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ENTERRADO VIVO
RAYMUNDO SILVEIRA
1/1/2005
She had seen that the finger of Death was upon her bosom -- that,
like the ephemeron, she had been made perfect in loveliness only to
die; but the terrors of the grave to her lay solely in a
consideration which she revealed to me, one evening at twilight, by
the banks of the River of Silence”.

(Edgar Allan Poe: Eleonora)


Uma procissão de pessoas entrou no quarto em estranha agitação. Eram minhas tias, um tio e dois primos Todos falavam ao mesmo tempo. No semblante de cada um, pude perceber imediatamente que algo muito grave estava acontecendo ou por acontecer. As fisionomias eram patibulares. Aquilo me contaminou como fogo ateado em paiol ensopado de querosene. Uma angústia terrível começou a se insinuar. Não podia articular uma palavra; indagar o motivo daquele estranho comportamento. Tentava falar com alguém e não conseguia esboçar o menor movimento. Pensei: Estou tendo um pesadelo. Não estava. Tinha certeza de que não estava porque era capaz de reconhecer o ambiente e as pessoas. Sabia precisamente quem eu era. Lembrava-me dos compromissos do dia. Enfim, dispunha de dados objetivos para distinguir o sono da vigília.

Meu tio e um primo retiraram meu corpo da rede onde passei a noite. Suspenderam pelos pés, pela cabeça e pelos ombros e puseram na cama. A seguir, trocaram o pijama, por um terno antigo e calçaram sapatos. Alguém começou a rezar um rosário. Eu tentava desesperadamente virar a cabeça para saber quem era e pedir que parasse com aquilo, mas não conseguia. O pavor começou a se instalar quando todas as demais pessoas ao redor respondiam a segunda parte das orações com ar pesaroso. Ouvi um choro por trás da minha cabeça. As tentativas malogradas de falar, ou pelo menos chamar a atenção de alguém, com um leve esgar que fosse, foram os fatores decisivos para desencadear o pânico.

Permaneci neste estado por intermináveis duas horas. Depois, entraram quatro homens de preto. Com uma maca me transportaram para a sala de visitas, onde havia, ou parecia que ia haver, um velório. No centro da sala, um caixão preto apoiado sobre pedestais de ferro. Por trás do lugar que devia ser a cabeceira, uma essa de porte médio servia de pano de fundo para o esquife. Seis enormes castiçais se distribuíam ao seu redor. As velas estavam acesas e o cheiro se misturava ao de incenso. Puseram-me dentro do caixão. Depois que o rosário terminou, passaram a entoar uma litania de preces pelos que já haviam partido deste mundo. 

Todo sofrimento, por mais pungente que seja, é limitado. Chega-se a um ponto em que a dor é incompatível com a vida. O mesmo sucede com o pânico. Deve existir algum mecanismo de equilíbrio, cuja instabilidade não pode ser ultrapassada sob pena do organismo não resistir. É o que devia estar acontecendo comigo. Aquele desespero que já durava mais de quatro horas virou crônico. Surgiu, então um desejo imenso de chorar. Uma sensação intensa de autopiedade me invadia por todos os poros. Pensei: “Se conseguir, será a minha salvação”. E, de fato, eu chorava. Sentia tudo o que experimenta uma pessoa em prantos, porém nenhum soluço, nenhuma lágrima, nenhuma crispação de algum músculo da face se manifestava externamente.

Ao amanhecer, veio o padre, de batina preta, com um longo roquete branco e uma estola roxa. Nas mãos um livro. Com ele o sacristão, que carregava um crucifixo e um conjunto de metal com água benta. Inicialmente, o sacerdote aspergiu, traçando três cruzes imaginárias sobre o meu corpo. A seguir, começou a ler em voz grave, solene e compungida algumas palavras, que, em síntese, se referiam à consolação através da fé. Representava uma espécie de "ministro" que pretendia trazer o conforto a todos os meus parentes e amigos. Depois teceu uma homilia na qual comparou a ressurreição de Lázaro à de todos os mortos, quando chegasse a consumação dos séculos e o Juízo Final. Algumas pessoas choravam. Outras pareciam aborrecidas com aquele palavrório inútil e não viam a hora de terminar aquilo.

No final daquela parte da cerimônia religiosa o celebrante pronunciou as palavras que me trouxeram multiplicado ao infinito, um pânico jamais experimentado: “Agora, segundo o costume cristão, podem levar o corpo para ser sepultado”. Um empregado da funerária fechou o caixão. Fui, conduzido ao que supus ser a traseira de um veículo. Aquilo não podia estar acontecendo! Depois de uns trinta minutos de percurso voltaram a retirar o esquife. Eu nada enxergava, mas pressentia. Puseram o féretro sobre o chão. A voz reconhecida e persistente do sacerdote recitou um trecho em latim: “De profundis clamavi ad te Domine...”

Então fui erguido por alguma coisa que rangia como um guindaste e, a seguir, senti-me afundar lentamente até tocar o solo num nível bem abaixo do anterior. “Não pode ser”, eu gritava em silêncio. O desespero vencendo qualquer outra emoção. Ouvi então o barulho apavorante de terra sendo jogada sobre o caixão e, por fim, já muito distante, o irreversível ruído de colheres de pedreiros. Alguma coisa, algum socorro, alguém... Nada! Aos poucos os rumores foram ficando mais distantes até desaparecerem por completo. A falta de ar que já havia sido desencadeada pelo pânico e pelas próprias condições fisiológicas do organismo se transformava em completa asfixia. Rezava e pedia a Deus que abreviasse aquele tormento com uma morte rápida. Foi exatamente neste instante que ouvi o som de pás removendo, rapidamente, a terra...



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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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