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SINESTESIA
VLADIMIR CUNHA
12/9/2000
Um conto em capítulos. Vladimir Cunha está escrevendo este conto em capítulos e, sempre que concluir mais um nós publicaremos.

PRÓLOGO

Ninguém sabe dizer como a coisa aconteceu. Mas, inexplicavelmente, o município de Augusto Laranja, localizado no centro-oeste do Pará as margens do rio Tocantins, passou a ser banhando pelo oceano Atlântico. Quem primeiro descobriu tal fenômeno foi "seu" Giocárdias, fazendeiro, alquimista amador e sócio remido do Soberano Esporte Clube, o qual, como todos bem sabem, é fator de progresso para a região das ilhas. Até porque, o único pedaço de Augusto Laranja contemplado com a visão do Atlântico ficava em suas terras, mais precisamente atrás do pomar de mangueiras que ele havia consagrado à sua falecida esposa Felícia Medrado.

Não foi exatamente um choque. Tampouco, pode-se dizer que Giocárdias levou tudo na esportiva. Imagine só a cara do sujeito acordando um dia e descobrindo que, ao invés de um pasto verdinho e cheio de bosta de boi zebú, ele se tornou o feliz proprietário de um braço de mar com direito à praia, palmeiras, um galeão do século XVI encalhado e uma ocasional tartaruga fujona, rapidamente apelidada de "Wilza Carla" pelo negro Rock Hudson, o capataz da fazenda cuja mãe, a doce Felismina, passou boa parte de sua adolescência sonhando com os galãs de Hollywood vistos nas noites de domingo no cinema improvisado do salão paroquial. Sem outra saída, já que aquele braço de mar simplesmente não dava sinais de querer arredar o pé dali, Giocárdias decidiu aproveitar da melhor forma que podia seu inesperado presente. Todos os dias podia ser visto pescando, explorando os destroços do galeão, nadando ou esculpindo formas de tendência cubista nas areias da praia do Bonança, nome dado por ele em homenagem ao adorado centro-avan

te do Soberano F. C, o time do coração.

Entretanto, Giocárdias sentia-se miserável, traído, esperando a mão da Morte, a senhora traiçoiera e conspiradora que lhe espiava e, escondida, gozava de sua fragilidade, que fazia pouco de sua insipiência e pequenez. De uns tempos para cá, Giocárdias vinha desenvolvendo um jogo psicológico de dor e abandono, onde era fragmentado em diversos pontos de energia, nos quais o intervalo sobrepunha-se ao fluxo, forçando sua consciência rumo à auto-destruição. Imaginava-se aspergido, untado, invadido por todas as correntes de tempo e espaço, penetrado por dimensões aleatórias. Sonhava ainda com a perda definitiva da identidade e fantasiava sua desintegração, na qual ele era a virgem purificada e renascida, pronta para parir um novo Messias, o visionário de cuca-fundida, dentes brancos e sorriso beato. Queria, necessitava, ser apenas um fenômeno físico perdido entre tantos outros. Estava mais interessado nos espaços em branco, nas pausas, na Forma Final. Aliás, era esta Forma Final que lhe assombrava, que lhe dava

a idéia do Universo Perfeito. A perfeição era a Ausência, era a dispersão levada às últimas consequências.

Realidade e percepção, eis a equação básica da moderna paranóia. O que fazer quando não se confia em seus próprios sistemas cognitivos? Quando a certeza de que tudo o que compõe o que se convencionou a chamar de Realidade parece estar no lugar errado? Era justamente assim que Giocárdias enxergava o mundo: como um imenso quebra-cabeças onde, por obra de alguma entidade depravada, as peças erradas pareciam estar irremediavelmente encaixadas umas nas outras. Um mosaico mantido em aparente equilíbrio pairando acima de nossas cabeças e ao mesmo tempo nos envolvendo como uma muralha de vento feita para proteger um castelo de cartas. A vida não precisa fazer sentido, basta pertencer e concordar em se entregar ao princípio dos acontencimentos.

