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O ROCK E EU
LUIZ CARLOS MACIEL
1/1/2006
Deixem me contar um pouco de minha vida.

Ao contrário do que possa parecer aos que sabem do meu interesse pelo rock dos 60, o surgimento desse interesse foi bastante tardio. Ele não foi despertado pela explosão dos Beatles, Rolling Stones ou mesmo Bob Dylan, ainda na primeira metade dos 60, mas bem posterior, mais próximos aos anos finais da década, quando os artistas citados já eram grandes superstars e a vaga que haviam levantado já se transformara no maremoto cultural de que, hoje, temos plena notícia. Reconheço que devo ter sido bem lento em reconhecer as coisas, um caso um tanto constrangedor de percepção retardada, mas, se o erro é um momento de verdade, como quer a dialética, é possível também que os aspecos mais falhos de nossa apreensão da realidade tenham seus inusitados aspectos positivos - fazendo-nos, por exemplo, ver melhor o que demoramos a ver. A pressa é inimiga da perfeição, o que às vezes faz da preguiça e até da simples estupidez inesperadas amigas de sábia paciência.

Pois é: não me liguei de cara no rock moderno. Tinha a impressão de que não passara de uma elaboração um tanto afetada, mas mais aguada, menos vital, do rock'n'roll dos 50.

Este último, sim, havia sido anos antes uma das fascinações mais intensas de minha adolescência. Lembro que comprei, com o sacrifício de cinemas, cigarros e coca-colas, o primeiro LP (importado) de Elvis que chegou por aqui. Assisti No Balanço das Horas e todos os outros filmes da época que tinham rock'n'roll, não sei quantas vezes. Tinha todo o Bill Halley que saíra no Brasil, em LPs de 10 e 12 polegadas. E Little Richard. E Chuck Berry. E Gene Vincent etc.. Foi uma música que encheu minha adolescência de ritmo, mexeu com meu corpo e excitou a minha alma com seus desafios, sua petulância e seus ares de rebeldia. Blusões de couro, James Dean e rock'n'roll eram a minha trip na época, podem crer.

Depois, tudo passou.

Um timing aparentemente estranho, mas natural, sincronizou a decadência do rock'n'roll com minha entrada na chamada idade adulta. À medida que eu ia completando o ginásio e o científico, tirava título de eleitor, prestava o serviço militar, podia entrar em boates sem medo do Juizado de Menores, etc., Elvis Presley se adocicava, Bill Halley desapareceria, Little Richard parava de cantar e as gravadoras deixavam de editar os velhos rockers, substituindo-os por coisas comerciais como The Platters e Bobby Darin e similares que, para ser franco, nunca me disseram nada. Eu crescia na Idade das Trevas do rock e ele foi se tornando, cada vez mais, uma coisa do passado.

Musicalmente, meu coração abandonou por inteiro o velho amor decadente e se entregou, com novas forças, que tinha por mais maduras, ao jazz. Este parecia mais satisfatório, sob todos os aspectos: tinha uma força expressiva mais intensa, parecia mais completo tanto musical quanto emocionalmente, era ao mesmo tempo intelectualmente mais sutil e tinha mais sangue. Em suma: era mais completo.

Envolvido pelo famoso esnobismo jazzista, o homenzinho que despontava do adolescente passou, inclusive, a desprezar um pouco - isto é, bastante - a paixão musical deste último. Rock'n'roll havia sido coisa de garoto sem as devidas luzes, uma bobagem. O desprezo foi suficiente para me fazer perder os velhos discos: devem ter ido parar em lojas de discos usados e, de lá, só Deus sabe onde.

Não senti sua falta. O que iam me interessar aqueles cantores sem nuances, os ritmos quadrados, pesados, duros, as harmonias pobres, as melodias primitivas e os solos de sax e guitarra sem a menor imaginação, principalmente se comparados com o trabalho dos melhores jazzistas? Esse julgamento formal acompanhava, naturalmente, a nova sedução por sons abstratos e cerebrais enquanto o corpo se tornava rígido e mesmo a rebeldia passava a assumir a forma contraída de teorias e formulações racionalistas.

