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WOODSTOCK, O FILME
LUIZ CARLOS MACIEL
1/1/2006
Há duas coisas curiosas em relação ao fenômeno de Woodstock e a tudo que se relaciona com ele. A primeira é a marca do novo, a capacidade para arejar o espírito das pessoas, mostrando-lhes, com tranqüila clareza, um campo amplo e novo de possibilidades existenciais. A outra talvez seja menos significativa mas é mais intrigante. Tudo em Woodstock parecia obedecer a algum plano misterioso como se tudo o que aconteceu precisasse obrigatoriamente acontecer sem possibilidade de erro. O filme de Michael Wadleigh, finalmente em cartaz na Guanabara (ano de 1971), é um espelho luminoso dessas inegáveis vocações de Woodstock.

Reparem bem: não poderia haver teste mais nítido e decisivo, para os objetivos da grande reunião, do que aquela chuva que caiu no segundo dia. A garotada chegara ao festival às centenas de milhares, com a descontração e a alegriade um piquenique gigantesco, sem um único incidente grave. Derrubara as cercas de arame e transformara o festival num espetáculo gratuito, sem um único incidente grave. Sabia que, em conseqüência, o espaço, a água, a comida, as instalações sanitárias, a assistência médica, etc., tornaram-se escassos e insatisfatórios, sem que isso provocasse nenhum incidente grave. As pessoas começaram a se maravilhar com o milagre quando veio o teste que haveria de confirmá-lo.

Sim: a chuva poderia - mais: deveria - estragar tudo. Imaginem meio milhão de pessoas desprotegidas num descampado, perdidas num mar de lama pra valer, debaixo de água, raios e trovões, sem ter para onde fugir ou se abrigar, a façam seus cálculos. No filme, você pode sentir quase fisicamente o pânico e a tragédia pairando sobre as cabeças das crianças de Woodstock, entre as nuvens negras da tempestade, enquanto protegem o equipamento de som e os auto-falantes transmitem instruções à multidão. Um acidente grave com alguma das torres, um momento só de terror entre a massa, um incidente insignificante poderia acender o estopim e provocar uma explosão de conseqüências imprevisíveis. A tensão se acumula em cada plano; o desastre e a desolação parecem iminentes.

Nada aconteceu. Ou melhor: o que aconteceu foi uma surpreendente vitória da serenidade e da alegria do ser humano sobre os fantasmas hostis que ele se acostumou a ver nas forças da Natureza. Esses são, para mim, alguns dos momentos mais belos do filme. Alguns se protegem com pedaços de plástico. Outros, porém, aceitam abertamente a chuva e a lama - e a assumem. Cantam e dançam numa batucada fantástica criada com latas vazias e pedaços de pau; tiram a roupa; deslizam na lama, num tobogã fantástico...Em vez do pânico, a brincadeira.

Já se tornou inútil, porém, falar de Woodstock e seus significados. No filme, a multidão derramada pelas colinas sugere um novo Sermão da Montanha, o momento irrepetível de fundação de uma nova maneira de viver para o homem contemporâneo. Woodstock estabeleceu o momento da decisão - e estava fadado a isso. Reparem como a equipe de Wadleigh se aproxima, como nenhuma outra até hoje, do ideal inutilmente perseguido do cinema-verdade. Como regra geral, as entrevistas do cinema-verdade nunca atingem a espontaneidade imediata que procura. A presença da câmara, dos microfones, etc., é suficiente para uma cisão insuperável do real. Os entrevistados se contraem e passam a falar condicionados por ela; uma mise-en-scène artificial brota nessa tensão. Não, porém, no Woodstock de Wadleigh. Os entrevistados falam excepcionalmente à vontade - em especial, as pessoas que são contra. Por alguma razão, os testes tinham que ser completos.

O novo de Woodstock, a um nível puramente cinematográfico, se manifesta na sua já célebre pirotécnica de montagem. A tela dividida já foi usada antes, é claro, mas não com a obstinação de Wadleigh. Ele a usa sistematicamente, das mais variadas formas, inclusive com o emprego de espelhos, num efeito novo inaugurado pelo filme. A sugesta de Woodstock me parece importante para o cinema do futuro feito em tela larga: o filme transforma o espaço cinematográfico. Com todas as revoluções que sofreu, de Eisenstein até Godard, a montagem cinematográfica foi sempre temporal. Sua dimensão própria era o tempo e a moldura da tela conservava sua unidade básica de imagem. Woodstock inventa a montagem espacial e a estabelece como regra. E é justamente aí que os tratados de estética cinematográfica, as gramáticas fílmicas, etc., se machucam com Wadleigh. A unidade da moldura se fraciona em duas, três, quatro imagens que são montadas, também, na direção horizontal, simultânea, do espaço. Esteticamente, esse dado é da maior relevância. Todos se lembram de Calder, o escultor americano que, segundo Sartre, veio desmentir, depois de séculos, o Lacoonte de Lessing, criando uma escultura móvel. Wadleigh nada nas águas de Calder. Derruba a temporalidade absoluta como categoria estética da montagem cinematográfica da mesma maneira que Calder derrubou a imobilidade como categoria estética da escultura.

