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A LIÇÃO DOS ANOS 60
LUIZ CARLOS MACIEL
1/1/2006
A grande lição que se tentou aprender, nos anos 60, foi a liberdade. Verificou-se o seguinte: o que as pessoas fazem socialmente é pura loucura, um escudo usado como proteção contra a verdadeira natureza da realidade, espontânea e incontrolável. As instituições cristalizam essa proteção, para que ela possa ser utilizada pelas massas. Mas não possui nenhum valor substancial. Só pode haver conhecimento de verdade, clareza, quando os escudos são dispensados. Um escudo é útil, como defesa, mas também cobre a visão.

A experiência vital dos 60 foi distorcida, diluída e, finalmente, esquecida nos anos seguintes. Os caminhos da liberdade foram perdidos mais uma vez. O destino do rock é o exemplo típico. Nos 60, era um gesto zen. Submetido à manipulação das gravadoras multinacionais, foi, primeiro, distorcido, isto é, esvaziado de sua inspiração libertária, substituído por uma mímica inofensiva que carateriza, ainda hoje, heavy metal, punks, etc.. A consequência inevitável foi a diluição crescente que acabou por reduzir o rock a mera e pífia música comercial, boa apenas para enriquecer homens de negócios e enganar as novas gerações, coitadas. Esse lance se desdobrou durante os 70, completando-se cabalmente nos 80 (¹), de forma que o rock tem, hoje, todas as bênçãos do sistema. Como disse Rita Lee, o rock era oposição, e agora é governo. Feito o PMDB, trocou os ideais de liberdade pelas vantagens concretas do poder. Os revolucionários do rock foram incapazes de resistir às tentações do vil metal. As leis do mercado se impuseram, sem grande resistência (²). O mundo continua a ser tal qual era: capitalista.

A trajetória, no plano político, foi semelhante. As organizações, ou melhor, as desorganizações políticas, criadas nos 60 e típicas da aspiração libertária - como foram exemplos, nos Estados Unidos, o Youth International Party (Partido Internacional da Juventude) e o White Panther Party (Partido da Pantera Branca) - foram reprimidas com energia, para dizer o mínimo, e acabaram sendo substituídas, nos anos 70, por organizações políticas de tipo cada vez mais convencional, cujo maior exemplo é o Partido Verde.

O rompimento inicial com as instituições foi reformulado, por pressão externa, no sentido de um novo compromisso com essas mesmas instituições. O Partido Verde disputa eleições, cargos, um espaço no Congresso, uma fatia no poder, ao lado do resto dos caretas. A possibilidade de uma alternativa eficiente, que era a intenção dos 60, foi perdida.

O processo foi ainda semelhante no plano religioso, isto é, em relação à busca de amadurecimento espiritual. Nos anos 60, chegou-se perto da verdade básica de que a única religião que pode ser considerada autêntica é aquela que cada um cria para si próprio (³). As instituições religiosas desvirtuam o seu propósito original; as igrejas organizadas são a própria negação do sentido religioso vivo. A anarquia religiosa dos 60 parecia indicar um belo florescimento da descoberta espiritual. Não tínhamos religião, por isso o nosso espírito desabrochava; não tínhamos mestres, por isso todos eram os nossos mestres, principalmente as crianças e os animais.

Nos anos 70, entretanto, o despertar espiritual foi sendo, cada vez mais, canalizado para seitas organizadas (+) e subordinado aos ensinamentos dos mestres que as chefiavam. Em outras palavras: erguiam-se novas instituições religiosas para substituir as antigas que haviam sido rejeitadas nos anos anteriores.

Ainda aqui, principalmente aqui, o medo à liberdade, que parece marcar o ser humano - pelo menos este que conhecemos - , manifestou-se de maneira irresistível. Todos tremeram. Não parecemos ser capazes de prosseguir na busca espiritual sem uma proteção paterna de alguma espécie. O processo também se desenvolveu nos 70, para culminar em padrões rígidos, nos 80. Multiplicaram-se as seitas e os gurus, em razão geométrica, e o que resta hoje, do despertar espiritual, é a mímica externa. A experiência vivida desapareceu.