Foi assim que comecei a navegarno mar agitado da décad de 60: insensível e racionante, um aspirante a intelectual sem nenhum swing. Mas esse mar preparava suas surpresas.

Já disse que atravessei mais ou menos incólume a famosa explosão dos Beatles e Rolling Stones. Eles excitaram minha curiosidade, é claro, mas mais a minha curiosidade jornalística do que musical. Em que pese a inegável sedução de suas imagens, seria difícil, na época, que eu tirasse do toca-discos um LP de Miles Davis ou Charles Mingus ou John Coltrane para escutar um Help ou OUt Of Out Heads. Estes últimos discos traziam uma música ainda humildemente apegada à terra, enquanto eu já andava por altas estratosferas sonoras. Mesmo quando o caso era escutar alguma coisa mais leve, eu era bem mais chegado a um Gerry Mulligan, por exemplo.

Aqui embaixo, entretanto, eu começava a mergulhar numa grande crise, dilacerante e pluridimensional - crise pessoal e política, afetiva e cósmica - , que ameaçava me fazer perder o pequeno lugar no mundo que racionalmente - quer dizer, insensatamente - eu tentara assegurar para mim. Os meados da década dos 60 trouxeram em seu bojo, na verdade, um verdadeiro terremoto, difícil de ser atravessado para quem tinha uma mente tão organizada e um corpo tão contraído como eu tinha.

O que posso dizer sem entrar em detalhes mais íntimos e capazes até de ferir meus naturais pudores?

Uma coisa, por exemplo: dei para beber demais.

Outra: deixei de gostar de música, até o jazz.

Este enveredava pela apocalíptica fragmentação do free jazz, uma fragmentação que - bem observada - correspondia a uma fragmentação geral de toda a cultura ocidental, um processo que alcançaria o seu clímax em 1968, ano da "morte da cultura", como dizem Julian Beck e Judith Malina. Embora eu não tivesse, ou mesmo não pudesse ter, clara consciência disso, a crise pessoal tinha uma correspondente planetária. A crise era a morte iminente de todos os valores estabelecidos - o que, na verdade, apenas anunciava a grande transmutação que estamos vivendo hoje - e atingiu a todos nós, individualmente, soubéssemos disso ou não. E quando a mente organizada é sacudida, o corpo rígido também é ameaçado.

Os trabalhos subterrâneos da psique finalmente afloraram à minha superfície pessoal, numa certa tarde de verão, dentro de uma loja de discos, onde eu procurava o fundo musical para um espetáculo de teatro e onde escutei, pela primeira vez, um disco de Jimi Hendrix.

Para meus efeitos pessoais, a audição daquele disco, o fundamental Electric Ladyland, foi a declaração de uma revolução cultural extremada. Aquele som era, ao mesmo tempo, a síntese da dilaceração dos tempos e a indicação, a abertura, para o futuro, através da liberação de novas energias. Eu estava sendo finalmente confrontado com o rock dos 60, na plenitude de seus poderes.

Não cabe aqui fazer o elogio de Hendrix - e, mesmo que eu quisesse fazê-lo, por certo me faltariam as palavras. Mártir e profeta, seus discos revelaram finalmente, em toda a sua extensão, as transformações inusitadas na ebulição da década. Tem um caráter nítido de revelação - não só nas letras, vocalizadas em novas e quietas intensidades, e não só no trabalho penetrante de sua guitarra, mas em toda a exuberância de seu som. Hendrix é a mais luminosa comprovação contemporânea do dito de William Blake: A Exuberância é Beleza. E a Beleza, digo eu, é a primeira porta que se abre quando as coisas ficam demasiado difíceis.