Em uma bela tarde de julho, Giocárdias estava observando um estranho grupo de pássaros que se aninhava perto da gávea do galeão encalhado. Vestindo seu habitual terno de linho branco e envergando um chápeu panamá de tamanho exagerado, que lhe dava um ar de aristocrata decadente, ele se pegou pensando em que tipo de espécie seria aquela. Não parecia com nada conhecido e trazia na plumagem um padrão de cores estranho. Ao olhar os pássaros, identificava apenas um conceito abstrato, intraduzível em sua totalidade e apenas parcialmente codificável. Mais provavelmente, ele diria que os bichos eram de "cor de desmaio", "agudo imaginativo", "quark leitoso","dobra espacial" ou qualquer outra coisa que sua sensibilidade lhe fizesse pensar no momento. Com o passar do tempo, até mesmo a forma dos pássaros foi desaparecendo, tornando-se mais e mais maleável. Já não eram simples animais, eram fractais, quantas, ligações covalentes, campos gravitacionais, planos de oito dimensões...

À explosão seguiu-se uma claridade insuportável. Amedrontado, Giocárdias gritou por Rock Hudson, por Felismina, por sua falecida esposa e sentiu o corpo fundindo-se aos pássaros como se fosse plástico derretido em asfalto quente. Descobriu estar se tornando uma espécie de atrator de todo ruído, de todo campo eletromagnético, de toda imagem gerada e de toda vibração produzida artificialmente sobre a face da Terra. Cada máquina de fliperama, cada relógio de pulso, cada reator de bomba nuclear continha uma micropartícula sua que lhe era roubada e lhe negava sua humanidade. Giocárdias existia apenas para registrar, processar e vomitar o lixo que o resultado das mais sórdidas maquinações humanas despeja às toneladas todos os dias. A dor era mais do que física e irradiava-se de algum ponto desconhecido do cérebro espalhando-se por todas as ramificações nervosas enquanto mais e mais sensações transformavam sua mente em um caldo fervente onde boiavam visões de drogas sintéticas distorcendo e alterando o metabolism

o de um milhão de viciados, entulho, latas de salsicha enferrujando por dentro e matando donas de casa com bactérias e botulismo, ratos de laboratório deformados guinchando de dor, frequências moduladas viajando pelo éter num leva e traz de pregadores evangélicos, propagandas de xampu e música ruim.

Giocárdias desistiu de viver e, antes de morrer, decidiu vingar-se. De uma só vez catalizaria as sensações que recebia involuntariamente e as irradiaria de volta em escala mundial. Em silêncio, com toda a dor que seria capaz de suportar, ele brilhou durante dez segundos.

Em Nova Iorque, Martha Rosenthal, 54 anos, esfaqueou o marido e usou suas tripas para decorar a árvore de Natal do casal. Em Tânger, Aziz Hassid, 31 anos, castrou-se usando dois tijolos de pedra maciça e furou seus olhos com um garfo de prata para "se livrar dos pecados da carne". Os funcionários do metrô de Londres descarrilharam propositalmente oito vagões na estação de Trafalgar Square matando 300 pessoas e ferindo outras 250. No Haiti, Pierre D’Anjou, 18 anos, foi linchado pelos habitantes de uma pequena vila de pescadores ao ser pego em coito anal com seu pai, um velho leproso que vivia de uma pensão por invalidez. Um dos assessores do Papa João Paulo Segundo entrou em combustão espontânea enquanto se penitenciava no confessionário da Catedral de São Pedro por haver tido relações sexuais com sua sobrinha de 5 anos de idade. Na prisão do Carandiru, em São Paulo, um detento foi internado às pressas após devorar a própria língua...

