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BLUES NA INGLATERRA
LUIZ CARLOS MACIEL
1/1/2006
Foi a decadência do rock'n'roll, em fins dos anos cinqüenta, que o transformou em música pop. Não se tratava mais de uma manifestação específica do que se poderia chamar de cultura jovem, mas de mais um produto colocado no mercado mundial, em pé de igualdade com os grandes lançamentos da canção popular norte-americana tradicional. Com uma diferença, porém: a música pop mostrou ser, de imediato, um fenômeno multinacional, favorecido pela crescente facilidade nas comunicações que passa a caraterizar a época, e permitindo uma manipulação mais eficiente do mercado, sem diferenças nacionais e regionais. Foi assim que, ao contrário do que acontecera nos cinqüenta, o rock dos sessenta não foi mais uma criação exclusivamente norte-americana, mas um fenômeno novo, com suas origens nos dois lados do Atlântico.

Os dois grupos que anunciaram a ressurreição do rock'n'roll ao mundo, isto é, que estabeleceram as bases do rock revolucionário dos sessenta, os Beatles e os Rolling Stones, são ingleses. De fato, enquanto os businessmen das grandes gravadoras traçavam seus planos comerciais nos escritórios de Nova York, foi principalmente na costa oeste dos Estados Unidos, na Califórnia, e do outro lado do Atlântico, na Inglaterra, que o beat do rock reencontrava os caminhos de uma criação musical com força e originalidade. Pode-se mesmo datar o nascimento da nova explosão e das novas formas que haveria de produzir, na gravação do primeiro disco dos Beatles, no outono europeu de 1962.

Este foi um fenômeno curioso e que merece ser estudado. A Inglaterra não dera, até então, nenhuma contribuição importante à música popular do século XX. Suas baladas folclóricas, em estilos que sobreviviam do século XIX, não possuíam modernidade suficiente para um amplo apelo popular e só mais recentemente têm sido valorizadas e atualizadas pelos grupos ingleses de rock contemporâneo. Nos anos cinqüenta, haviam surgido artistas ingleses de rock'n'roll (Tommy Steele, Terry Dene, Bill Fury, Adam Faith, Cliff Richard), mas nada que pudesse ser comparado a, digamos, Elvis ou Chuck Berry. Música popular "inglesa" era uma coisa que não passava pela cabeça - e nem pelos ouvidos - de ninguém. O fato de que a Inglaterra tenha, no começo dos sessenta, se transformado em novo berço do rock'n'roll, tem motivos de ordem econômica, social e política. Esses motivos determinaram o interesse pelo blues - inicialmente o blues primitivo e, em seguida, o rhythm and blues eletrificado - que passou a dominar os jovens músicos ingleses no começo dos sessenta. Musicalmente, foi sem dúvida nenhuma esse insólito florescimento do blues negro na Inglaterra branca, que deflagrou todo o enérgico movimento inglês que haveria de se estender pelos anos que se seguiram.

A revolução do rock inglês, europeu, começa portanto com uma volta às raízes americanas, negras. Charlie Gillett, em The Sound of The City, observa que desde a década de vinte, havia um público minoritário na Inglaterra interessado nas formas mais antigas da música negro-norte-americana. Esse público sempre se sentia atraído por aquele estilo negro que saía de moda nos Estados Unidos. Isso aconteceu principalmente com o jazz: sempre que uma nova escola jazzística substituía uma mais antiga no mercado americano, eram os ingleses que se preocupavam em preservar e cultuar esta última: jazz de New Orleans, Dixieland, Chicago, swing, boogie woogie, big bands, bop, hard bop, cool - todos esses estilos conquistaram admiradores ardentes na Inglaterra, assim que perdiam interesse para público norte-americano excitado por novidades mais frescas.

O gosto e o interesse pelo blues, na Inglaterra, surgiu e cresceu em função desse fenômeno. Muitas bandas de jazz tradicional foram formadas por músicos britânicos, que cultuavam principalmente os estilos mais antigos - New Orleans, Dixieland, no máximo Chicago - , nos quais a forma clássica do blues é fundamental. Entre essas bandas estavam a de Humphrey Lyttelton, Ken Coyler (que, inclusive, estragava propositalmente a qualidade de seus discos para ficarem mais parecidos com as gravações mecânicas, pré-elétricas, dos pioneiros do jazz, no começo do século XX), Kenny Ball, Acker Bilk e Chris Barber. Enquanto um Coyler, por exemplo, mantinha-se num purismo rígido, baseado nas velhas gravações americanas, Barber, um ex-trombonista seu, adotou uma orientação, valorizando cantores americanos negros, de blues, que continuavam em atividade e foram devidamente importados. Além dos números instrumentais, sua banda freqüentemente acompanhava artistas como Bill Broonzy, Roseta Tharpe, Sonny Terry e Brownie McGhee, Louis Jordan e Muddy Waters.

