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REPULSA
LAZARA LUZIA
2/4/2007
“Acontece de haver uma crise. Mas é nos momentos de absoluta descrença que Sua mão faz-se presente. Sob o céu escuro de uma meia-noite fria e nublada, estou morna e protegida. E, embora tenha os pés em carne viva, não sinto a dor, pois sei que é sobre meu rastro de sangue que retornarei à vida.”

Chovia. Há três semanas, após uma estação árida e poeirenta, chovia sem parar. A terra ao redor ressurgia e recendia a renovação. Folhas verdes e tenras brotavam de todos os cantos, diante dos nossos olhos, sem a timidez usual dos vegetais que crescem quando estamos distraídos. Pela manhã, vendo que não havia Sol no céu, perdíamos as idéias no chão vivo estendido até o horizonte. Refúgio e paraíso. Adormecíamos ao som de respingos. Plocs e plics confortantes.

Certo dia, ao alvorecer, Camila arrancou-me ao sono e arrastou-me escada abaixo. Ela tinha o olhar febril e transtornado pela tragédia. Na sala, de um golpe descerrou as cortinas e me encarou ansiosa: seu delicado jardim havia desbotado e apodrecido. Flores mortas e minúsculos botões eram como pingentes macabros agarrados às pequenas plantas, vergadas e retorcidas. Árvores escuras e desfolhadas erguiam seus galhos nus até o firmamento cinzento em busca de auxílio. Como se um breve ciclo houvesse se encerrado, tudo pereceu de repente, sem explicação. Caímos as duas no sofá e ficamos ali por horas a fio, observando a natureza despejar as suas águas — e com tanto vigor que sentíamos nossas almas encharcadas.

O que era viço transformou-se em ranço e a lama fecunda, que havia parido tantas cores vibrantes, tornou-se lodo fétido e esponjoso. Nosso recanto causava-nos medo. Grilos e cigarras não mais cantavam, borboletas multicores eram abatidas por pesados pingos d’água e terminavam arrastadas pela correnteza, assim como formigueiros, colméias e suas populações. Os pássaros, famintos, vinham atirar-se contra as vidraças e morriam arfando o pio agudo do desespero. À noite, agitadas pelos acontecimentos que se sucediam de forma alucinante, Camila e eu tínhamos pesadelos horríveis: afogamentos, a casa afundando no charco, canários que devoravam nossos olhos, a vida submersa numa natureza que vertia e vertia e vertia com a intenção mórbida de desfazer-se da vida atracada à sua essência.

Após mais uma madrugada úmida e repleta de sonhos maus, a luz brilhante do sol veio nos violentar as retinas. Com que espanto constatamos que tudo voltara a ser perfume e perfeição. Puríssimas — agitava-se dentro de nós o rufar de milhares de asas angélicas. Camila tinha o rosto tranqüilo, carregado de benevolência e suas mãos transparentes dirigiam ao céu vagos movimentos de ampla gratidão. Ascendíamos.

Distantes de tudo, pressentíamos pulsar sob nossos pés a massa das paixões doentias e obscuras, que faz a vida perder em beleza e ser espetacularmente humana, palpável e sinuosa. Súbito, despertei.

“Espera! Que Paraíso é este que nos é oferecido após tantas noites de desesperada incerteza?” Camila não questionava. “Que idéia é essa de arrebatar-me à vida sem oferecer-me a devida compensação enquanto pasto presa à terra?” Camila não lamentava. Tinha pressa em tomar parte daquela luz, beber do caldo santo e ser, enfim, abençoada.

Perdida, levada pela fé a um caminho de tantas dúvidas, permiti que viesse à tona uma estranha prece: “Mundo, venha embriagar-me nos teus ácidos e vestir-me com os véus azuis que sobem dos teus cigarros! Apieda-te de mim que quero triunfar sobre meus medos pervertendo a tua realidade!”

O sol do meio-dia veio surpreender-me na cama, num início monótono de tarde de domingo. De dentro de um delírio, Camila me acenava. Seu sorriso terno nutria de veneno o meu sarcasmo. Era a semente do recomeço. “Inferno”.

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