Em qualquer nível, os três momentos do processo, relacionados esquematicamente às décadas de 60, 70 e 80, aparecem, com nitidez, para o observador. A cronologia não é rigorosa, mas serve como referência. Cada década é um momento do processo.

Ezra Pound disse que há três tipos de artistas: os inventores, os mestres e os diluidores. Algo semelhante pode ser dito em relação às três últimas décadas.

Os anos 60 foram os anos da invenção, da criação original. É por isso, por exemplo, que dizer vanguarda dos 70, ou 80, soa mal: a vanguarda é dos 60. Ou, então, dos 20, que foi outro momento de invenção. Os valores tradicionais são contestados e a liberdade espontânea conquista seu espaço.

Os 70 foram os anos dos mestres, isto é, dos institucionalizadores. As conquistas dos 60 são oficializadas e viram moda, abençoadas pelo sistema. Todo mundo se droga; todo mundo curte rock; todo mundo é místico; o mundo aparentemente mudou e a revolução venceu, isto é, acabou. Esta aceitação enganosa permitiu a diluição, foi o golpe de mestre do sistema no gesto libertário. O sucesso da manobra foi assegurado pela sedução do ego das massas. Todo mundo descobriu a pólvora e, por isso, não é à toa que os anos 70 foram chamados de "a década do ego". Pretensão e água-benta, cada um toma quanto quer. Tomou-se demais da primeira, naqueles anos, toma-se demais, ainda hoje, por inércia.

Os anos 80 são os anos da diluição, em soluções cada vez mais rarefeitas. O gesto libertário perdeu o sentido; a busca acabou; o caminho está fechado. As instituições, velhas ou novas, mostram-se fortalecidas. Voltamos ao que havia antes dos 60, só que pior. O egocentrismo é absoluto; a liberdade desapareceu do horizonte. Não só a Igreja católica e o Partido Comunista, mas todos os grupos humanos - associações, irmandades, seitas - se comprazem em controlar seus membros, que parecem até muito felizes comisso, sem exceção. O conformismo é normal; a moda é ser careta. O indivíduo desaparece; nascem os robês. A vitória do sistema só não é total porque sua natureza é ilusória.

As condições parecem ser suficientes para a primeira aterrisagem pública de uma nave-mãe.

Notas - por Alexandre Figueiredo

(*)Título escolhido pelo site com base na idéia do texto,
originalmente intitulado apenas IX, referente ao capítulo do livro citado.

¹ As diluições do rock atingiram o ápice nos anos 90. Tendências como o poppy punk e o nu metal se juntaram ao poser metal e outras tantas tendências. O comercialismo cada vez mais crescente fez corromper até os conceitos de "boa música", subordinados a uma insossa música romântica produzida nos EUA e Europa e utilizada pelo Primeiro Mundo como uma espécie de narcisismo arrogante da "cultura" promovida pela mídia desses países.

² Hoje o mercado é visto como "norma de sobrevivência" de um artista ou instituição. Se nos anos 80, ser "comercial" era uma ofensa se atribuída a alguém, hoje essas mesmas pessoas que se sentiam ofendidas agora dizem "sou comercial, sim, e daí?". A coisa é tão grave que o número de grupos e cantores, do pagode ao rock, com finalidade comercial premeditada já no seu nascimento, é muito grande. Há grupos que se preocupam em arranjar um bom empresário antes mesmo de fazerem suas primeiras composições.

³ O exemplo disso é a "religião do eu sozinho" promovida pelo escritor beatnik Allen Ginsberg em suas palestras.

+ Exemplos do crescimento de seitas religiosas nos anos 70, muitas delas funcionando na extorsão do dinheiro público por meio de "esmolas" e "dízimos" arrancados dos fiéis, estão nas seitas criadas por Jimmy Swaggart, nos EUA, e por R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus) e Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus), no Brasil. O Reverendo Moon criou a seita Moon, que pregou o suicídio em massa para enriquecer seu "mestre". E Paiva Netto, secretário de Alziro Zarur na Legião da Boa Vontade, ao substituir seu mestre, morto em 1979, construiu sua fortuna através do excedente de donativos feitos à entidade.

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