poderemos vê-lo comendo sozinho em qualquer lugar, andando sozinho na rua, mas não porque era feio, ou porque pessoas não gostam de caramujos em carapaças de tartaruga, mas sim porque caramujos não gostam de pessoas. Poderemos vê-lo em casa o tempo todo, poderemos vê-lo em qualquer lugar onde não houvessem reuniões ou pessoas conversando, poderemos vê-lo onde eu quero, adicionado à sua imaginação. E todos esses clichês isolacionistas, que mesmo sendo literais, acontecem, e muito. Ele era assim mesmo, não porque quero, mas porque era assim. E pronto. No caminho pra casa ele teve realmente a certeza de que alguma coisa estava errada, não com ele, mas com as pessoas, e decidiu então não mais se comunicar com seres humanos.

III - Porta
Em casa, recolheu alguns alimentos, colocou em seu frigobar e trancou a porta do quarto. Ainda havia só uma tranca nesta época, mas já era alguma coisa. Tomou um demorado banho, e já podia sentir o certo inchaço em sua mão esquerda, e bateu com a esquerda porque foi verdadeiro. Começou então a projetar mentalmente sua casa, o lugar onde ele realmente não falaria mais com ninguém. A fase dois. Na terceira hora após o momento zero ter começado quando ele trancou a porta do quarto, seu primeiro dia de pseudoclaustro desmoronou com três batidas na sua porta. Seus pais. Ele ainda não havia pensado nisso. Consternado pelo ato que ele teria que executar, levantou-se mui ruidosamente, na verdade o rapaz definitivamente estava embrutecido, caminhou contando os passos para a porta, colocou sua mão direita na maldita maçaneta, hesitou ainda por mais de um minuto, mas as insistentes e progressivamente intensas batidas de seu pai na porta, o fizeram decidir por abrí-la. Como o óbvio sugere, abriu-a, e com cara de vegetariano que comeu cachorro-quente, disse compassadamente àqueles seres estáticos em corpo e alma parados à sua frente: - Eu conversarei algo importante no jantar com vocês dois. E fechou a porta, já não tão compassadamente. Voltou a trancar a porta. A sensação era indescritivelmente boa. Sempre gostou de trancar coisas ou seres ou a si. Quando criança prendia gatos em uma antiga maleta do seu pai, queria que todos os seres fossem iguais a ele. Prender, trancar, impedir, limitar, libertar. Que lindas palavras. Agora ele se prendia para se livrar, para se libertar. Lembrou por um segundo do que havia feito a algumas horas. Não se arrependeu, e pior do que ter feito o que fez, foi não ter se arrependido, muito pelo contrário, regozijou. Sua mão esquerda doía, mas era só sua mão. Só sua mão doía, deu pra entender?

IV - Jantar
O jantar estava à mesa. Porco. Porco. Três porcos, apenas um servido. E do porco ele só comia a maçã. Juntou-se à reunião suína, não como Lobo Mau, mas como um garoto com certa necessidade de comer, mas mais de falar do que comer. Os pais não pareciam muito apreensivos, nem curiosos, talvez até já tivessem esquecido, mas ele estava lá para ser pela última vez, um elemento ativo. Esperou que eles comessem o porco, tirou uma fatia pra ele e a maçã, e só comeu a maçã. Depois do ato, disse de sua nova e permanente convicção para os agora reativos pais. Olhos esbugalhados, onomatopéias femininas de espanto pra lá, onomatopéias masculinas de grosserias pra cá, e enquanto isso ele mostrava aos pais calmamente um papel com um esboço de como teria que ser a porta, já anteriormente descrita, e de seus planos para nunca mais se comunicar com ninguém além deles, além do pedido da cópia da chave deles e explanações de como iriam se comunicar, o tal criado-mudo, quando necessitassem. E isso ele só faria em casos de extrema necessidade, até que eles se acostumassem completamente a não mais trocar uma palavra com o aspirante a ponto. Os porcos já haviam se transformado em leões selvagens, ratos hipócritas e babuínos territorialistas em poucos momentos, e despejavam violências verbais para ele, e logo ele que queria tão pouco. Não ia matar ninguém, nem roubar, nem sorrir para. Pelo visto ele não poderia contar com a ajuda dos pais. Foi para o quarto, de castigo, e o que ele queria na verdade era ficar no quarto sempre, mas foi mandado para ele porque não podia.

