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ASNONAUTA - O VICIADO AMIGO QUE SE TORNOU UM...
SILAS CORRÊA LEITE
1/1/2006
ELE ERA O MEU MELHOR AMIGO. Bonito rapaz, simpático, educado, inteligente, família rica, fazia amizade muito facilmente, de fácil convívio, sempre companheiro e solidário com todo mundo. No começo queria ser florista ou médico, depois presidente da república, depois astronauta, depois baladeiro ou cantor de rock.

Começou com um cigarro Hollywood (era bonito e chique o maço), sem filtro, e umas caipirinhas aqui e ali com amigos, mais cervejas, aberturas e precipitações de estimas próprias da idade jovial. Sonhava em viajar bastante, conhecer a vida, costurar histórias de aventuras, sacar o mundo, ser poeta, quem sabe até ir até o Nepal ou virar gente de papo cabeça, auto astral, seguro de si, tipo zen.

Saiu de nossa aldeia a Estância Boêmia de Itararé, para aprender lições novas, curtir baratos afins, adquirir experiências mágicas, pintando uma busca de vida para ser feliz, com grande perspectivas de sucesso, fazer seu pé de meia, brilhar na vida, deixar sua marca na história.

Amou e foi amado.

Mudamos de caminhos. O tempo quis assim. Nos perdemos pela estrada da vida. Eu repensei loucuras e caprichei nos estudos, em busca do meu ideal, a minha lenda pessoal, entre elas Ser Escritor.

Soube dele procurando sarna pra se coçar, quebrando a cara, tornando-se arredio. Era muito sensível, tava literalmente "numas". De maconhas, comidas naturebas, químicas experimentais, trilhas e gente da pesada, os seus rebeldes e modernos de ocasião pra consumo. Agrediu familiares. Rifou a vida.

Andou fugido de várias maneiras. Vendeu sua coleção de sonhos impossíveis, trocou farpas e esperanças, montou barracos com autoridades e parcerias, além de ter juntado más companhias, entre tantos manés de percurso, amigos do alheio, amigos de ocasião, interesseiros Amigos da onça. Era um guerreiro em trincheira errada, sem sacar direito lutas íntimas, ou buscar ajuda em quem ocasionalmente o poderia salvar de si mesmo...

Eu era pobre, simples, feio e triste, não tinha direito a errar sob perda de ferrar todo um clã dependente de mim para marcar presença no livro da vida em tempos de vacas magras. Fiquei mesmo só nas cervejinhas em finais de semana. Ele foi experimentar cocaína na terra do nunca, perdendo a ilusão da estrada de tijolos amarelos e o controle de suas estadias e buscas.

Começou a colecionar pesadelos, neuras, depressões do gênero. A família tentou gritar, fazer com que ele pulasse fora daquela canoa furada. Era tarde. Muito tarde. Tarde demais. Ele se achava o dono da cocada preta, o rei dos lances e das espertezas sem pé nem cabeça, com comportamentos que só prestavam pra ele, em atitudes babacas.

Eu me formei com muito custo, tirei a barriga da miséria, reencaminhei parentes e entrei muito nessa força tarefa de sobreviver com as mãos limpas. Lancei um livro de poemas, larguei a farra, ganhei lastro. Ele, na economia informal de fundo falso, caiu perto da marginalidade do contrabando pirata. Quem o viu numa quebrada, teve medo do esqueleto que ele se tornou. Estava perdendo os dentes, a visão já míope, a fé, a moral. Refém de seu inferno particular, de sua marginalidade temporã, seqüestrado pela insanidade de desocupado entre amigos do alheio querendo tirar vantagens.

Viciado barbaridade. E bobo ainda, se achando o máximo. E quase nada, nem ninguém. Na rua da amargura e se julgando o tal, o escolhido, entre restos e lixos. Embarcou numa canoa furada. Ficou acabado. Só vendo pra crer.

Pensara que era o sabichão de sempre, mas não era. Tinha escolhido a via errada para se encontrar consigo mesmo. O gênio se perdera. Era um especialista em escapes químicos sem volta. A pobre mãe morreu de desgosto. Foi repudiado onde tentou se esconder, pois rejeitos sociais não aceitam cacos do espelho. Virou um marginal da periferia descalça. Cadê a inteligência? Deixou de se amar. Perdeu o respeito próprio. Entre bandidos e policiais na cola, virou um banana ou nem sequer isso. Perdeu referências. Apostou errado. 

Começou a apodrecer de alguma forma, Meu Deus! Um dia, uma data ignorada, entre bocas de fumo e válvulas de escapes, ratos, arapucas e esgotos a céu aberto, o acharam ligadão. Overdose por acidente, pois as tragédias amam perdedores. Foi aperitivo de vermes. Cemitério clandestino. Foi apagado das paradas.

Era muito vivo e não sacou a besteira que fez de sua vida. Era muito inteligente e culto, e de que isso lhe valera? Eu chorei escondido quando soube. Fiz poemas de tristeza profunda por isso. Escrevi essa crônica várias vezes, até resolver passá-la a limpo, o que me doeu muito, me custou demais, me pesou tanto, mais do que podem imaginar. Pareceu-me uma balada perdida por um ocasional "laranja" da vida que não mandou bem. O que queria ser Astronauta - e foi um Asno, como disse um parente seu que perdeu dez anos de vida sofrendo pela frustração com tanta capacidade de sucesso atirada pela janela - e que o classificou em prantos de um pobre "Asnonauta".

Viveu em vão. Perdeu a lição dessa viagem de existir. Passou pela vida e se atirou no leprosário dos anônimos pra uso e consumo da ralé com o pagamento da própria vida. 

Eu continuo só nas minhas cervejinhas, e olhe lá. Eu conduzo minha própria vida, nada e ninguém faz uso de mim. Eu mantenho o meu controle pra não me perder de mim. Ninguém me toca se eu não quero ser tocado. Eu sou o que me permito ser, com a mente sã, o corpo forte, a mente aberta, o olho vivo, sempre, no amor e na dor, orando e vigiando. Continuo só poeta. Não posso mudar o mundo, mas mudei a mim mesmo, e isso foi mais difícil do que eu pensava, do que eu mesmo podia imaginar. Os sensíveis sofrem. 

E ERA ELE QUEM TINHA UM FUTURO ESPETACULARMENTE PROMISSOR. Perdeu-se de si. Quando me lembro dele, meu coração pesa a memória de um lírio laranja que foi na onda de um vento transversal, sem saber que estava sendo usado, dando lucro pra marginais. Como tiraram proveito da bondade dela. Como usaram sua sensibilidade.

Podia lhe dedicar uma vida inteira, e aqui agora aqui só lhe dedico de despedida e dor dessa minha triste crônica feita às pressas, no vácuo de uma correria louca para ser feliz dentro do meu próprio limite, com as minhas próprias forças naturais, com minhas próprias mãos de poeta sonhador...Com os meus próprios pés descalços de peregrino...Com a minha simples razão de SER FELIZ que é a melhor vingança contra tudo e contra todos! 

(Depoimento Sobre um Amigo Perdido)

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