Electric Ladyland e Smash Hits, ambos de Hendrix, foram os primeiros discos de rock contemporâneo que comprei. Eu os toquei durante meses a fio, todos os dias, de uma maneira sôfrega e praticamente incansável. Toco-os até hoje, perplexo e feliz. Tal perserverança, vista retrospectivamente, ganha para mim as dimensões de uma verdadeira ioga musical, através da qual velhos e resistentes condicionamentos começavam a ser abalados. Hendrix assestava seus poderosos golpes nas muralhas rígidas de um sistema nervoso sufocado pelos condicionamentos de uma cultura que se revelava, afinal, um equívoco lamentável, uma adoração da morte. Se algo, então, mudou radicalmente em minha vida, devo-o a várias coisas, e Jimi Hendrix foi, sem dúvida, uma delas.

Conquistado,seduzido por Hendrix, eu agora queria mais - e, desde que a mente se abrira um pouco, e o corpo se tornara um pouco mais flexível, e ambos abandonavam um pouco as velhas teorias e as velhas poses, mais me foi dado. Ainda tenho os poucos discos que vieram, logo a seguir, apoiar o trabalho de Hendrix em mim. São coisas bastante esquecidas, hoje em dia, talvez menos vigorosas, coisas que talvez não tenham tido a mesma capacidade de deixar sulcos mais fundos na abstrata estrada do tempo. Mas tiveram o seu papel, como se diz, histórico.

Um disco que eu tocava muito era o In-a-Gadda-Da-Vida, do Iron Butterfly; outro que me despertou minha curiosidade foi a Missa em Fá Menor, dos Electric Prunes; meu favorito, porém, foi Eric Burdon Declares 'War' - no qual uma das faixas, "I have a dream", narra uma experiência de morte e ressurreição, fornecendo assim uma imagem clara dos processos que eu e tantos, tantos outros começavamos a viver.

Depois desses, vieram ainda mais discos: uma série de três LPs, Underground Explosion, que me colocou em contato com grupos e artistas como Ginger Baker's Air Force, Jack Bruce, Taste, John Mayall, Blind faith, Cream, The Who, Beast, MC 5, Yes, Delaney & Bonnie, Allman Brothers, Cold Blood, Fleetwood Mac, Neil Young, Frank Zappa e os Mothers Of Invention e muitos, muitos outros. Feita essa iniciaçã, eu já podia caminhar sobre minhas duas pernas no mundo do rock: não estava mais engatinhando.

Daí por diante, posto que meu interesse na verdadeira vida renascera, meu interesse pela música em geral também renasceu. E desde que a verdadeira vida, quando realmente vivida, nos cumula de presentes e dádivas, o ítem seguinte que surgiu foi nada menos do que o álbum de Woodstock, com três LPs que traziam para as devidas apresentações, ou um conhecimento mais íntimo, nomes como Butterfield Blues Band, Canned Heat, Joe Cocker, Country Joe & The Fish, Crosby Stills Nash & Young, Richie Havens, Jefferson Airplane, Santana, Sly & The Family Stone, Ten Years After etc.. A esta altura dos acontecimentos,eu já estava em plena viagem no mundo maravilhoso do rock.

A década dos 60 assistiu a um fenômeno de dimensões psicológicas, sociais e culturais que nenhuma teoria fôra capaz de prever. De maneira espontânea, quase súbita, a juventude dos países industrializados, em particular os anglo-saxões, começou a negar todo o modo de vida ocidental, abandonando suas tradições tidas como mais firmes e contestando quase todos os seus valores, mesmo os mais sagrados. Nossa civilização viu-se, assim, repentinamente diante da possibilidade de uma mudança radical de rumo, promovida exatamente por aquele setor da população supostamente destinado a manter tais tradições, respeitar tais valores e assegurar a sobrevivência desta cultura no futuro, isto é, a juventude de classe média. E a música foi o seu principal meio de expressão e veículo de comunicação. Novas culturas nascem sempre como música e como poesia, assegura Nietzsche, e foi assim que nasceu o rock contemporâneo.

