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GAROTAS COM CAMISETAS DO SLADE
Barata Cichetto

A data: um dia de Setembro de 2002, local Led Slay... um sábado... um especial... "Slade"... "Especial do Slade?" Perguntei... no meio da meia dúzia de pessoas agitando aquele especial, uma garota loira, jovem e bonita, agitando freneticamente. Uma camiseta do Slade. "Puxa, alguém ainda tem "visual" do Slade, pensei comigo e lhe perguntei isso. Ela apenas balançou os cabelos e disse "Fui eu que fiz!".

A cabeça, girando por causa da danada e teimando em retornar no tempo... 30 anos antes... Um garoto recém chegado ao mundo do som, que tem um amigo extremamente tímido e gordo, cheio de complexos e traumas e que tem em duas coisas o seu mundo: a Segunda Guerra Mundial e o Rock And Roll.

Um cara que sabia todos os detalhes de todas as bandas e de todos os segredos e curiosidades sobre a maior guerra que o mundo sofreu. Incoerência? Talvez, o que importa que a mente um tanto perturbada de meu amigo o levou a permanecer trancado horas e dias inteiros em seu quarto lendo muito sobre esses dois assuntos. E comprar discos. Seu quarto tinha um cheiro estranho, que nunca consegui entender. Apenas há pouquíssimo tempo veio essa compreensão, aquele cheiro era de solidão.

Mas que relação tem Led Slay, a garota loira, Segunda Guerra Mundial, Slade e Rock And Roll? Tudo! Todos esses ingredientes têm em minha existência de 45 anos um ponto em comum: meu amigo Huguinho.

Aos fatos, cronológicos: ano, 1973, eu com 15 anos, meu amigo com 14. Um dia, ao entrar naquele quarto fedorento, com cheiro de solidão escutei um som que explodiu minha cabeça. "Que é isso, cara?" Perguntei "Slade Alive" ele respondeu. E disse "alive" e não "aelaiv'". Dono de uma inteligência primorosa, mas uma dificuldade inominável em articular as palavras, especialmente em outras línguas, meu amigo, me jogou no colo aquele vinil, com capa vermelha e preta enquanto rolava em sua vitrolinha com caixas acústicas improvisadas de caixa de biscoito, aquele disco.

Uma capa totalmente tosca, que parecia ter sido feita no quintal da casa dos caras. Fiquei olhando aquela capa e a loucura tomou tomar daquele fedor de solidão: "Hear Me Calling", de Alvin Lee começando lenta e aos poucos detonando guitarras distorcidas, subindo e subindo o ritmo até chegar a um final catárquico. "In Like a Shot From My Gun", a segunda faixa, criação da banda, no mesmo ritmo. Parece que tem umas dez pessoas no "show" que gritam alucinadas e loucas que nem uma multidão de roqueiros hoje é capaz.

"Darling Be Home Soon", de John Sebastian, uma canção meio folk e doce, ganha uma roupa totalmente rasgada e podre. Na introdução o vocalista parece fazer uma reverência ou piada com o autor... Reverência e piada, isso parecem definir aquele disco... A musica começa lenta, lenta, quase declamada... Mas uns dois minutos depois... A coisa explode! O vocal coordenado dá lugar ás guitarras e gritos. A lixa na garganta do vocalista. A coisa quase silencia e de repente o cara solta um arroto! As duas ou três pessoas soltam risinhos e o som retorna lento. Meu amigo solta um peido fedorento saído daquela bunda gorda e dois caímos na gargalhada.

Acaba o primeiro lado do disco, meu amigo levanta, ergue o braço da vitrolinha e vira o vinil. "Know Who You Are" é uma levada bem Rock And Roll, sem muitas invenções, mas pesada, pesada! "Keep On Rocking" , puro Rock And Roll estilo Chuck Berry, Status Quo começa com um riff de guitarra. A voz de lixa penetra nos ouvidos que parecem que vão explodir. Meu amigo aumenta o volume e as poderosas caixas acústicas marca Tostines trepidam, quase caem de cima da cadeira onde estão.

