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OS OLHOS DO UNICÓRNIO
ANDREI SIMÕES
21/8/2000
Há 30 dias que eu estava neste projeto, o último. A última escultura, não apenas daquelas que estive fazendo nestes dois anos, mas de toda e qualquer manifestação de arte que eu pudesse criar posteriormente; Aquele seria meu ponto final. Um mês, trabalhando em média 10 horas por dia nela. Sem vida pessoal, sem sorriso, apenas suor, muito suor se mesclando à argila e tudo mais que estava a compor o meu sacramento, a estátua era meu sacramento final.

Minha oficina é quente, e não fiz questão de mudar. Poder sentir a luta, o meu corpo se entregando a todo o momento, perdendo líquidos e se limpando de toda a sujeira humana, é assim que me sinto aqui. Na oficina só eu posso entrar, eu e meu gato. Seu nome é Krimble, e este gato tem algo que não posso explicar. Quando ele entra na sala, é como o rei de todos os povos. Seu olhar de magnitude e sapiência, mas é só um gato com os olhos brilhantes, só um gato rei de todos os povos com os olhos brilhantes.

Apesar do tempo correr em linha, aqui ele era só um ponto pois o objetivo era único. Quando terminar com isso precisarei fazer a barba, compras. Eu preciso fazer a barba. Eu preciso saber se minha mulher precisa de algo.

Quadragésimo sétimo dia. O cuco toca em algum lugar, algum cuco toca em algum lugar. Quase terminado. Quase Findo. Com meu corpo completamente sujo e suado eu ouço o cuco, e me afasto, e vejo o que fiz. A estátua, quase dois metros, um lindo unicórnio. Seu chifre de cobre pintado de dourado, e o corpo de argila. É claro que ainda falta algo. Eu fiz um unicórnio de dois metros de argila com um chifre de cobre pintado de dourado, estou quase pronto para morrer. Já posso parar de ouvir o cuco.

Quadragésimo oitavo dia. Eu olho para a estátua, desço na oficina e não faço mais nada o dia inteiro. Apenas me sento em frente à minha criação, e contemplo os olhos do unicórnio. E quando me dou conta, sinto que os olhos do unicórnio também já há muito tempo me contemplavam.

Quadragésimo nono dia. De alguma forma, estou com uma linda faca nas mãos. De alguma forma, ela está firme e carregada. De alguma forma eu a amo. De alguma forma o unicórnio sabe o que tenho que fazer, e me sorri com os olhos, e eu também sei o que tenho que fazer.

No dia seguinte eu começo a completar a escultura. Gatos quando morrem ficam duros e fedem duas horas após sua morte, muito difícil trabalhar com massa dura. Não iria servir. Eu o corto em alguns pedaços com minha tesoura de podar galhos e o coloco em alguns saquinhos de lixo, depositando em alguma lixeira a alguns quarteirões de casa. Quanto a minha mulher, ela sim seria a matéria-prima perfeita para a compleição da estátua. Tirei sua roupa com uma certa pressa, mas não desesperado, porque seus músculos e articulações já estavam começando a enrijecer. Deitei-a em baixo do unicórnio, virada de frente, entre suas patas, com os braços levemente abertos e as pernas também, em uma posição onírica, naturalmente onírica, e tratei de preparar a argila.

Quinquagésimo primeiro dia. Gastei bastante argila mas consegui cobrir seu corpo completamente. A ferida aberta na altura da virilha esquerda em diangonal até o peito causou uma grande fenda, mais do que suficiente para a retirada dos órgãos principais e para usar o enchimento interno, daqueles que se usa para encher bonecas de pano. Usei um pouco da argila para fechar a abertura e só após isso a cobri com toda a massa. A forma era perfeita, esta realmente é minha melhor obra; um corpo perfeitamente moldado dormindo embaixo de um lindo unicórnio com chifres de cobre pintados de dourado, e a cabeça levamente voltada para o lado, e seu olhar. Finalmente estava pronto, agora eu já poderia conversar com Deus.

No quinquagésimo segundo dia eu fiz a barba.

Quinquagésimo terceiro dia. Reuni as estátuas. Todas as outras dezesseis ao redor da estátua-mor. Lindas estátuas. Todas de argila também. Um gnomo abraçando uma criança aparentemente desfalecida, um ótimo modelo também. Uma fada copulando com um jovem rapaz de quinze anos. Um senhor segurando um relógio cuco. Dois bebês abraçados. Minhas lindas gêmeas. A coleção é realmente de uma diversidade admirável. Duas mulheres beijando o corpo de um coelho sem cabeça. Um pequeno pinheiro, e uma cabeça. Uma cabeça, e um pequeno pinheiro; e outras obras, igualmente belas, quase como vivas.

Algumas horas se passaram. As estátuas são pesadas mas frágeis, por isso tive bastante cuidado em sua locomoção. Depois de todas as estátuas já em suas posições devidas, arranquei-me de minhas roupas e deitei ao lado de minha mulher, com bastante cuidado para não quebrar a argila, e dei um beijo nos brancos lábios dela.