Nos Estados Unidos, o processo de robotização e desumanização do ser humano parecia ter atingido o seu auge em fins dos anos 50. As engrenagens do controle e manipulação social pareciam funcionar, finalmente, como uma máquina sem falhas - e a melhor sociologia americana da época já denunciava o caráter social teleguiado que se formava no país. Os extremos, entretanto, não só se tocam como se convertem um no outro - o que constitui o motor de toda a dialética. Assim, a extrema manipulação deu origem à mesma liberdade das novas gerações. O rock'n'roll, a música da juventude par excellence, chafurdava no pântano da comercialização. Em consequência, os jovens americanos começaram a ser atraídos pelo country & western, como demonstram os nomes de Woody Guthrie e Pete Seeger, e pela poesia beat (Allen Ginsberg, etc.) que florescera nos círculos boêmios e literários durante a década anterior.

Os jovens universitários americanos deixaram a barba crescer, compraram um violão e cantavam folk songs. Bob Dylan foi o produto natural dessa mudança de condições, que também deu origem à New Left e a agitações políticas em praticamente todo campus universitário norte-americano.

Dylan alcançou um sucesso fulminante, não só como artista, mas também - ou principalmente - como porta-voz e líder de toda uma geração. Considerado o poeta máximo da protest song, ele impressionou o público e outros compositores com a qualidade excepcional de suas letras - a princípio, de um fio político cortante e, a seguir, de uma riqueza e colorido de imagens já classiicada de "surrealista", mas sempre de alta categoria poética - , que influenciaram não só os Beatles, como praticamente todos os letristas do rock. Musicalmente, seu interesse pelo rock elétrico foi uma das principais fontes do moderno folk rock.

Enquanto se verificava o processo de politização da juventude americana e da ascensão de Dylan, o rock'n'roll ressurgia com ímpeto inesperado na Inglaterra - como "uma bomba de efeito retardado", nas palavras de Roberto Muggiati.

Em Liverpool, como consequência disso, estudantes de nível superior, oriundos das classes trabalhadoras (e favorecidos pela socialização da educação determinada pela legislação trabalhista), escolhem o rock'n'roll como porta de acesso ao mundo da cultura ocidental, dando assim - provavelmente sem ainda o saberem - o primeiro passo para a sua renovação radical.

Cálculos modestos dão conta de cerca de 350 grupos de rock'n'roll em atividade em Liverpool, nos primeiros anos da década de 60. Eles criaram o chamado "som de Liverpool" (*) - versões juvenis do rock americano, notadamente o dos 50, produzidos pelos negros - , e dois deles, pelo menos, iriam alcançar em pouco tempo um sucesso internacional sem precedentes, modificando de modo profundo não só a música popular, mas todo o estilo de vida do Ocidente. Os Beatles e os Rolling Stones, com efeito, parecem ter encarnado as duas forças primais - Yang e Yin; Apolo e Dionísio; Dia e Noite; Céu e Terra - que haveriam de engendrar toda a convulsão cultural que caraterizou os 60.

Os Beatles foram um verdadeiro laboratório de influências e pesquisas que vão da eletrônica à canção folclórica, dos ragas indianos às mensagens existencialistas de suas letras, que comunicam uma visão filosófica do desconcertante cotidiano existencial, na segunda metade do século, em LPs que se transformaram em marcos históricos como Rubber Soul e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, que praticamente inaugura a era do experimentalismo eletrônico na música popular contemporânea. Os Stones, por sua vez, menos sutis e mais intensos, se caraterizam pelo poder do beat, as tonalidades negróides firmemente enraizadas nos blues e a violência, tanto de seus temas quanto de suas apresentações ao vivo. Os Beatles, portanto, eram experimentais, requintados, detalhistas, arty; os Stones, enraizados na tradição negra, básicos, intuitivos, dionisíacos; aqueles cresciam dentro de um estúdio, elaborando técnicas e truques, e estes nas apresentações ao vivo, como uma desreprimida força da natureza.