V - Pulsos
Entrou no quarto, abriu a gaveta, som de gaveta abrindo, armou-se de um antigo estilete, quase som da lâmina saindo do receptáculo do estilete, sentou-se na cama de mola, som de mola pressionada, e cortou o pulso esquerdo, depois o direito. A dor era fina, mas profunda, e ele gostou de sentir aquilo. A vantagem de se cortar os pulsos é que é silencioso, mas em compensação suja muito e demora-se para morrer, o que pode causar a falha na tentativa de suicídio e gerar a expressão "ele tentou se suicidar", que é a maior frase sobre pseudofugas já inventada pela humanidade. Ou se morre ou não. O tiro é mais eficaz, mas barulhento, para quem quer chamar atenção pode ser interessante realmente. Mas ele fez de forma diferente. Ele queria aproveitar o ato, por isso uma lâmina caiu bem. O sangue caía. Não cortou profundamente, por isso, quando acordou pela manhã, já estava em um hospital com os pulsos devidamente costurados. Se fosse uma pessoa popular ele teria que agüentar a maldita frase, a tal do "ele...", mas como não era... Não se lembrava de nada e fazia talvez a mesma cara de não-entendimento que aquele que lê faz agora. Ou sei lá. Eu também vou parar de me comunicar com quem nem existe, porque isso já está me incomodando. Mas como eu dizia acordou no tal hospital. Estava meio sujo, os entre-dedos dos seus pés assinavam embaixo a tal assertiva. Ao lado uma carta. "Meu filho, nosso amor, espero que estejas bem, no final do dia viremos te visitar. Aceitaremos suas exigências. Com amor, papai e mamãe". Dava quase pra sorrir lendo aquilo. Ele quase sorriu mesmo. De verdade. Saiu no mesmo dia do hospital. A mãe havia insistido para ele ficar apenas porque achou que ele estava muito magrinho e com cara de doente esses dias, e pediu para os médicos deixarem-no tomando um pouco de soro na veia. A tal noite veio e seus pais foram pegá-lo no hospital. Abraçaram-se amareladamente, a mãe com lágrimas de vidro e o pai com cara de mães com lágrimas de vidro. Nada foi dito no caminho. Barulho dos carros, do trânsito apenas. Tudo iria dar certo. Tudo certo na fase um.

VI - Voz
Passava os dias trancado. Ainda abria a porta. Ainda concedia. Precisava comer, precisava do quarto limpo. Mas não mais usava a voz. Só abria a boca para escovar os dentes, hábito cada vez menos freqüente. Até para sorrir era de boca fechada. Quando queria algo deixava um papel no criado-mudo do corredor para que seus pais o lessem, como previamente combinado. Seus pais ainda tentavam insistir para que ele desistisse da idéia maluca. Ele em resposta dizia, na verdade escrevia que iria realmente conseguir o que fracassara da última vez. Depois da milésima vez eles desistiram, afinal de contas eles nunca o amaram tanto mesmo, e a comunicação se dava de forma lenta. Como ele só saia de madrugada conversas que levariam minutos às vezes levavam semanas, e por falta de paciência dos pais as conversas sempre terminavam meio que pela metade mesmo. O pai tentou colocar uma psiquiatra na casa, mas não adiantou. Disfarçou-a até de empregada para que pudesse entrar no seu quarto, enquanto ele já munido do confortável baú, colocava-se nele para esperar a limpeza terminar. Em vez disso, ela se sentou em sua cama e ficou olhando para o baú. Ele podia ver pelos buraquinhos. Ela estava sentada à cama, se preparando para falar, as mãos se atritando, em sinal de aviso que a profissional iria entrar em ação. Ela ia se comunicar. Ela ia abrir a boca para falar com ele. Nunca em sua vida o desespero o tomou de forma tão concentrada. Não podia sair dali, mas não poderia ouví-la falar. Rapidamente virou-se e apertou as almofadas contra seus ouvidos e começou a gritar, para que o som da sua voz fosse a única que ele pudesse ouvir. Gritou estupidamente por minutos sem parar. Deu certo, primeiro porque a psiquiatra percebeu que não adiantaria tentar falar naquela situação, depois que ela não falava alto mesmo, e o dinheiro que ela receberia não seria o suficiente para fazê-la se esgoelar. Foi embora. Outras tentativas sucederam, todas fracassadas, até que ela não quis mais o cliente do baú. Depois de um mês, a porta nova ainda não havia sido colocada e um ultimato foi escrito, dando o prazo de dois dias para que fosse colocada e se eles tentassem mais uma vez fazê-lo desistir da idéia, certamente alguma coisa desagradável iria acontecer. A chantagem emocional funcionou. Foi colocada dentro do prazo, e com o tempo eles desistiram de tentar alguma coisa. Apenas se adaptaram à idéia. Afinal de contas não era tão ruim, ele estava lá, vivo e com saúde, sem se drogar, se sair pra beber. A mensalidade da universidade não precisaria ser mais paga. Não havia mais familiares para dar satisfação. Ele nunca teve amigos mesmo. A namorada ligou ainda uma vez para tentar contato, mas em vão. Essas coisas assim. Será que a voz da médica era bonita?

