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A ERA DA DECADÊNCIA
LUIZ CARLOS MACIEL
1/1/2006
A explosão do rock'n'roll, em meados dos cinqüenta, foi um fenômeno que se desenvolveu à margem dos esquemas que dominavam, na época - como dominam até hoje - o mundo do rádio, discos e show business. Foi obra de uma minoria desprezada, formada por artistas até então obscuros e de prestígio escasso em face da estética musical vigente e por um público adolescente que ainda não entrava nas cogitações dos grandes donos do negócio musical. Disc-jockeys de algumas estações de rádio sem maior importância e pequenas companhias gravadoras criaram, então, uma despretensiosa infra-estrutura para a nova música - e a novidade surpreendente que ela revelou foi a existência de um novo público de adolescentes, apaixonado pela energia rude e primitiva desses artistas obscuros, um público que logo mostrou ser suficientemente volumoso e fiel para, afinal, captar a atenção das grandes companhias.

A explosão, em suas caraterísticas originais, foi uma febre violenta mas que durou pouco, como costuma acontecer com febres violentas: apenas alguns anos, a rigor de 1953 a 1958. No final dos cinquenta, o mercado adolescente já era uma realidade nítida para a chamada Máquina. A consequência inevitável foi que a criação espontânea e vigorosa dos artistas que inventaram o rock'n'roll passou a ser substituída, em escala cada vez mais ampla, por produtos pré-fabricados, programados por encomenda, para o consumo, pelos businessmen que controlam as fontes de produção da música chamada popular. Como também parece acontecer sempre, o comércio não só dominou como esvaziou e adaptou aos seus próprios interesses o que havia se apresentado como uma genuína - isto é, espontânea, não-programada - revolução cultural. O que restou desta última foram as férteis sementes que haveriam de frutificar em nova explosão, ainda mais violenta e febril, a do rock dos sessenta. Daí em diante, a História parece se repetir, mutatis mutandis.

O círculo vicioso é a maldição de uma cultura, como a nossa, dominada pelo mecanismo neurótico da compulsão para a repetição, segundo observou Norman O. Brown. As revoluções acabam servindo de pasto para as instituições cristalizadas pela tradição; as vanguardas são, com o tempo, devoradas pelas academias. Trata-se de uma doença de nossa cultura ocidental, organizada e racionalizante, e para ela ainda não se descobriu remédio. O destino das vanguardas minoritárias e marginais é o de serem absorvidas pelas instituições estabelecidas e majoritárias, até que Deus providencie a abertura de uma nova brecha, uma nova explosão, uma nova febre - pois o instinto, o grito do Inconsciente que nos botou aqui, pode ser reprimido e mesmo domesticado nas aparências, mas não simplesmente eliminado, de uma vez por todas. O sociólogo Talcott Parsons distingue três momentos no processo:

1) O de exclusão, em que a vanguarda minoritária é mantida pelo Sistema em sua condição original de marginalidade, debaixo das imprecações morais de seus ideólogos mais grossos e das condenações estéticas dos mais sutis ou intelectuais;

2) O de assimilação, em que o Sistema, diante dos fatos da vida - digamos assim - procura uma adaptação superficial aos novos valores, isto é: engana a torcida, para absorvê-los e contê-los; é um momento de euforia ilusória (sucesso, fama, fortuna, etc.) a que os "revolucionários" via de regra sucumbem, pois passam a pensar que já estão com tudo quando, na verdade, começam justamente a não estar com nada;

3) O de inclusão, em que o Sistema, finalmente, tendo absorvido os novos valores, os transforma em função de seus próprios interesses e os coloca a seu serviço. A morte torna-se, então, inevitável e, graças a Deus, com ela, o renascer da febre, um pouco adiante.

O período da história do rock'n'roll que se inicia por volta de 1958 e que se carateriza por esses dois fenômenos gêmeos - a comercialização programada e crescente e a queda de qualidade artística geral, de criação original e espontânea - é um exemplo típico do momento de inclusão de Parsons. O rock'n'roll que, ao explodir, desafiara o american way of life de maneira anárquica e instintiva, passa a ser o seu defensor, o seu porta-voz. Surge, então, o estilo high school, que desembocaria no bubble gum imediatamente posterior, e que o crítico Nik Cohn aponta como uma criação direta dos homens de negócios da classe média branca norte-americana. Com ele, revitalizaram-se todos os mitos de sua ideologia retrógrada e cruel.