A presença de Muddy Waters, tocando guitarra elétrica com a banda de Barber, numa excursão realizada ainda em 1957, provocou o protesto dos tradicionalistas e inaugurou uma cisão nos meios ingleses de blues. Os puristas preferiam a instrumentação jazzística tradicional, os músicos mais novos foram imediatamente atraídos pela guitarra elétrica de Waters, dando origem ao moderno rhythm & blues inglês. Em 1960, Barber juntava a formação típica de New Orleans de sua banda um grupo de r&b que reunia a cantora Ottilie Patterson, Alexis Korner na guitarra e Ciryl Davies na harmônica. Eles tocavam apenas alguns números no final das apresentações de Barber mas agradaram o suficiente para que Korner e Davis decidissem, em 1962, a formar sua própria banda. Tiveram também de abrir seu próprio clube noturno (os outros, dominados pelos puristas, não admitiam o pecado de tocar blues com guitarra elétrica...). A 17 de março de 1962, a Blues Incorporated estreou no Ealing Rhythm And Blues Club, com Davies (harmônica e vocal), Korner (guitarra), Keith Scoot (piano), Andy Hoogenboom (baixo), Charlie Watts (bateria - depois Rolling Stones) e Art Wood (vocal). Foi uma noite histórica.

Daí em diante, os grupos de r&b ingleses se multiplicaram e novos músicos despontavam. Na Blues Incorporated, tocaram ainda o saxofonista Dick Heckstall-Smith, o pianista Johnny Parker, o baixista Jack Bruce, o baterista Ginger Baker e o cantor John Baldry. Entre os freqüentadores mais assíduos do Ealing R & B Club, estavam Brian Jones e Mick Jagger. Quando Davies deixou o grupo, organizou outro, com John Baldry nos vocais e Nicky Hopkins no piano. Os novos que iam aparecendo estavam predestinados a um sucesso que não foi alcançado pelos pioneiros como Barber, Korner, Davies ou Baldry. John Mayall surge com seus Blues Breakers, apresentando solistas na guitarra que estavam fadados ao estrelato, como Eric Clapton, Peter Green e Mick Taylor. Outros guitarristas como Peter Green, Stan Webb, Terry Reid e Alvin Lee mostravam que dominavam o estilo urbano de bluesmen americanos como B. B. King, Albert King ou Freddie King. Outros grupos, tocando blues (Chicken Shack, Savoy Brown, Fleetwood Mac, Bakerloo Blues Line), também deram sinal de vida. Entre eles, dois foram decisivos para a grande explosão do rock dos sessenta - o Cream, com Clapton, Baker e Bruce, e last mas naturalmente not least, os Rolling Stones, com o antigo freguês Mick Jagger cantando ao microfone, num estilo nitidamente criado a partir dos grandes vocalistas negros americanos.

Talvez falte ao blues inglês a mesma intensidade emocional do original negro americano: trata-se, afinal de contas, de um produto de segunda mão, sem a mesma espontaneidade, a mesma autenticidade. Mas isso importa pouco, se se considerar que esse blues foi, acima de tudo, a pedra angular para uma manifestação musical nova. A maioria dos críticos concorda que uma das principais contribuições foi no sentido de uma destreza técnica maior que ampliou os recursos de linguagem para o rock contemporâneo. Os longos solos, o virtuosismo do solista, o sentido de exibição individual trazido do jazz para o rock e a conseqüente maior liberdade para a imaginação do músico, foram algumas das principais caraterísticas do blues inglês que foram incorporadas, de maneira definitiva, pelo rock contemporâneo. Isso foi possível graças ao capricho técnico dos jovens músicos ingleses. Pelo menos, no sentido puramente formal. Quanto ao conteúdo, ao espírito dessa nova música, seria preciso falar do ambiente revolucionário, não só político como psicológico, em que ela surgiu.

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