VII - Cimento
Alguns meses se passaram, e com a nova porta, a comunicação foi cortada quase totalmente. Sem tv, sem telefone, mas ainda vozes, mas ainda passos, mas ainda vibração. Ele vira e mexe ouvia a voz de alguns dos seres daquela casa, e isso realmente o irritava. Em uma noite acho que alguém estava com insônia ali. Ouviu passos a noite toda, passos que se aproximavam de seu quarto e se afastavam, às vezes passos que não se ouviam, os mais angustiantes. Quando não se ouve os passos não se sabem onde estão os pés. Perdeu o sono e as madrugadas se tornaram mais intranqüilas desde então. Mentalizava sua casa mais pelas horas da noite, e precisaria se apressar para sair dali. Em uma tarde, que não era noite, terminou o acabamento do telhado. Pronto, depois de anos, cada detalhe da casa de de seus sonhos estava perfeitamente delineado em sua mente. Decidiu finalmente fazer o dito das primeiras palavras. Colocou no criado-mudo, que falava mais do que qualquer pessoa na casa que ele iria embora, e a verdadeira felicidade só viria com a solidão total. Estar só entre paredes onde além delas há outras pessoas é estar junto delas e com o cimento. Estava na hora de se mudar, mas antes ele precisava sonhar.

VIII - Lar
Afundou-se na cama e sumiu dali. Mergulhou tanto que apareceu no chão da casa que ele havia projetado todo este tempo. O piso era bonito, não tinha lajotas nem carpete. O teto era bonito, não tinha lâmpadas ou ventiladores. A parede era bonita, não tinham reboco ou tinta. Ele era bonito, pois tinha tudo. Um bom lugar para se morar.

IX - Doce
Sem janelas. Sem portas, mas o clima era bom. Frio em todo aquele compartimento. Não havia paredes porque era um compartimento circular. O teto era vermelho, sem forro, telhados vermelhos. A cama ficava no meio, e um tanto quanto distante dela um chuveiro normal, nada de mais. Em uma parte da parede um escrito em tinta negra dizendo : cozinha, e uma seta para baixo indicando outra palavra: comida, onde havia uma caixa sempre cheia de comida. Passou o resto dos seus dias comendo arroz e tomando banhos vez por outra. Uma vida doce. Perfeita. Quando acordou decidiu pedir novamente para morar sozinho. Já tinha um lar para imaginar durante o dia e enquanto dormisse, mas precisava realmente de silêncio. Fase dois completada.