O rock'n'roll muda, então, a sua própria natureza. Até mesmo os artistas que surgem são, agora, pessoas inteiramente diferentes. Os rockers originais - Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Bill Haley etc. - eram criadores pessoais e audaciosos, embora sem sofisticação ou por isso mesmo, homens que desbravaram o seu caminho com energia e admirável liberdade de comportamento. Os novos rockers - isto é, os Pat Boone, Paul Anka, Tommy Sands, Ricky Nelson, Fabian, Frankie Avalon, Bobby Darin, etc. - não passam de marionetes nas mãos de produtores e empresários, joguetes da sede por lucro. A música que produziram, embora não deixe de ter muitas vezes toques de genuína graça juvenil e ares de inocência em seu estreito horizonte mental, é basicamente artificial e leva o sentimentalismo açucarado da canção popular tradicional às raias da mera debilidade mental. O jeito de cantar perde o coloquialismo franco e os acentos regionais, que haviam vindo da tradição negra, e os substituem pela empostação limpa e bem educada ao gosto da classe média. As letras abandonam a crueza igualmente franca e realista, em especial no que diz respeito ao sexo, que também veio do negro, em favor de baboseiras românticas, idealistas e, como se sabe, mentirosas, a título de ênfase na "pureza" do amor adolescente. Os sacudidos pequenos conjuntos que, com seu drive e seu swing, eram a própria encarnação do big beat (*), uma outra criação de origem negra, dão lugar aos arranjos escritos para grandes orquestras com cordas melosas e coros de vozes macias. A diluição, o emasculamento e o "embranquecimento" definitivo do rock'n'roll o levam, então, direta e rapidamente à decadência.

Essa decadência ensejou à indústria todos os truques. Cantores sem nenhum talento passaram a ser lançados com grande estardalhaço, sob as bênçãos das pesquisas de marketing. Artistas de cinema, como Tab Hunter, ou mesmo atletas, como Johnny Burnette, viravam subitamente cantores de rock - e gravavam!; inventavam-se crianças prodígio, como Brenda Lee, antecipadora das Ritas Pavones internacionais que não tardariam a surgir; e, finalmente, passou-se ao lançamento sôfrego de uma nova dança, um novo rimo (twist, hully-gully, surf, madison) a cada mês. Esse som, produzido para piqueniques e festinhas de sábado, com adolescentes comportados sob severa vigilância paterna, não tinha mais praticamente nada a ver com o verdadeiro espírito do rock'n'roll, a não ser o nome, a letra, enquadrando-se bem melhor nos quadros da música popular comercial, uma espécie de sucessor menos sofisticado e bem mais primário, tanto musical quanto literariamente, ao som convencional dos Frank Sinatra, Perry Como, etc..

Enquanto isso acontecia, o que era feito dos rockers autênticos? Simplesmente saíam de sena, por artes desfavoráveis do destino: enfrentavam certas barras pesadas, como Little Richard, que sofrera um desastre de avião e, em consequência, decidira dedicar sua vida à religião, ou como Chuck Berry que era preso, por ter seduzido e fugido com uma garota menor de idade; ou ainda Jerry Lee Lewis, por ter se casado com uma prima de doze anos; ou então mudavam de trip, como Elvis Presley, que se transformara sucessivamente em astro de Hollywood, cantor de baladas românticas e soldado do exército norte-americano na Europa; ou se recolhiam por falta de fôlego e renovação, como Bill Haley; ou ainda simplesmente morriam em acidentes, como Buddy Holly, Eddie Cochran e Sam Cooke. No alvorecer dos anos sessenta, o sonho já havia terminado.

A música da decadência foi justamente a que melhor foi distribuída, em escala internacional, pelas grandes gravadoras norte-americanas. Em 1960, ela já inundava as lojas brasileiras de discos, por exemplo. A revolução cultural fôra contida e tal rock'n'roll servia de novo veículo de difusão do american way of life entre os povos culturalmente colonizados. Seus efeitos não tardaram e podem ser vistos no ié-ié-ié desfibrado que haveria logo de surgir na Europa e também no Brasil. Mas isso já é outra história.

(*)NOTA: Esse ritmo big beat em nada tem a ver com o seu homônimo que as gerações recentes conhecem através da música de Fatboy Slim, Chemical Brothers e Crystal Method. O big beat citado por Maciel é um dos muitos derivativos do jazz.
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