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QUE DROGA DE RELIGIÃO?
FABIO G. CARVALHO
1/1/2006
Em minha coluna para A Barata, comentei indiretamente e de uma forma bem humorada sobre um tópico que sempre me fascinou, religião. Na mesma ocasião, entrei em um outro assunto, que é justamente o tema pertinente a este texto, drogas. 

As drogas e as religiões sempre caminharam lado a lado, não sendo raro as vezes em que um não sobreviveria sem o outro em determinadas culturas. O pensar religioso sempre apoiou seus dogmas no desconhecido, na necessidade de se acreditar, de ver coisas que os outros não vêem e principalmente nas experiências transcendentais, onde a consciência do homem comum alça vôo rumo ao desconhecido, proibido, sagrado ou inexplicável. Entretanto, estas experiências místicas de comunhão com deuses e visitas a santuários celestiais não são facilmente vivenciadas, e é aqui que se aponta a necessidade do ritual e da iniciação. Cada cultura, cada povo, ao longo de sua evolução criou suas próprias metodologias de se alcançar o inatingível, cada qual com seus rituais iniciáticos e seus intermediários entre o sagrado e o profano. E são justamente nestes intermediários que encontramos entre os mais diversos povos o hábito de utilizar substâncias que alteram a percepção do mundo, e a estas, esquecendo os cunhos esotéricos ou a pompa científica, podemos classificar como simplesmente drogas alucinógenas, termo que não contradiz a termologia científica mas fere profundamente a religiosa. 

Esquecendo-se a forma pela qual encaramos o uso destas substâncias hoje e voltando um pouco no tempo, encontramos uma figura importantíssima nesta ligação, o Xamã. Uma mistura de sábio, mágico, curandeiro, profeta e líder, que tinha em seu poder o conhecimento do mundo sagrado, e por isto, detentor de enorme influência no destino individual e coletivo de sua tribo. Cabia ao Xamã não só receber e interpretar as mensagens divinas, mas também, orientar, e por vezes, fornecer o caminho a ser percorrido para o encontro com o sobrenatural, e era através do uso de determinadas drogas naturais que este passeio pelo inalcansável se tornava possível. Principalmente em regiões da Sibéria e na América do Sul, onde alguns Xamãs ingeriam cogumelos alucinógenos para induzir transe e visões. Eles acreditavam que estes cogumelos eram espíritos-guias, e ao come-los, eles absorviam determinadas qualidades dos espíritos. Entretanto, este consumo nunca foi utilizado para fins "profanos", e junto com sua ingestão, vinha antes de tudo, um ritual e uma circunstância especial para o consumo. Como exemplo desta importância do ritualismo podemos observar o tratamento dos índios Ianomâmis, da Amazônia. Estes índios, assim como todos os Xamãs, devem receber um árduo treinamento antes de finalmente manipular as forças espirituais. Esta preparação envolve jejum, celibato de mais de um ano de duração e inalação de substâncias alucinógenas em pequenas doses enquanto recebem ensinamentos sobre os hábitos, canções, atributos, preferências e aversões dos espíritos que o iniciado deseja incorporar. Os Ianomâmis chamam estes espíritos de Hekura. E quando o Hekura finalmente é atraído para o corpo do Xamã, ele recebe os poderes mágicos de cura e até mesmo o poder de enfrentar espíritos opositores, enviados por inimigos.

Em tribos do Congo e do Gabão, é comum o uso da ibogaína, extraída da casca da raiz da planta Tabernanthe iboga, em rituais religiosos de caça e de iniciação sexual. Esta droga se ingerida em altas quantidades provoca alucinações. Em concentrações menores, os nativos a utilizam como anestésico e remédio.

É fácil encontrar nas tribos nativas da Amazônia cultura semelhante desta visão de drogas como intermediárias do divino e sobrenatural, mas não somente as tribos indígenas, pois, há reminiscências deste hábito até mesmo nas "sociedades civilizadas". Na própria Amazônia iniciou-se um processo moderno de xamanismo com o consumo do chamado chá de Yagé, que é o nome de um cipó natural de toda região amazônica, desde o Brasil, estendendo-se por Colômbia, Bolívia, Peru e Venezuela. A bebida também é conhecido como Ayahuasca, Hoasca, Caapi, ou ainda como 'Vegetal' pela União do Vegetal ou 'Daime' pelo Santo Daime. E é justamente deste chá que se tratava a coluna citada no início deste artigo.A Ayahuasca vem sendo utilizada há milênios pelos povos indígenas da região. E segundo os mesmos, "A proposta básica destes e de diversos outros grupos é atingir o autoconhecimento através de experiências de tipo místico-espiritual, onde por meio de visões e estados de expansão da consciência chega-se a um estado de integração total com o cosmos, com a natureza e com o Criador." É importante lembrar que hábitos parecidos já foram evidenciados desde os Vedas que há 3.100 a.c. já praticavam rituais onde comungavam uma bebida conhecida como "Soma" e entre os índios do norte que utilizam para despertar a clarividência momentaneamente uma planta mexicana chamada "Peyote", que segundo alguns historiadores trazem este hábito dos próprios Astecas. Mas as raízes do consumo de "ervas e cogumelos" provavelmente remontam há ainda mais longe. Já que com a descoberta da agricultura durante o período neolítico (9000 - 500 a.C.), as plantas adquiriram um papel central na vida do homem. Graças às plantas, a vida humana deixou de ser nômade e exclusivamente dependente das forças da natureza, quando provavelmente iniciou-se o processo que culminaria nas tentativas de se conhecer o desconhecido e na posterior criação de Deus e da necessidade dos intermediários para alcança-lo.

Tempos depois, já na época dos grandes Impérios, não havia distinção entre a técnica médica e a magia, e assim, tudo que fosse capaz de modificar os estados de ânimo era considerado um sinal do divino. As plantas capazes de proporcionar tal efeito passaram a ser tratadas pelos sacerdotes como "enteógenas", ou seja, aquilo que engendra Deus dentro de si. Deste período, as drogas mais usadas eram as sedativas (entorpecentes), como o álcool, o ópio e as plantas anticolinérgicas. Mas havia também neste período, o consumo de drogas alucinógenas, como os cogumelos, que possuíam baixa toxicidade e grande atividade visionária, capaz de produzir um transe capaz de possuir o divino e não ser possuído por ele. O Bacanal é um exemplo do uso de drogas que intermediavam a comunhão com o divino. Quando os gregos interrompiam suas atividades e se entregavam a festas voluptuosas para comemorar a colheita da uva e agradecer ao deus do vinho, Baco, a chegada da bebida. Esses rituais, que permitiam aos homens um sobrevôo pelo mundo dos deuses através do consumo do vinho. Foi somente com o advento das religiões judaico-cristãs que o uso de drogas para fins místico-religiosos entrou em desuso, pois a partir daí, a crença passou a girar em torno de um único Deus. Não cabia neste novo sistema de crenças a reencarnação, o contato com espíritos, ou o uso de ervas, costumes preservado nas velhas religiões que deviam perecer para o triunfo do Deus único.

Mas assim como os antigos deuses, o consumo das drogas como ponte entre os mundos não desapareceu, e enquanto o homem não aceitar que NÃO precisa de intermediários e encontrar por si mesmo as respostas que precisa sobre este e o outro mundo, ela continuará presente em nossas vidas, seja através de rituais de iniciação ou simplesmente tentativas de fugir da realidade.

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