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O Futuro Começou

O Futuro Começou
Luiz Carlos "Barata" Cichetto
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Autor: Inácio de Loyola Gomes Bueno
Resumo: Ensaio
Ano: 2008
Editora: Pedidos: Marcelo Bueno: tomadarock@hotmail.com
Original: -
Tradutor: -
Páginas: 64
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Inácio de Loyola Gomes Bueno e A Consciência da Espécie

Há um tempo atrás, por intermédio do amigo Ricardo Alpendre tomei conhecimento da edição do livro "O Futuro Começou", de Inácio de Loyola Gomes Bueno, pai de Marcelo Bueno, criador e guitarrista da banda Tomada, um ex-padre católico, falecido em 2007. Mas apenas há coisa de um mês atrás foi que chegou ás minhas mãos O Futuro Começou , um "livreto" como o próprio autor define.. Ávido pelo tema comecei a ler as apenas (?) 64 páginas, que demorei cerca de duas semanas para concluir, pois não se trata de um texto para ser lido assim, correndo, entre um e outro afazer. É para ser lido, voltando páginas, analisando, relendo, pensando.

E "O Futuro Começou" abre com uma pergunta "Por quê?". Escrito logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Inácio tenta responder a essa pergunta que aflige atualmente todos aqueles seres pensantes, preocupados com o futuro da humanidade., ao mesmo tempo em que afirma, logo no início: "O que nos interessa não são mais palavras nesta nossa sociedade palavrosa, cheia de conceitos e preconceitos... O que nos interessa são realidades verdadeiramente positivas..." E acima de uma fácil critica á globalização, Inácio não a renega nem a demoniza, mas a propõe de forma consciente, onde os pobres não fiquem apenas com a fome e a miséria como dividendo.

Quase da mesma forma que Milton Santos, geógrafo e pensador, também falecido, Inácio Bueno ataca fundo a base dos problemas que geram o atual estado da humanidade: o excesso de individualismo em detrimento do coletivo, que nos levou, segundo sua definição, a um túnel escuro que nos asfixia e cuja única saída é com uma "Nova Consciência". Mas não aquela pregada pelos "hippies" dos anos 60/70, mas sim através do repensar nossas atitudes concretas, exatas, práticas. "Nem tudo, portanto, está perdido. O tesouro escondido aí está, à nossa espera, à espera de nossa consciência." E tal José Saramago, aponta o dedo na ferida de uma falsa democracia criada sobre bases erradas e que serve apenas a interesses de grandes grupos financeiros.

Um momentos que mais chamaram minha atenção está no Capítulo 3, onde Inácio Bueno nos coloca dentro desse túnel afirmando que "O Ocidente que se pretende a cultura mais importante e dominante do planeta (...) não pode furtar-se a esta tarefa maior de construir, na igualdade da espécie com todas as outras culturas e povos, a cultura universal de convívio numa paz e numa complementariedade, que não tem nada de concessão, de boa vontade, de paternalismo, mas tudo de realidade concreta, de direito natural, de possibilidades indiscutíveis imediatas." E arremata de forma brilhante; "O cimento nesta nova cultura é o respeito à igualdade essencial."

Ao falar sobre o óbvio que não percebemos, de tão envolvidos com nós mesmos, fechados dentro de nossos próprios egos, Inácio coloca a humanidade inteira, sem restrições como culpada de seu próprio destino, esquecermo-nos que somos compostos não apenas de uma, mas de duas partes: uma que nos dá a consciência individual e a outra que nos dá a consciência de espécie. E que somos então, na verdade apenas metade de seres humanos.

No final, Inácio Bueno propõe uma revolução, completa, verdadeira, e definitiva: a Revolução da Consciência, pela destituição da consciência individualista e constituição da real consciência da espécie, com valores assumidos e praticados por todas as pessoas do mundo, revendo todos os nossos conceitos. E deixa como sugestão final a criação do Fórum Universal da Espécie Humana, como forma de despertar a Consciência Universal da Espécie.

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Ao iniciar este texto, não sendo eu nenhum literato ou mestre em "literatices", ou versado em alguma ciência política, pretendia apenas traçar um paralelo entre a obra de Inácio de Loyola Gomes Bueno e sua rica, desprendida e produtiva existência. Afinal, o autor foi membro da Companhia de Jesus, Padre Diocesano afastado da Igreja por comprometimento com problemas sociais na época do triste e sangrento regime Militar Brasileiro, afastado por pressão militar tendo sido forçado a exilar-se na França onde permaneceu durante oito anos onde cursou Sociologia e por intermédio de uma bolsa, ter ido a Tanzânia e posteriormente ingressado no Curso de Psicanálise existencialista em Paris e ao retornar ao Brasil ter passado por inúmeras dificuldades, tentando retornar ao ministério sacerdotal e passando a exercer a psicanálise, sempre atendendo generosamente a todos que o procuram.