Dormi. Acordei. Levantei-me e vi que era dia, e era verão, uma chuva se aproximava. Fiquei em frente ao unicórnio e fiquei em pé por alguns minutos-sei-lá-o-que-de-tempo, e foi quando ele novamente sorriu, mas desta vez com seus beiços, porque um unicórnio tem beiços, já que um unicórnio não passa de um cavalo de chifre. E então me disse algumas palavras com seus beiços de cavalo:

- Toda divinação nasce de um sorriso, e morre de um beijo. A argila que o permeava começou a rachar, e aos poucos ele estava sendo exposto em sua verdadeira forma. Sua bela cor cinzenta. Sua crina branca e longa, lisa como tudo que é liso tem de ser. Suas patas se moviam levemente, se desgarrando de todo aquele material que o prendeu por dias. Ele veio em minha direção sem pressa, cravando seu chifre de cobre pintado de dourado em meu coração, e eu morri, e daquele momento em diante eu me chamaria aquele que se chama você.

Acordei com barulho de tiros, nada de mais... Apenas uma briga lá fora. O bar onde eu estava era simples, umas 30 mesas internas e ventiladores no teto, nada de ar condicionado. Mas também não era necessariamente um lugar quente, apesar de um pouco esfumaçado pelos cigarros dos senhores que gostavam da combinação de bebida e tabaco presentes neste bar. Na minha mesa mais 3 pessoas, dentre elas eu conhecia apenas uma, e de nome, e de algumas pinturas ou palavras sempre mentirosas.

Eu havia morrido há pouco, por isso estava um pouco indisposto para beber, mas mesmo assim Deus fez questão de pedir mais uma rodada. Não sei quanto tempo estava ali jogando conversa fora, mas sei que demorou até Deus me apresentar os outros na mesa, o que considerei uma certa falta de consideração mas relevei, já que de todos era justamente ele o que estava um pouco mais alcoolizado. Ele finalmente falou com a voz meio enrolada :

- Bem, você aí que se chama você, eu me chamo Deus, como já sabes, e sentado ao meu lado esquerdo está aquele que se chama N'Aton, mas alguns costumam chamá-lo de Johnny, ou Zon, ou Caliistron. Como o outro, ele também tem muitos nomes, mas ainda não é necessariamente uma legião. E abriu um pequeno sorriso irônico com a piada que o que se chama você não entendeu, apesar dos outros terem rido, mesmo que apaticamente. - Ele era eu quando eu era apenas pensamento, continuou tropeçando um pouco nas palavras devido ao seu estado mediano de embriaguez. O que está ao meu lado direito e é meio calado, é uma muda de árvore, que era eu quando eu era apenas um homem correndo ao redor de uma luz azul, quando me dizia busca. E tu, o que se chama você, era eu quando eu era fé.

Com todos devidamente apresentados, a conversa se prolongou e se mostrou bastante interessante, tanto que ninguém notara a aproximação de um bebum do local a nossa mesa. Razoavelmente bem trajado, o que era um tanto quanto dispensável, já que no local todos estavam nus ou sem criar roupas em si, ou mesmo sem corpos. A interessante conversa foi repentinamente cortada pelo bebum de roupa bonita quando gritou já bem próximo de nós e sacando uma arma de seu paletó. -Esta é pelas mentiras! E deu o primeiro tiro. Um estampido seco ecoou pelo bar ensurdecendo aquele que se chama você e fazendo com que ele se jogasse ao chão, reação natural e copiada por quase todos do bar, menos pelos que logo saíram correndo, e obviamente a muda da árvore, que por um problema de constituição natural, se viu obrigado a permanecer imóvel. -E esta é pelo sorriso! E descarregou a arma em Deus, errando logicamente na contagem matemática, já que se referiu a esta, mas meteu pelo menos mais uns cinco tiros no que já era apenas um corpo caído no chão, estranhamente ainda vivo, ainda gemendo, cheirando a pólvora e sangue. O bebum atirador bem vestido chegou perto de Deus e disse sua última frase,

- O diabo senhor Deus, é apenas esse sorriso aqui na minha cara! O diabo é a porra do meu sorriso! E foi embora calmamente, sem ser impedido ou agredido ou ajudado por ninguém.

Aturdido pelo acontecido e ainda meio surdo pelo estampido altíssimo dos tiros, saí imediatamente do local, mas antes olhei para Deus apenas para ter a certeza de que Deus não precisava mais de ajuda, pois já estava completamente morto.

Quando acordei já era quase meio-dia. Esquentei no microondas um pouco do bife que havia sobrado de ontem e o ingeri vorazmente. Ontem à noite mataram Deus. E eu estava presente, mas não fiz nada para impedir. Quando me levantei, após deixar o prato na pia, eu explodi, e no lugar de mil pedaços de carne queimada pelo chão, apenas um lindo pedaço de músculo pulsante e vivo havia sobrado... Uma tira desfiada do que outrora havia sido o meu pênis, espirrando sangue enquanto sorria.

(Este conto é parte integrante do livro Zon - Contos da não-existência. Todos os direitos reservados ao autor).

Andrei Simões tem 23 anos, universitário e escritor, e suporte técnico de uma empresa de Internet, autor de sete livros, dos quais os que considera publicáveis são apenas três: A morte do pensamento, um livro de poesias, imagens tratadas em computador e fotos de estátuas de cemitérios, Zon, contos da não-existência, novela temática doentia sobre Deus e o homem, e o paradoxo da existência humana e A espiral, livro de crônicas ao qual a crônica Compaixão foi retirado.

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