Mais importante, porém, do que o próprio saque formal de Wadleigh são as razões que o determinaram. Os objetivos de sua pirotécnica de montagem são os mais elementares possíveis: fornecer a maior quantidade possível de informações e obter variação visual nos números musica,s em que os intérpretes ficam mais ou menos no mesmo lugar, diante dos mcrofones, no espaço relativamente exíguo do palco. A sofisticação que Wadleigh acrescentou a essas necessidades é ingênua ao ponto da infantilidade - e é justamente aí que reside seu valor: Wadleigh brinca com seu meio de expressão, criando cores, formas, caleidoscópios, etc., muito no estado de espírito de uma criança que brinca com as cores. As variações não são determinadas por nenhuma outra razão senão o próprio prazer lúcido em utilizá-las. Fora do jogo que instauram, são perfeitamente gratuitas e arbitrárias. Esse jogo, porém, leva a criações fantásticas como a apresentação de Alvin Lee e seu Ten Years After, possíveis talvez unicamente em função do arejamento de espírito que presidiu sua criação.

Nesse sentido, Woodstock, o filme, utiliza um dos seus segredos mais importantes da música contemporânea do rock em particular e da contracultura em geral. Em todos os casos a criação se alimenta do ABC de cada linguagem, de seus elementos mais primários e triviais, de seu lixo desprezível. As guitarras elétricas improvisam sobre dois acordes de blues e essa simpoicidade harmônica serve de mero veículo para sua insólita sonoridade. Da mesma maneira, toda a arte de Wadleigh se resume ao truque, ao macete óbvio, ao jogo. Mas essa inocência colorida é o meio de expressão do espírito primitivo e descansado de Woodstock, o espírito de uma nova cultura - talvez, por ora, mais pobre, mas mais livre.

É evidente que o abundante material recolhido - cerca de oitenta horas de filme e não sei quantas de som - foi selecionado e arrumado com competência. Wadleigh procura assumir o ponto-de-vista do documentarista imparcial. Sua obra não tem exortações, defesas, explicações ou críticas e se carateriza pela ausência de qualquer narração off colocada a posteriori, o que introduziria uma nota subjetiva no objetivismo radical que o filme pretende. A câmara registra a alegria das pessoas mas também suas dificuldades nos postos médicos; enfatiza o esplendor dos seus momentos de exaltação mas não nega o lixo acumulado no fim da festa; mostra adultos que simpatizam com os garotos mas também deixa falar os que resmungam com ódio e irritação. De certa maneira, Wadleigh tem confiança cega no acontecimento Woodstock e na fidelidade de seu registro. Ele simplesmente sabe que os espectadores compreenderão toda a extensão do que se passa na tela sem necessidades de maiores explicações. Os que não compreenderem, os que forem incapazes de captar o sentido do recado, os insensíveis, esses - raciocina Wadleigh - permaneceriam insensíveis de qualquer maneira. Em matéria de atitude política, Woodstock acredita plenamente no seu próprio poder mágico, capaz de tocar, comover e transformar as pessoas sem precisar forçar barra nenhuma para isso. Está tudo lá na tela, as opções são claras - e compete a cada espectador tomar a sua própria decisão.

Além de sua correção documental e de seu tranqüilo, tácito desafio, Woodstock naturalmente pretende ser, também, o que o acontecimento original tinha a intenção de ser: um divertimento adequado à Idade de Aquarius. Estamos aqui a anos-luz de qualquer pretensão séria, artística ou cultural. O problema é apenas o de se divertir; a arte vem por acréscimo, como um luxo produzido pela saúde e pela exuberância ou uma graça excepcional que não era necessária mas é bem vinda: Naturalmente, o desfile de artistas é da pesadíssima, com momentos excepcionais de Richie Havens, Joe Cocker, Ten Years After, Santana e Sly And The Family Stone. Correm, apenas, o perigo de ser um pouco esquecidos pelo espectador porque o final do filme mostra Jimi Hendrix no ponto mais alto de sua arte e de sua beleza pessoal. Seus olhos transmitem uma estranha serenidade e ele manipula a guitarra com uma simplicidade inacreditável. As pessoas se surpreendem ao vê-lo na tela: se esperavam um demônio, encontram um anjo doce e generoso. Na sess em que assisti ao filme, a garotada que enchia a platéia bateu palmas ao ouvir os primeiros acordes de "Purple Haze".

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