Giocárdias não sentia mais nada, tampouco pertencia a lugar algum. A nulidade de estímulos tornou descartável a necessidade de qualquer sistema mediador. Apenas ficava restrito as recordações que acumulou durante toda a vida. Na verdade, continuava a sofrer. A diferença é que desta vez sofria sozinho, no vazio de sua alienante solidão.

CAPÍTULO 1

"Eu acho profundamente pertubadora a sua falta de fé"

Darth Vader

8:15:30 A.M.

Entre uma coruja empalhada e um calendário eleitorial de um certo Américo Eletricista, Didi Jacaré parecia flutuar em estado de animação suspensa sobre a pequena sala que ocupava no décimo andar do Edifício Moulin Rouge no centro de São Paulo, onde atendia aos clientes que procuravam seus serviços de detetive particular. Deitado em sua cadeira e com os pés em cima da mesa, ele fumava o primeiro cigarro do dia e se recordava, muito a contragosto, de um sonho particularmente pertubador que tivera na noite anterior. Nele, Didi estava fazendo compras em uma loja de departamentos quando começou a ser perseguido por um lagarto gigante. O que mais o aterrorizou é que o monstro tinha duas cabeças, uma de réptil e a outra com a cara do Wilson Simonal, e ambas faziam uma espécie de jogral com as piadas da edição de abril de 1953 da Revista O Cruzeiro ao mesmo tempo em que corriam atrás dele - com a mais absoluta falta de graça, diga-se de passagem - pelas gôndolas da seção de materiais de limpeza. Apavorado, Didi pe

nsou que ia ser pego por aquela criatura repugnante. Mas, de repente, ao som do tema de "Havaí 5-0", Ricardo Montalban e Hervé Vilechaize saltaram por detrás de uma pirâmide de embalagens de 500g de Leite Itambé e dominaram com facilidade o lagarto xifópago usando uma combinação irrepreensível de ninjitsu com luta greco-romana. Tudo isso sem amassar seus impecáveis ternos brancos ou desmanchar o penteado.

"São 500 dólares", gritou Hervé enquanto Didi tremia dos pés à cabeça agarrado a uma caixa de sabão em pó.

"E não aceitamos cheque", disse Ricardo Montalban, "o pagamento tem que ser em dinheiro ou cartão".

"Mas eu não tenho dinheiro. Além do mais...", gaguejou Didi.

"Tudo bem", cortou Ricardo, "se você não tem dinheiro pode tentar o Roletrando"

"Roletrando!Roletrando", cantarolava Hervé enquanto dava saltinhos ao seu redor.

Ricardo Montalban bateu palmas e, inexplicavelmente, o supermercado se dividiu em duas metades iguais que foram se afastando rapidamente uma da outra. Como num passe de mágica, as embalagens de iogurte, freezers e caixas de cereais deram lugar a um estúdio de Tv com câmeras, luzes, monitores e uma platéia no melhor estilo Sílvio Santos, com suas mulheres gordas de cabelo lilás e senhores barrigudos vestindo ternos xadrez, camisas de rayon e usando óculos rayban falsificados.

"Vamos", disse Hervé chutando a bunda do lagarto e puxando um zíper localizado em suas costas, "Está na hora de trabalhar"

"Droga", resmungou o monstro com uma voz feminina, "logo agora que eu estava sonhando com o Erick Estrada..."

O lagarto se levantou, começou a tirar sua fantasia e então Didi observou que, de dentro daquela criatura bizarra, emergia uma incrível visão de Farrah Fawcett Majors espremida num maiô coberto de lantejoulas douradas, das quais saiam pequenos arco-irís de padrão caleidoscópico.

"Soul Dracula" ressoou pelos alto-falantes do estúdio. Foi a senha para que Ricardo Montalban pegasse um atônito Didi pelo braço e o sentasse atrás de uma bancada entre uma mulher vestida com roupas bastante antigas e um senhor careca de óculos de aro fino, aparência afeminada, de maneiras elegantes e metido em um uniforme nazista de couro negro. À frente deles, uma roleta com diversas frases impressas no lugar dos números habituais.

