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COMPAIXÃO
ANDREI SIMÕES
14/8/2000
O mendigo mais uma vez bateu à minha porta, como todas as manhãs já há um bom tempo. Sem opções que não ferissem meu pretenso senso de humanidade, tive que me levantar e ir preparar o velho café com o velho pão para entregá-lo em um copo descartável, já que é bonito ser bom, contanto que não sujem nossas louças sagradas e limpinhas. Dei prosseguimento ao ato caridoso e fui lhe entregar a comida. Ele estava lá como todas as manhãs, cada vez mais morto, fedendo a solidão e sorrindo por entre os pelos desgrenhados e sujos daquela cara cheia de podridão.
Eu nunca havia olhado em seus olhos, porque não queria saber da dor dele, minha miopia nunca quis enxergar longe mesmo. Mas hoje ele estava me olhando fixamente e eu sabia disso, pois podia sentir arrepios percorrendo meu corpo e uma estranha sensação de estar sendo ameaçado por aquele olhar fixo. Mesmo não olhando para os olhos do mendigo, os olhos dele me enfrentavam, não com submissão e generosidade, mas com uma ferocidade de inexpressividade muito grande. O sorriso já havia se esvaído daquele monte de entulhos móvel e só restara o olhar. Virei-me e mesmo sabendo que ele continuarva ali fechei a porta e tentei dormir. Claro que não consegui.

Algumas horas depois, no intervalo da minha leitura fui escutar música e olhei pela janela. Ele ainda estava lá, não muito perto da porta, mas uns dois passos dados para trás e ainda em pé, e ainda me olhando ou olhando alguém em mim que eu não conhecia, quem sabe eu mesmo. Aparentei ignorá-lo e fui para o sofá tentar ler um pouco mais. As horas passaram. Ao chegar da tal noite, já cansado de nada e querendo o mesmo ritual de sono histérico de poucas horas, percebi que o maltrapilho ainda estava lá, ainda em pé, ainda olhando para mim. Não havia expressão em seu rosto que possa ser descrita rotuladamente. Era uma porcaria de um rosto sujo me olhando. Não importa de onde eu olhasse, fosse da janela da sala, fosse do quarto, ele sempre estava me olhando, sem virar a cabeça, mas sim o corpo todo. Mesmo incomodado com aquela situação, resolvi desviar meus pensamentos, ou melhor, não pensar muito, só queria dormir mesmo. Na cama rolei bastante e já em hora avançada da madrugada, quando fui tomar um pouco de água, resolvi olhar pela janela e constatei que ele ainda estava lá, ainda em pé, sempre em pé, e fiquei realmente perturbado com aquela visão. Que diabos aconteceu para aquele resquício de ser humano ficar postado à frente da minha casa como uma maldita árvore de lixo? Resolvi esperar até o amanhecer e caso ele ainda estivesse lá eu tomaria uma providência.

Aconteceu o que é o óbvio em uma narrativa óbvia, ao amanhecer ele estava lá ainda, na mesma posição. Falei com ele e pedi para que ele se retirasse, que não haveria mais café a partir daquele dia, e ele nada falou. Na verdade nunca ouvi sua voz, nem sabia se ele falava mesmo ou ouvia, e então gesticulei teatralmente para ele ir embora. fiz isso por vários minutos e nenhuma reação aquele rosto imundo conseguia esboçar, ele só me olhava e me olhava e me olhava. Gritei perto dele e me arrependi rapidamente, pelo péssimo odor que ele emanava. Quase vomitei mas logo me recompus e voltei a uma distância segura. Nada adiantou. Ele não se movia. Ele não se expressava. Ele não não. Retornei furioso e procurei tentar ignorá-lo pelo tempo que fosse necessário. Fui então trabalhar e dar a continuidade a minha maldita vida.

Dias se passaram. Muitos dias e ele ainda estava lá. Sempre me olhando, sempre em pé. Saia para o trabalho e ele lá, chegava e ele lá. Já estava perdendo o sono com aquilo. Por mais que eu me escondesse habilidosamente por detrás da cortina da sala ou viesse agachado para olhar pela janela, ele sempre me achava. Isso continuou por muito tempo e eu não queria mudar minha tática de ignorá-lo, mesmo já tendo chegado a ponto de parar de fazer praticamente tudo o que fazia, que não interessa a ninguém e começado a dedicar progressivamente minhas horas, primeiro as vagas, depois as ocupadas mesmo a tentar entender o porquê daquilo tudo. Eu não sei agora nem dizer na verdade quando isso começou. Só que ele ainda estava lá fora e eu não aguentava mais.