Ai eu não agüento, saio trombando e derrubando as pilhas de livros da Segunda Guerra e começa a me chacoalhar que nem uma cobra com câimbra. Meu amigo gordo fica me olhando com cara de "O que deu nesse idiota?" O vocalista consegue com que a "platéia imensa" cante com ele o refrão.

"Get Down and Get With It" é com certeza a maior e uma das mais pesadas do disco. Também um Rock And Roll básico, mas com um peso que nem as bandas do chamado "Metal Pesado" de hoje conseguem. A gravação parece acelerada, ao fundo parecem vozes de crianças... (Será que gravaram aquilo na sala de casa?).

Ai entra a derradeira porrada sonora, um som que marcaria o Rock de uma forma absurdamente total: "Born To Be Wild". de Marc Bonfire. Um parênteses para falar desta música: o termo "Heavy Metal" surgiu com ela: determinado trecho da letra e dita a frase "heavy metal thunder", que segundo "estudiosos" é a primeira musica a falar neste termo. A musica tinha sido gravada pelo Stepenwolf e foi usada como trilha sonora para o clássico do Cinema Rock "Easy Rider ", com Peter Fonda e Dennis Hooper - "Sem Destino", aqui -. Um milhão de bandas gravaram esse som, mas nenhuma jamais irá passar o clima de" Born To Be Wild "em sua essência como naquela gravação do "Slade Alive", com guitarras imitando sirenes, trem, uma orquestra de distorções, gritos primais... pura selvageria sonora...

O disco acaba, estou extenuado, doido, o Rock tinha feito mais uma vitima. O som pesado tinha massacrado mais um. E minha vida jamais seria a mesma!

Aquele sábado meu amigo disse, com aquela dificuldade de pronunciar palavras: "Tem um lugar aqui perto que rola Slade direto, acho que o nome do lugar até é Led Slade!". "Led Slade?", perguntei." Já ouvi falar! Mas acho que o nome é "Led Slay", remendei. Meu amigo disse: "Vai se ferrar! Vamos lá de noite?". "Vamos" Respondi. E aquele dia seria o marco da minha existência.

Umas nove da noite, meu amigo chega na minha casa e saímos os dois pelas ruas, ele com seu passo de pato gordo (Huguinho não era seu nome, mas um apelido em função de um antigo desenho animado cujo personagem era um pato gordo que só se metia em encrencas...).

Ao chegarmos ao lugar, escuro, com lâmpadas "strobos" improvisadas, tomamos uma porrada: das caixas não de biscoito, mas provavelmente de caixote de bacalhau, saia... "Slade"! Comecei a chacoalhar os ossos, meu amigo a sua pança gorda... até que avistei uma garota, loira e pouco mais velha que eu, agitando freneticamente. Naquela época as pessoas não costumavam usar visuais de banda, mas as camisetas, brancas aliás, eram pintadas com materiais improvisados - ás vezes com caneta esferográfica - com os nomes dos seu ídolos. Aproximei-me dela e disse algo como "Slade, alguém tem camiseta com Slade?" e ela: "Eu mesma fiz". Aquela noite fiquei sabendo o que queria á minha existência. Conheci as paixões. Algumas eternas, como o Rock, outras etéreas, como as garotas de camiseta do Slade... outras duradouras, mas não eternas como os amigos...

Passados trinta anos, escuto agora o "Slade Alive!", lembrando dos amigos que como o Huguinho que partiram dessa por não agüentar a barra da vida, penso em quanta gente morre nas terceiras e quartas guerras mundiais e principalmente jamais esquecerei aquela tarde de sábado de 1973 quando em meio ao cheiro dos peidos do meu amigo e aos arrotos de Noddy Holder conheci um mundo qual sairei apenas quando não existirem mais Garotas Com Camiseta do Slade, Amigos Gordos e principalmente Rock And Roll.

Em tempo: "Slade Alive", obviamente foi o primeiro disco que comprei em minha existência, uma semana depois dos fatos aqui narrados, com o que sobrou de meu salário de "Office Boy". Meu amigo "Huguinho" morreu aos 40 anos há três anos, de gordura e solidão.
21/9/2002
Publicação:
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.861 - Livro 974 - Folha 209

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