"Muito bem senhoras e senhores", bradou Ricardo, "está no ar mais uma edição de Roletrando! A minha esquerda estão os concorrentes: Maria Antonieta, Joseph Goebbels e Didi Jacaré. Serão três rounds e quem vencê-los, adivinhando quais as palavras ocultas em nosso mostrador, volta ileso para a dimensão lá de cima e ainda ganha um cargo burocrático no governo com direito a pouco trabalho, plano de saúde e intervalo para o café. Estão prontos?"

"Sim!!", disseram os três em uníssono.

"Que se dane", pensou, "pior do que tá é que não vai ficar"

Ledo engano. Meia hora depois de ter começado o jogo, Didi estava completamente ferrado. Perdeu o primeiro round para Maria Antonieta, que adivinhou por acaso que a palavra oculta era "psicoterapia", e a segunda rodada havia sido vencida brilhantemente por Goebbels quando este presumiu, contando com apenas duas letras, que a palavra escondida era "maçaroca". Agora, precisava acertar de qualquer jeito para poder sair daquele pesadelo setentista de mau-gosto. No mostrador fluorescente brilhavam as letras "l","x" "ç" e "o". O jogador da vez era Maria Antonieta. Mas esta caiu na casa "Perde Tudo" e foi afastada do jogo por um anão mal-humorado vestido com camisa florida e calça Gledson.

Com Madame Antonieta fora da partida a disputa ficou polarizada entre Goebbels e Didi. Quando o ex-propagandista de Hitler girou a roleta, nosso herói teve um pressentimento de que estava fodido. Não sabia porque, mas achava que alguém estava manipulando o jogo para que aquele nazista viado saísse vencedor.

"Muito bem, muito bem", falou Ricardo Montalban apontando para a roleta, "O jogador que cai na casa ‘Ditadores Confiáveis’ tem o direito de pedir duas letras e escolher entre dizer qual é a palavra escondida ou prosseguir jogando até acumular mais pontos. Qual a sua escolha senhor Goebbels?"

"Vou dizer qual é a palavra. Me dê um ‘i’ e um ‘a’"

"Muito bem, muito bem. Farrah querida, por acaso a palavra escondida tem as letras ‘i’ e ‘a’?"

"Sim, senhor Montalban!!", respondeu Farrah com um gritinho de êxtase.

Agora o diagrama contava com as letras "l", "i", "x", "i", "i", "ç", "ã" e "o". Com uma frieza impressionante, Goebbel estudava-o enquanto era tomado pelas figuras de Adolph e de todos os bons companheiros daqueles dias felizes no Reich. Ah! Como eram agradáveis as sessões de cinema ao lado do Führer e as tardes regadas a chá com bolachas, onde ele e Von Braun passavam discutindo astronomia, alquimia elementar e outras amenidades. E as tortas quiché levadas por Eva para as reuniões do Partido? Que maravilha, principalmente aquela de nabo com ricota. Você pega cinco nabos cozidos cortados em cubinhos, 500 gramas de ricota, um punhado de ervas provençais, meia dúzia de ovos, mistura tudo em uma panela untada com manteiga e...

"Ora, ora Senhor Goebbels", interrompeu o apresentador, "o tempo está passando. Qual a palavra secreta?"

"Lixiviação", respondeu Goebbels automaticamente como se estivesse possuído por alguma espécie de espírito guia.

"A resposta está...correeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeta!!!"