Pode-se dizer que apenas dez pessoas - Dylan, os quatro Beatles e os cinco Stones - , nos dois lados do Atlântico, iniciaram uma verdadeira revolução cultural. Eles foram seguidos imediatamente por legiões cada vez maiores de músicos, poetas, artistas de diferentes setores e feiticeiros de variados matizes e graus de evolução e conhecimento. Reunidos em grandes festivais (Monterey, Woodstock, Ilha de Wight etc.), revelaram já somarem centenas de milhares, ainda na segunda metade da década de 60; hoje, hão de ser certamente milhões vivendo em mágico segredo em todos os países do Ocidente (ou serão do mundo?), industrializados ou não.

Já em meados da década, dois centros de irradiação da nova cultura estavam praticamente estabelecidos; um na Califórnia, nos Estados Unidos (em especial, a cidade de San Francisco, cujas tradições inconformistas remontam aos beats dos 50), e outro em Londres, austera e tradicional cidade que virou, por artes mágicas, a grande lançadora das modas pop, nos 60. A expansão da consciência, que intelectuais como Allen Ginsberg, Timothy Leary e Ken Kesey preconizavam na Califórnia e que se travestia de cultura pop em Londres, era o fundamento de todas as energias novas que se apresentavam no palco da história ocidental: ela negava, em bloco, toda a cultura tradicional - literalista, racionalista, discursiva, verbal - como produto de um estado inferior, contraído, da consciência; e apontava para uma nova cultura, livre e dionisíaca, imaginativa e fundada na experiência direta, sensorial, do mundo e da vida- e, portanto, anterior às suas traduções verbais, essa fraude do pensamento que escravizou o homem ocidental à neurose.

No plano musical, a nova sensibilidade dionisíaca voltou-se imediata e intensamente para a tradição negra, em particular o blues. O antigo rock'n'roll passava a ser simplesmente rock e se diversificou em múltiplas tendências: na verdade, deixava de ser um simples gênero musical para ser um novo mundo - um universo alternativo, paralelo, cheio de blues por todas as partes, que começava a ser povoado pelos jovens egressos da velha cultura. Descobriam eles que a chamada realidade objetiva não era nem objetiva nem realidade, pois dependia de seu consenso pessoal e podia ser alterada, imediatamente, por um ato interno da vontade. Cabelos e barbas cresciam; as roupas apresentavam-se coloridas e selvagens; os corpos perdiam a rigidez das couraças repressivas e moviam-se dançavam, livres pela primeira vez. Pela primeira vez, uma geração inteira não só reconhecia como assumia em sua vida a magia fundamental da realidade. E verificava que as entonações da música negra eram as entonações da liberdade. Os blues - presentes no trabalho de Dylan e dos Beatles; decisivos no dos Stones - passam a ter uma importância cada vez maior na nova música. Não é nem o requinte experimentalista dos Beatles nem o lirismo penetrante de Dylan que vai dominar o desenvolvimento do rock e formar a espinha dorsal de sua mainstream, mas o blues pura e simplesmente.

Na Inglaterra, os Yardbirds e John Mayall formam os dois núcleos fundamentais do blues inglês, dos quais saíram Eric Clapton e o Cream, Jeff Beck e seus Groups, Jimmy Page e o Led Zeppelin que, juntamente com o Traffic de Steve Winwood e o The Who, de Pete Townshend, são as principais expressões do rock inglês que procuraram desenvolver o blues. Nos Estados Unidos, a revalorização inglesa do blues teve um efeito duplo; por um lado, estimulou o aparecimento de jovens músicos brancos, vindos principalmente do Sul do país - Johnny Winter, Paul Butterfield Blues Band (onde Mike Bloomfield tocava), Allman Brothers etc. - , com estilos que são uma evolução do velho R & B negro; por outro lado, voltou a prestigiar os antigos criadores do R & B, que vieram, assim, a conquistar nos 60 o público branco que o rock'n'roll havia roubado uma década antes. Este processo deu novas direções às carreiras de artistas como Muddy Waters, B. B. King, Howlin' Wolf, John Lee Hooker, Albert King, Freddy King etc. - que começaram, inclusive, a se apresentar e a gravar com jovens músicos brancos.