Com tantas características tão fortes, marcantes, e uma vida dedicada a humanidade, entretanto fiquei pasmo quando, ao buscar alguma informação complementar sobre Inácio, com exceção uma referencia em um sebo que comercializava o livro, nenhuma informação existia em um dos maiores "motores" da globalização, o Google. Seria apenas uma triste coincidência? A mesma "coincidência", que retirou a "gloria" de Nikola Tesla como o descobridor e inventor? A mesma que o Império Romano, que adotara o cristianismo como religião oficial tentou apagar da história o “concorrente” de Jesus Cristo, Apolônio de Tíana? A mesma "coincidência" que atinge, atingiu e atingirá grandes seres humanos que lutam em prol da humanidade? Afinal, Ignácio de Loyla Gomes Bueno era, segundo suas próprias palavras, "apenas um brasileiro anônimo e obscuro, como soem ser os anônimos."

Em 2000 sofreu um AVC, seguido por várias doenças e em 2001 escreveu este "O Futuro Começou". E em 29 de Junho de 2007, Inácio Bueno faleceu mas deixou, como todo "anônimo obscuro" , um legado de humanidade que irá permanecer dentro daqueles que tomarem para si suas palavras e principalmente suas ações. A Revolução que pregastes, Inácio, começou dentro de mim, e espero que dentro de todos aqueles que também de sua fonte inesgotável de humanidade beberem.


INACIO DE LOYOLA GOMES BUENO

Dados Pessoais
Nome: INACIO DE LOYOLA GOMES BUENO
Nascimento: 01/05/1926, Passos, Minas Gerais

História de Vida

01/02/1943 - Ingressa na Companhia de Jesus.
31/01/1964 - È desligado da Companhia de Jesus.
1963 - Torna-se padre diocesano, incardinando-se na Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda, e assumindo a função de dirigente do Círculo Operário de Volta Redonda.
07/04/1964 - Apresenta-se à prisão em solidariedade a Lainor Ferreira, Presidente do Sindicato de Trabalhadores na Construção Civil, de Volta Redonda, por lutar energicamente por uma sociedade justa e democrática, por ter compromisso com os interesses populares por sonhar com um Brasil livre e democrático.
13/06/1964 - É impedido de exercer suas funções sacerdotais na Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda pelo General Octacílio Terra Ururahy, em carta intimação dirigida ao Bispo D. Altivo Pacheco Ribeiro: “O objetivo é impedir que Pe. Bueno retorne a exercer suas atividades político sociais na Diocese de Volta Redonda, área sensível à segurança militar”.
19/06/1964 - O General Octacílio Terra Ururahy, em “Solução de Sindicância”, exigiu de D. Altivo Pacheco Ribeiro, bispo diocesano de Piraí-Volta Redonda, a adoção de medidas que mantivessem afastado o Pe. Inácio Bueno das suas atividades nas regiões de Volta Redonda, Barra Mansa, Barra do Piraí, Ponte Coberta e Ribeirão das Lages. Na tentativa de encontrar espaço para trabalhar na Ação Católica, junto dos leigos da Diocese e de outros sacerdotes, Pe. Bueno busca uma Igreja aberta, evangélica, conforme o espírito do Concílio Vaticano II, num pioneirismo entusiasta e forte. Entretanto, novamente é calado por forças conservadoras e denunciado pelo Prefeito de Volta Redonda, o que dificulta seu retorno à Diocese.
11/09/1964 - Já em Barra do Piraí, escreve a D. Altivo expressando a frustração de ver interrompido seu trabalho junto à Equipe do Plano de Emergência, suspenso sumariamente pela Diocese.
02/08/1965 - D. Altivo e o Conselho Diocesano determinaram que Pe. Bueno deixe suas funções de pároco num prazo de trinta dias e abandone a Diocese, sob pena de suspensão de Ordem. Na tentativa de continuar contribuindo com seu trabalho na Igreja, Aceita pequenas paróquias como Quatis, Porto Real, Falcão, S. Joaquim, conforme carta ao bispo que tomou posse na diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda. Em outras cartas, busca a coerência entre o que dizia e o que fazia, como única forma de não perder o rumo. Neste desafio da vida em prol da verdade, da justiça e do respeito ao ser humano sacrifica sua saúde, tendo sido submetido a duas cirurgias de estômago em decorrência de úlceras hemorrágicas. Sem apoio da Igreja, afastado de suas funções e perseguido pelo Estado, só tem uma saída: partir em exílio forçado.
1967 - Ajudado por D. Waldyr Calheiros de Novaes, em 1967 transfere-se para Lille, na França, onde permanece por oito anos. Durante este tempo sombrio não lhe faltam dificuldades de toda espécie: inserir-se numa Igreja fechada em Lille, incerteza em relação ao futuro, medo e insegurança de retornar ao Brasil em plena ditadura. Na França, tem a possibilidade de fazer os Cursos de Sociologia e Psicanálise. Durante o Curso de Sociologia, por meio de uma bolsa, vai à Tanzânia (África) para ver de perto o Sistema de Educação daquele país voltado para a população carente e marginalizada. Ingressa no Curso de Psicanálise existencialista em Paris e participou de grupos de pesquisa e estudo de Dasein Análise e Análise Didática.
20/01/1975 - Volta ao Brasil, com a ajuda de empréstimo de D. Waldyr, desembarcando em São Paulo. onde permanece, sofrendo pressão de todos os lados: sem trabalho pastoral, sem emprego, sem dinheiro, sem perspectivas futuras. Nessa cidade, começa uma trajetória de sobrevivência, sujeitando-se ao salário mínimo, que o obriga a viver em precárias condições financeiras. Nessa ocasião, escreve a D. Waldyr: “Todos os Padres, Bispos e Papas deveriam passar pela experiência do trabalhador, condição da maior parte da humanidade”. Ainda em 1975, em correspondência com amigos, tem cartas censuradas. Com medo, escreve a D. Waldyr por meio de outra pessoa. Com a saúde debilitada, começa a queixar-se de completa exaustão. Ainda assim tenta retornar ao ministério sacerdotal, pedindo a D. Waldyr que o apresentasse ao D. Evaristo Arns, arcebispo da Arquidiocese de São Paulo). Na carta a D. Waldyr, dizia sentir falta do ministério, do trabalho pastoral: “Não sei o que será de mim no futuro, mas penso que é bem possível que eu reassuma a vida eclesiástica totalmente. Vejo-me numa encruzilhada. Espero sair dela”.
Do labirinto se sai por cima. Aqui a Igreja perdeu um sacerdote humano, um cristão respeitoso pela vida humana e um cidadão idealista. Fica a pergunta: o que fez o Estado pelos cidadãos brasileiros vitimados pela repressão da ditadura militar?