Foi quando, depois de muitas horas sem encontrar respostas, em uma manhã, a milionésima manhã em que ele ficava ali brincando de árvore, e eu sem dormir a um milhão de dias, que eu resolvi ir à cozinha colocar as luvas de borracha anti-queimaduras e finalmente sair de casa para ir a seu encontro. Com as luvas de borracha anti-queimaduras apliquei uma intensa quantidade de força em um empurrão direcionado àquele ser, e foi como empurrar um poste. Ele sequer se moveu. Impossível. Mas sua pele era verdadeira. Não era um boneco. Ele respirava. Ele olhava e ele ficava em pé. Comecei a empurrá-lo novamente, mas desta vez mui avidamente e quando caí em mim eu já estava esmurrando e chutando violentamente aquele mendigo. Nada. totalmente descontrolado enfiei os dedos, que estavam devidamente protegidos pelas luvas anti-queimaduras, em seus olhos. Ele precisava parar de me olhar, ele precisava sair dali. Eu já estava completamente sujo, pois me agarrava a ele e rosnava coisas sem sentido. É bom que fique claro que só descrevo estes momentos porque não sou eu a escrever, e sim o escritor falando sobre mim, senão não teria a mínima capacidade de lembrar destes momentos com tantos detalhes. Alguém poderia me explicar porque não consegui furar aqueles olhos? Eles ainda estavam lá sem dizer nada, mesmo com minhas tentativas de rasgá-los e sentí-los escorrendo pelas minhas mãos... Nada adiantou. Voltei mais uma vez à minha casa e acho que perdi tudo o que tinha e que não interessa que saibam. Todos os dias só saía de casa para bater nele um pouco e mesmo totalmente sem esperança de reação daquela criatura continuei a fazer isso por muito tempo. A cada dia minha mão inchava mais, e eu conseguia adquirir feridas novas, resultado de minhas agressões diárias. Como eu batia nele como crentes fervorosos rezam todos os dias, as feridas ficavam maiores, criando pústulas e pedaços de carne viva maiores e maiores em minhas mãos e pés, pois eu comecei a gostar de chutá-lo descalço, para sentir sua podridão mais de perto.

Um dia, sei lá, mas algo como muitos mas muitos dias depois de tudo ter começado, resolvi variar. Fui à cozinha e voltei com uma faca afiada, própria para tratar peixe. Daí em diante é fácil deduzir. Introduzi aquela afiada faca inúmeras vezes naquele corpo e para minha certa surpresa, dado os estranhos fatos anteriores, ele sangrou sim, coisa que ainda não havia ocorrido, mesmo com tantas agressões. E sangrou muito. Mas nada se ouvia. Nem um gemido, nem um sussuro, nem um pedido de clemência. E muito menos ele caía. Continou ali em pé, jorrando sangue como um chafariz, todo perfuradinho.

Não, ninguém passou por ali aqueles dias todos, a polícia nunca apareceu nem houve gritos de pobres senhoras ao ver aquilo. Não havia mais polícia, não havia mais pobres senhoras. Ninguém viu e jamais verá algo assim. Sentei-me no sopé da porta e descansei. O sangue parou de jorrar dele depois de alguns minutos. E eu estava mais sujo que ele. De sangue e daquela podridão que seu corpo armazenou, quem sabe durante semanas, meses, anos, pois não me lembro de ter tomado banho ou comido ou ter feito qualquer coisa normal desde que tudo começou. Meu corpo arfava e pedia descanso, mas continuei sentado. Resolvi então olhar para ele como ele me olhava. A essa altura já não se fazem mais necessárias descrições temporais, então não sei por quanto tempo fiz aquilo, só sei que sua boca se moveu dizendo clara e inexpressivamente, com uma tranquilidade quase budista :

- Você pode arranjar uma cadeira para eu me sentar? Levantei-me dali e fui à sala, peguei uma cadeira da mesa de jantar, passei com ela pelo estreito corredor que levava à porta e coloquei lá fora, ao lado do mendigo, voltando a me sentar no sopé da porta. Ele riu pra mim, longa e copiosamente, mas sem gargalhar, sentou-se nela ajeitando-se confortavelmente, fechou os olhos e morreu.

Andrei Simões tem 23 anos, universitário e escritor, e suporte técnico de uma empresa de Internet, autor de sete livros, dos quais os que considera publicáveis são apenas três: A morte do pensamento, um livro de poesias, imagens tratadas em computador e fotos de estátuas de cemitérios, Zon, contos da não-existência, novela temática doentia sobre Deus e o homem, e o paradoxo da existência humana e A espiral, livro de crônicas ao qual a crônica Compaixão foi retirado.

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