Foi, entretanto, um jovem negro, cuja formação musical havia sido feita no R & B negro e cujo tino existencial se ligou profundamente à expansão da consciência iniciada pelos jovens universitários brancos, quem criou a gradne síntese musical dos 60, elevando o rock às mais vertiginosas alturas artísticas e abrindo de maneira decisiva os caminhos do futuro.

Em Jimi Hendrix se realizam as núpcias entre as duas forças primais do rock: ele une a cultura negra, de raiz dionisíaca, à cultura branca, de índole apolínea, realizando a fusão entre blues e rock'n'roll, entre o instinto vital da origem africana e a sofisticação eletrônica criada pela tecnologia branca. Quando Hendrix deixa Nova York e voa para Londres, onde organiza um trio - o Jimi Hendrix Experience - com dois jovens ingleses, o baterista Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding, ele estabelece um poderoso ponto de confluência do blues da tradição negra americana e o novo blues inglês, numa síntese superior entre o R & B, o pop e a experiência da expansão da consciência. Anos após sua morte, o alcance global de sua arte ainda não foi superado - ou mesmo sequer igualado, embora haja equivalentes de sua visão globalizante, na Mahavishnu Orchestra, por exemplo. Ela só pode ser comparada ao de outra grande morta, Janis Joplin, também cantora de blues; mas a arte de Joplin, apenas uma vocalista, não tem a extensão da de Jimi, compositor, letrista, cantor, guitarrista, arranjador e, principalmente, inspirador e profeta. Em tudo, e não apenas como instrumentista, ele foi uma figura de exceção.

Janis nasceu no Texas mas esteve ligada ao rock de San Francisco, cidade que, como a Liverpool inglesa, assistiu, de meados da década em diante, a uma grande proliferação de grupos e tendências, desde o conjunto em que primeiro ela trabalhou, o Big Brother and the Holding Company, até o rock latino de Carlos Santana, com seus ritmos dançantes e sua variada percussão. A tendência mais típica do rock de San Francisco, porém, doi para o chamado acid rock, que procurara, através da criação de espaços musicais amplos e abstratos, o emprego de estranhas sonoridades, reproduzir aspectos auditivos, climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica. Os grupos mais famosos dessa audaciosa aventura do rock são o Jefferson Airplane e o Grateful Dead, cujos membros ainda ficaram conhecidos, fora dos palcos e estúdios, por seu pioneirismo existencial, na procura de um novo estilo de vida. Os Dead eram, inclusive, o grupo de rock dos célebres Merry Pranksters, grupo de hippies que, liderados pelo escritor Ken Kesey, percorriam os Estados Unidos, em meados da década de 60. Eles foram assim os principais divulgadores do ácido lisérgico e suas alegadas virtudes terapêuticas, além de criadores de um estilo de rock inspirado na experiência libertadora da droga. Seu líder, Jerry Garcia, é o grande guru psicodélico da cena musical americana.

Na Inglaterra, o LSD também influenciou a criação musical, rompendo barreiras e estruturas que haviam se petrificado e perdido a flexibilidade. O acid rock inglês, ou head music, começa com o Pink Floyd, ainda sob o comando de Syd Barrett, e se apresenta mais experimental e instigante do que o americano. Embora possamos apontar um predecessor importante em Third Stone From The Sun, de Hendrix, é praticamente o Pink Floyd, com seu importante LP duplo, Ummagumma, um marco histórico, que estabelece os fundamentos da nova escola. Ela haveria de originar grupos como o Yes, KIng Crimson, Moody Blues, Jethro Tull etc., que são crescentemente influenciados pela música erudita européia. O processo é uma das primeiras tendências definidas da chamada terceira geração do rock e acaba por desembocar na tentativa de uma fusão entre rock e música clássica, que se apresenta como uma das direções dominantes dos anos 70.

(*) Também conhecido como Mersey Beat, ou seja, a "batida do Mersey", alusão ao Rio Mersey que percorre a área de Liverpool. (Nota do Editor)

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