X - Morde
Eles aceitaram seu pedido, queria se mudar. Muito ilógico, mas interessante isto. Eles aceitaram. Foi só para dar continuidade mesmo a história, já que nada coerente iria explicar a atitude dos pais de lágrimas de vidro, bem que eu tentei. Mudou-se para um casa totalmente isolada de tudo. Uma espécie de sítio onde o portão de entrada ficava a 100 metros da casa. O combinado era que todos os dias os pais deixariam a comida em uma caixa no portão, em determinada hora, que ele iria buscá-la um tempo depois. Nos primeiros dias foi maravilhoso. Ninguém, só barulho de pássaros, e com pássaros ele não se incomodava. Saia da casa meia-hora depois do horário combinado e sorrateiramente se aproximava do portão para ver se seus pais estavam lá lhe esperando. Não aconteceu. Comia feliz, dormia feliz. Existia feliz. Uma vez por semana uma caixa com roupas limpas eram colocadas lá, mesmo ele não precisando disso, já que andava nu o tempo todo, e quando todas as roupas já haviam sido entregues a ele e roupas novas não apareceram mais, esta caixa deixou de ser colocada. O ato diário de pegar a comida agora era rápido, o medo de ver seus pais sumiu, já que eles nunca esperariam mesmo, e ele o fazia quase correndo. Mas um dia resolveu ir devagar e aproveitar um pouco a luz do sol. É engraçado como a ausência de um fato ruim nos faz crer que somos imunes a ele. Aquele que nunca foi agredido é imortal. Chegou no portão e pegou a comida. Desta vez, e unicamente desta vez, percebeu que do outro lado da rua, entre as árvores comuns, havia uma bonita macieira, e com frutos quase maduros. Ele nunca havia visto uma maçã em uma árvore. Muito bonita. Vermelhas. Todos os dias passou a ficar mais tempo olhando pra macieira. O ato que levava minutos agora levava horas. Que belas eram aquelas maçãs, e mesmo com o passar do tempo, algumas caíam, mas outras já tomavam o lugar. Era um espetáculo. Aquelas maçãs balançando com o vento. Vermelhas. Já nem comia direito. Começou a deixar comida no prato. Definitivamente emagreceu naqueles meses de observação, e ficou mais queimadinho também, quase bonito o rapaz, não fosse o sujo do corpo e o péssimo hálito de quem não abria a boca o dia todo. Vermelhas. Em um desses muitos dias, sentado observando a árvore, ele viu cair uma maçã. Mas foi mais que isso. Ela não caiu simplesmente, ela deslizou pelo ar, desprendeu-se do galho gerando um som que ele quase ouviu, para cair levemente nas folhas ao redor no chão. O som que ela fez ao cair no chão foi incrível, foi então que ele se sentiu muito mal mesmo, uma sensação péssima passou por sua cabeça, nunca havia ocorrido. Ele pensou em tocá-la. Ele pensou em pular o maldito portão e abocanhar a maçã. Levantou-se com enjôo e correndo entrou na casa, vomitando por horas no banheiro. A culpa foi dela. Ele tinha certeza de ter ouvido quando ela caía: - Morda-me. A culpa foi dela.

XI - Espelho
Depois daquele dia de Vômitos e maçãs pedindo para serem devoradas ele não saiu mas de casa. Já não conseguia comer muito mesmo e depois de tão bela fruta, de que serviriam aqueles pedaços feios de carne com folhas de alface? Agora que não comia mesmo. Sem contar que não queria ter que chegar perto daquele portão de novo e sendo assim, não poderia pegar a comida. Tentou no segundo dia andar pelo sítio, diga-se, pela parte de trás do lugar, para ver se encontrava árvores, mas não havia árvores lá dentro. Estava com fome. Definitivamente estava sim, mas não teria coragem de chegar perto do portão de novo. Voltou para casa de costas para a entrada, que ficava relativamente longe dela, como já dito anteriormente uns cem metros, mas ao alcance da visão. Antes de entrar em casa, já com um pé dentro da casa, ele não agüentou e se virou, e mesmo a mais de cem metros de sua boca, ele pode vê-la, e quase senti-la. Correu pra dentro da casa e pôs-se a chorar. As horas e os dias se passaram como sempre, mas não era como sempre. Não gostava mais daquilo, nunca fez sentido, é chato perceber o nunca quando ele é passado, é chato perceber que se jogou uma vida fora, mas afinal de contas, todo mundo joga mesmo, o desagradável é perceber isso. O tempo pesava. Cada segundo doía com o peso do tempo que o próprio tempo tem, e depois de milhões deles, um dia acordou, já praticamente sem forças, olhou para o espelho de metro e meio colocado numa das paredes, e percebeu seu reflexo sorrindo. Olharam-se por horas a fio, e o reflexo resolveu sair dali. Olhou para o magro estabanado no chão daquela maldita casa velha e longe de tudo, que deveria ser um castelo de sonhos, mas na verdade era só aquilo mesmo, atravessou a porta e saiu correndo, colocou-se fora do quarto, primeiro um pé, depois outro, atravessou o portão e mordeu todas as maçãs que haviam na árvore. Mesmo não tendo mais condições para se levantar ou para ver seu reflexo saindo da casa e fazendo tudo aquilo, ele soube que foi isso que aconteceu. Teve certeza, a maior de toda sua vida. Como os reflexos são felizes. Seu último desejo foi ser seu próprio reflexo do desejo.

Andrei Simões tem 23 anos, universitário e escritor, e suporte técnico de uma empresa de Internet, autor de sete livros, dos quais os que considera publicáveis são apenas três: A morte do pensamento, um livro de poesias, imagens tratadas em computador e fotos de estátuas de cemitérios, Zon, contos da não-existência, novela temática doentia sobre Deus e o homem, e o paradoxo da existência humana e A espiral, livro de crônicas ao qual a crônica Compaixão foi retirado.

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