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JOGOS DA VIDA
FELIPE CERQUIZE
30/7/2008
Da primeira vez, eu estava parando numa esquina, conversando comigo mesmo sobre o inexorável destino de um dia ter de morrer. Por que morrer? Onde morrer? Quando? Enfim, fazia-me mil perguntas, que refletiam bem o meu estado emocional naqueles dias da minha vida. De repente, chegou para perto de mim um senhor de cabelos grisalhos, que dizia ser representante da morte. Gelei. Como pudera aparecer uma pessoa do nada, dizendo-se representante daquilo que mais me afligia naquele momento? Fiquei estupefato, mas nem tive tempo de externar sentimentos. Apertamo-nos as mãos friamente e, com uma voz monocórdia, o indivíduo começou a falar:
-Há algum tempo já o acompanho. Sei que você tem medo de quem me mandou. Infelizmente, você está próximo do seu fim. No entanto, as regras permitem a todos uma chance, antes do veredicto, e você também a terá.
Apesar de trêmulo, ainda tive forças para perguntar para aquela concretização dos meus pesadelos sobre o tipo de chance que pensava em me dar.
-Jogaremos uma partida de xadrez. Se ganhar, continuará vivo. Porém, se perder, você terá de ir comigo.
Tendo dito aquilo, pediu-me para que eu o acompanhasse. Meio entorpecido, segui o sujeito até que, algum tempo depois, estávamos num lugar escuro e quase que totalmente vazio. O homem acendeu uma luz, que ficava próxima de uma mesa com duas cadeiras. Sobre a mesa, um tabuleiro de xadrez com suas peças. O que me chamou a atenção foi o fato de cada pedra estar rotulada com um nome diferente do normal. As torres tinham o nome de resistência, os cavalos de desigualdade, os bispos de religião e os peões de pobre. No rei e na rainha, liam-se, respectivamente, opressão e liberdade.
Armado o tabuleiro, sorteamos a saída e começamos a partida. O jogo foi bastante sistemático. Cada um mantendo sempre a opressão ao lado da desigualdade, com a liberdade relativamente vigiada. A primeira jogada perigosa se deu após um bom tempo de jogo. Foi quando ele, com a desigualdade, atacou um pobre que estava um pouco mais adiantado, conseguindo tirá-lo da partida. Imediatamente, consegui dar o contragolpe, utilizando a resistência para dar um xeque. E assim foi até que, no final, a vantagem era minha. Fiquei com cinco pobres, uma resistência, uma religião, a liberdade e a opressão, enquanto ele só ficou com uma religião, uma desigualdade e dois pobres, além da opressão, é claro. Numa jogada sensacional, dei um xeque com a liberdade, ao tempo em que ameaçava a religião. No final, para ele, só sobraram a desigualdade e a opressão. Em três lances, liquidei o representante da morte criando jogadas ofensivas com a liberdade e com os pobres, das quais não havia como escapar. Xeque-mate. Eu estava livre para viver.
Dali para frente, vários outros jogos surgiram na minha vida. Não se via como praxe a fatalidade iminente, mas, de cada um que eu participava, saía com o sentimento de mais uma etapa vencida. Apesar de nem sempre ganhar, para mim, invariavelmente, ficavam as lições de mais um aprendizado.

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