Inácio de Loyola Gomes Bueno, aos 38 anos, em plena maturidade produtiva, foi afastado do ministério sacerdotal, ceifaram-lhe os ideais de luta pelos oprimidos, pela democracia, cortaram-lhe em carne viva, quiseram tirar sua esperança, adoeceram-lhe o corpo, dividiram-lhe o espírito. Mas este homem incansável não se deixou render. Teve de reconstruir sua vida palmo a palmo, sem deixar nunca o compromisso assumido com a vida humana. Foi educador, psicanalista, mestre de muitos, esposo e companheiro e pai de dois filhos.

1980 - Casa-se com Angela Maria Bicalho Antunes. Desse casamento nascem dois filhos: Marcelo Antunes Bueno e Sara Antunes Bueno.
Nunca deixou sua militância política em favor dos menos favorecidos; era um crítico voraz de qualquer regime repressor e da mídia enganadora e destrutiva. Semanalmente escrevia para jornalistas, elogiando-os, criticando-os ou sugerindo-lhes novas formas de ver o mundo e o homem. Solícito, ajudava a todos que cruzavam seu caminho. Para ele o Ser sempre esteve acima do Ter.

Em 1995, aos 69 anos, aposenta-se com menos de dois salários mínimos, sem nunca deixou a psicanálise e, mesmo doente, continua a atender as pessoas que o procuravam, e deste modo procedeu até um mês antes de sua morte.

Em 2000 sofre um AVC, quando teve início uma jornada de sete anos marcada por várias doenças: diabetes, hepatite, mal de Parkinson. Mesmo doente, escreveu uma pequena reflexão sobre a Queda das Torres Gêmeas e o significado da espécie humana, em 2001.

Lutou contra as doenças com a mesma coragem, otimismo e tolerância que sempre marcaram sua personalidade, assim como enfrentou tantos desafios de sua vida.
O Brasil tem uma dívida com este homem! Digno brasileiro, cidadão de vanguarda, educador por natureza! E o o Estado precisa repará-lo, revendo as conseqüências de seus atos, que atingiram a muitos e potencialmente a este homem, que só quis a justiça e a igualdade entre os irmãos.

Em 29/06/2007 ele nos deixou, mas sua história comovente nos orgulha por termos tido o privilégio de conhecê-lo e de conviver com ele os seus bons e difíceis dias.

Inácio de Loyola Gomes Bueno: um homem apaixonado pelo povo brasileiro e pela humanidade.
27/11/2011
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.861 - Livro 974 - Folha 209
Sob a Luz do Farol - Viegas Fernandes da Costa
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O Futuro Começou - Inácio de Loyola Gomes Bueno
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Kiss Por Trás da Máscara (A Biografia Oficial Autorizada) - David Leaf e Ken Sharp
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De Espantalhos e Pedras Também Se Faz Um Poema - Viegas Fernandes da Costa
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Adoniran Barbosa Uma Biografia - Celso de Campos Jr.
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