As palmas explodiram por todo estúdio e Goebbels, meio sem jeito, teve que posar para os fotógrafos ao lado de Farrah Fawcett enquanto recebia os cumprimentos de Ricardo Montalban, Hervé Vilechaize e da equipe técnica. No sistema de som, Elvis Presley arrepiava os presentes com uma versão ao vivo de "Viva Las Vegas" e os integrantes da platéia aproveitaram um descuido da segurança para avançar rumo aos carrinhos de lanche, onde se abasteceram com sanduíches de patê e suco de maracujá servidos por um mexicano meio sonolento chamado Emanuel De Los Espiritos Del Sétimo Dia De Jesús Encarnado. E depois de anunciados os prêmios, Didi, que ficara num canto olhando a festa com um ar meio contrariado, aproximou-se do apresentador para uma conversa em particular.

"Huh, Ricardo...permita-me chamá-lo assim. Agora que o show acabou, o que será feito de mim?"

"Bem filho, considerando sua situação só lhe restam duas opções."

"Quais são?"

"Trabalhar conosco como figurante na próxima temporada de ‘A Ilha da Fantasia’ ou arder ao lado de Maria Antonieta no fogo do Inferno. O que você escolhe?"

"Eu fico com o fogo do Inferno. Mas antes gostaria de lhe fazer uma pergunta. Seria possível?"

"Sim, desde que não envolva a política desta organização em relação aos Direitos Humanos em países do Terceiro Mundo."

"Tudo bem, o que quero saber é o seguinte: o Goebbels vai realmente trabalhar no governo?"

"Não, não", respondeu ele sem esconder um risinho maroto, "claro que não. Na verdade ele vai chefiar a seção latinoamericana da CIA"

"Da CIA?!!"

"Sim, ela é uma de nossas maiores patrocinadoras. É um acordo antigo: certas almas não merecem nem o Inferno. Sendo assim, nós as mandamos trabalhar com os rapazes da Inteligência. Em troca, eles fecham cotas milionárias de patrocínio com a gente."

"E de onde vem tanta grana?"

"O pessoal da Agência é muito virado. Eles trabalham com lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, contrabando de armas para o Oriente Médio, essas coisas...Além, é claro, dos discos de rock-balada e das franquias de algumas lanchonetes de fast food para o Leste Europeu e Sudoeste Asiático."

"A CIA controla tudo isso??!!"

"Ora filho, hoje em dia a CIA controla tudo o que não presta neste mundo."

Quem o tirou de seus devaneios foi um senhor alto, magro, careca, vestindo um terno cinza escuro e de aparência triste, com aquele olhar de quem está neste mundo apenas para cumprir tabela e já não espera grandes surpresas da vida. Chamava-se Conrado Montezuma, oficial da reserva do Exército. Contou que entrou nas Forças Armadas no final dos anos 40 como tenente e fez carreira até chegar a general em meados da década de 70. No entanto, não era para falar de sua vida que estava ali. Por isso foi direto ao assunto.

O fato é que seu filho estava morrendo. Tinha leucemia e somente um transplante de medula poderia salvar-lhe a vida. Já não suportava mais as longas sessões de quimioterapia e a dura rotina dos hospitais. Fazia muito tempo que o garoto não sabia o que era ser uma criança normal. Montezuma era um homem desesperado, que lutava contra o tempo para salvar a vida do menino. Por isso, necessitava de ajuda profissional.

"Não entendi onde é que eu entro nisso", argumentou Didi.

"Deixe-me terminar", interrompeu Montezuma, "Existe um doador compatível e pronto para o transplante mas ele sumiu há três dias sem deixar nenhuma pista. Preciso de você para encontrá-lo. A vida de meu filho depende disso", falou Montezuma enquanto lágrimas começavam a brotar de seus olhos.

Didi titubeou. Nunca havia pego um caso como aquele. De um certo modo tinha uma vida profissional medíocre, acostumado a seguir maridos inféis ou a pegar larápios de quinta categoria cometendo pequenos furtos em lojas de periferia. Vivia cercado de esposas histéricas - gordas e deselegantes, atoladas até o pescoço em sua feiúra imbecil - móteis vagabundos com nomes improváveis e meliantes com dentes podres e costelas aparecendo por baixo da pele enferidada. Amava e, ao mesmo tempo, odiava aquela gente. Afinal, sentia um certo prazer em denunciá-los, humilha-los e expor a todos suas taras mais secretas e seus crimes mais banais. Em todos esses anos de profissão não se lembrara nunca de ter feito alguém sorrir. Muito pelo contrário, seus esforços sempre terminavam em crianças traumatizadas, tortura, ossos quebrados e vidas desfeitas. Era como um parasita alimentando-se de um corpo em decomposição. Um corpo que nunca teve alma, um morto-vivo enviado à Terra apenas para ser devorado pelos vermes.

Talvez aquele caso fosse sua última chance de redenção, uma daquelas oportunidades que só aparecem uma vez na vida e, se a deixamos escapar, transformam-se numa recordação incômoda, na eterna lembrança do que poderíamos ter sido. Didi nunca foi amado por ninguém e, de uma maneira ou de outra, a coisa mais próxima de um relacionamento conjugal que havia testemunhado eram as traições suburbanas que ajudava a desmascarar. Não tinha vida sexual e, no entanto, conhecia de cabo a rabo a disposição geográfica dos moteis e hoteis da cidade, inclusive com alguns detalhes acerca de suas linhas arquitetônicas. Nos bares da Boca do Lixo, que frequentava, ficou famoso por ser o campeão dos "Desafios Telesp". Organizados por seu único amigo Luigi Del Fungi Constipato, um siciliano trambiqueiro radicado no Brasil, eles mediam a capacidade de memorização dos participantes. Luigi escolhia um otário e propunha a ele um desafio: dizer com precisão o endereço completo de todos os moteis encontrados na lista telefônica. Empolg

ada com a lábia irresistível do carcamano, geralmente a pessoa aceitava de bate pronto e desafiava Didi para um duelo. É óbvio que não é nem preciso dizer quem saia vencedor. Durante muito tempo, os "Desafios Telesp" foram uma excelente fonte de renda extra para Didi e já tinham até público cativo.

Certa vez, Luigi não deu as caras. O desafio entre Didi e o ex-vereador Lutero Cardinal já deveria ter começado. A boate Le Figaro Sensillo, local do embate, estava lotada, num verdadeiro "quem é quem" da Boca do Lixo. Carlo Pissado, o terrorista espanhol de um braço só; a drag-queen Safira Pentotal; Viriato Sed Lex , o tira exterminador e caridoso, que fazia questão de pagar o enterro dos bandidos que matava; o adivinho Hayata McMurdo e mais uma infinidade de famosos, anônimos e ilustres desconhecidos, todos estavam lá para ver aquele detetive particular de memória prodigiosa.

O que ninguém sabia é que a poucos metros dali - ao mesmo tempo em que, na boate, a impaciência e as especulações começavam a dominar o ambiente - Luigi estava se preparando para acertar as contas com o lado de lá. Foram precisos apenas uma navalha afiada, uma namorada traída, uma amante nervosa e uma veia aberta espirrando sangue feito um chafariz macabro na noite de São Paulo para pôr fim à vida conturbada do italiano fanfarrão. Crash, bum, bang. Era chegada a hora de morrer.

A notícia dobrou a esquina, deu uma pinta, comeu pastel, fumou um baseado e atravessou o Le Figaro antingindo todos em cheio e gerando uma onda de violência jamais vista. Revoltado, Carlo Pissado sacou sua Lugger 7.6 mm e, acompanhado de Viriato, saiu pela porta afora prometendo justiça. Por sua vez, Safira Pentotal teve um chilique e só voltou ao normal após levar uns tabefes de McMurdo. Mesas foram viradas, espelhos foram quebrados, garçons foram espancados e dependurados de ponta cabeça em postes de iluminação. A turba enfurecida pôs o Le Figaro abaixo e saiu em bloco pelas ruas da Boca destruindo tudo o que via pela frente. Desvalidos, marginais e viciados avançaram sobre a cidade, violentando senhoras de classe média, prostituindo suas filhas e escravizando seus maridos para usá-los em quase todas as variações de dominação sexual conhecidas pelo homem. Houve até quem aderisse ao canibalismo, tanto que famílias inteiras foram assadas em plena via pública. Tudo era dor e desespero, caralhos duros e vagi

nas escancaradas. Incontáveis foram os emasculados e mutilados se arrastando pelo coração da metrópole em busca da ajuda que nunca veio. Ou não, pois há quem diga que nada disso aconteceu.Todavia, o dia foi clareando e as ruas passaram a ser ocupadas por pessoas comuns, aflitas com o tédio de suas atividades cotidianas. Mas lá em cima, encarapitados no último andar do Copan, Satã e seu séquito diabólico recebiam os primeiros raios de sol e sorriam satisfeitos, embriagados por aquela plenitude sem igual que só uma vida feliz é capaz de proporcionar.

Enquanto isso, Didi precisou ser forte o suficiente para manter a calma e não se deixar abalar pela morte do amigo. Ao que parece, Luigi não tinha parentes no Brasil e, pelo jeito, nem em qualquer outra parte do planeta. Por isso coube a ele reconhecer o corpo, pagar pelo atestado de óbito e cuidar dos preparativos para o funeral. A cerimônia correu tranquila, com poucas pessoas presentes. Em casa, Didi passou a tarde vendo televisão e pensando na vida. Decidiu encerrar com sua carreira de celebridade do submundo e sumiu de cena. A Boca do Lixo perdia a sua maior estrela.

Mas o que importa é que agora ele tinha um caso realmente decente. Sendo assim, o detetive achou por bem fazer a velha pergunta...

"Porque você não procurou a polícia?"

"Uma história como essa atrairia muita atenção e seria um prato cheio para a imprensa sensacionalista. Nossa família não precisa disso. Já sofremos muito. Além do mais, quero poupar meu filho de mais um dissabor, pois ele vai acabar sendo exposto a tudo isso. Ele pensa que não há problema e que o transplante vai ocorrer dentro em breve"

"E os médicos?"

"Estão preocupados. Acham que ele não tem muitas chances de sobreviver se continuar nesta situação."

"Entendo", respondeu Didi, "Prometo que farei o possível para encontrá-lo."

"Ótimo!", disse o general tirando um papel dos bolsos e pondo-o em cima da mesa, " Aqui está o endereço dele. Chama-se Arthur Guilherme Colossal e trabalha para mim como secretário particular. Pelo menos trabalhava..."

Conversaram por mais alguns minutos, acertaram o preço e deram a coisa por encerrada. Montezuma levantou-se e Didi o acompanhou até o elevador, onde se despediu de seu novo cliente com um forte aperto de mão. Quando se preparava para fechar a porta ouviu uma melodia conhecida vinda do corredor. Meteu a cara para fora e pegou Montezuma assobiando distraído, cabisbaixo, fitando seus sapatos de couro preto.

"Ei", gritou Didi, "que música é essa?"

" ‘Sá Marina’", disse o general um pouco surpreso pelo repentino interesse do detetive, "É uma antiga canção do Wilson Simonal. Desde que acordei ela não me sai da cabeça. Porque?"

"Nada não...deixa prá lá."

"Tudo bem", retrucou Montezuma com um dar de ombros.

E na sala vazia, a alegria se foi. Didi Jacaré sentiu-se tomado por um terror súbito e a estranha sensação de que o pior ainda estava por vir. Não sabia dizer o porque, mas achava que o resto do dia lhe seria tão ingrato quanto uma madrasta malvada de fábula infantil.

Continua...

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Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos Giraçol Cichetto, nome literário Barata Cichetto, e foram registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor, bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade". Lei de Direitos Autorais: 9610/98.

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